O que fazer com o Exército argentino em um país sem
probabilidade de conflito, com estratégias regionais de integração e com uma
lei de segurança taxativa?
Mario Antonio Santucho – Carta Maior
Certa vez, Néstor Kirchner falou para sua ministra da Defesa:
“Não quero um exército politizado porque, se eu tenho um exército kirchnerista
hoje, amanhã terei um exército antikirchnerista”. A sensatez da razão torna
ainda mais chamativa a evolução das Forças Armadas desde o aparecimento do
fator Milani. O atual chefe do Estado Maior do Exército declarou em uma
entrevista a Hebe Bonafini em dezembro de 2013 que “nos últimos dez anos,
consolidou-se um processo de transformação nas Forças Armadas, que começaram a
ver um projeto nacional ou um modelo de país no qual as Forças querem se
inserir muito profundamente”.
Os notáveis avanços e os surpreendentes retrocessos do
oficialismo nessa questão têm apenas uma explicação possível: os motivos da
aliança entre o governo e o general Milani são inconfessáveis. Ao cabo de uma
década na qual a política assegura ter recuperado o protagonismo graças à
influência do consumo reparador, à reposição de soberania estatal e aos
discursos midiáticos, as forças conservadoras e invariantes que pululam nos
subsolos da espionagem vêm à superfície para influenciar no que está por vir.
Há quem diga que é inevitável mexer na fonte dessa racionalidade noturna de
espionagem, escutas e caça-fantasmas quando o que se pretende é consolidar a
hegemonia de um projeto de poder. Mas à medida que o “dia seguinte” se
aproxima, os militares recuperam autonomia e geram as condições para que voltem
a ocupar um lugar na cena.
A inteligência sem Estado
Em outubro do ano 2000, Nilda Garré assumia a Secretaria
Executiva da Unidade Especial de Investigação criada pelo governo da Aliança
com o objetivo de esclarecer o atentado à AMIA (Associação Mutual Israelita
Argentina). Um ano depois, ela renunciou por conta das pressões que se
colocaram diante de seus interesses de desfazer a teia que o menemismo havia
tecido na Justiça para manipular a investigação do fato. A onda expansiva da
queda das Torres Gêmeas havia chegado até Buenos Aires.
Naquela época, a então senadora do Partido Justicialista
Cristina Kirchner integrava a Comissão Mista de acompanhamento à Investigação
dos atentados à Embaixada de Israel e ao edifício da AMIA, criada em setembro
de 1996. A voz de Cristina foi uma das poucas dissidentes naquele corpo
legislativo especial orientado a dar respaldo à duvidosa atuação do juiz
federal Juan José Galeano e dos promotores – entre os quais, Alberto Nisman.
Quando o século vinte agonizava, tanto Cristina como Nilda conheceram a teia de
espionagem local, cujos fios se estendiam dos Estados Unidos até Israel.
Daquela época data a amizade de ambas com Fernando Pocino, um agente da SIDE
(Secretaria de Inteligência do Estado) de origem radical que, durante o
kirchnerismo, ganharia relevância. Durante o dezembro mais quente da história
argentina, alguns políticos voltaram a bater à porta dos quarteis.
A declaração de Estado de Sítio de 19 de novembro de 2001
foi concebida pelo então ministro da Defesa Horacio Jaunarena como o primeiro
passo de uma estratégia prevista pelo artigo 32 da Lei de Segurança Interna: “o
Presidente da Nação (…) empregará elementos de combate das Forças Armadas para
o restabelecimento da situação normal de segurança interna, prévia declaração
do estado de sítio”. Um assessor militar encontrou no escritório de Jaunarena,
entre seus papéis abandonados logo após o estalido do governo de De La Rúa, um
decreto cuidadosamente redigido por meio do qual se criavam os Comandos
Operacionais previstos pelo inciso “b” do artigo citado acima: “Será designado
um comandante operacional das Forças Armadas e a ele serão subordinadas todas
as demais forças de segurança e policiais”. A janela legal rumo à militarização
da segurança interna estava a ponto de ser aberta. Mas foi aí que se escutou o
“que se vayan todos” (“que todos sumam daqui”).
Por aqueles dias, um desconhecido César Milani era promovido
a coronel do Exército.
Garra para o processo
Em apenas quatro anos de exposição pública, César Milani é
perfilado como o protagonista do terceiro ato relevante do pálido filme militar
na democracia. O primeiro ato foi a luta nos anos 80 entre os genocidas em
debandada e a estridente aparição dos caras pintadas. O segundo, um aflito
general Balza oferece à tribuna uma autocrítica em relação ao passado e neutraliza
as hipóteses de politização na década neoliberal. Empaladas pela vergonha de
ter sido a pior fábrica do autoritarismo, esvaziadas até a inanição e
incapacitadas de imaginar novos horizontes de desenvolvimento, as Forças
Armadas chegaram ao século XXI com a língua de fora.
A gestão de Nilda Garré frente ao ministério entre 2005 e
2010 foi um divisor de águar porque tentou remover as bases de sustentação
institucionais, atacando ao mesmo tempo o aspecto ideológico (os direitos
humanos como valor supremo), a questão cultural (modificação radical da
formação militar), e defendendo a presença feminina no interior das Forças. Do
ponto de vista político, Garré avançou decididamente sobre a autonomia militar
no manejo das Forças.
Para Marcelo Saín, autor do livro Os votos e as botas
(2010), a gestão de Garré foi a melhor do período democrático na área da
Defesa, “já que teve como horizonte a construção de capacidade de mando
ministerial sobre o aparato militar, apropriando-se com êxito da capacidade de condução
que historicamente haviam sido delegada aos Estados Maiores de cada Força”. O
autor considera que “depois desse processo exitoso, muito pouco valorizado
politicamente porque foi mais um projeto ministerial e não governamental, com a
chegada de Puricelli tudo volta a ser como antes”. Mas sua preocupação não está
no nível dos políticos, mas na expansão da influência de Milani, a quem em seu
livro se referia (sem nomeá-lo) como um “assessor de inteligência de pouca
importância que opera no entorno de Nilda Garré”.
Saín está convencido de que “o governo, assim como não
estava de todo consciente do que significava a agenda de Nilda na Defesa,
tampouco conhecia bem a mudança que Milani significava para o interior das
Forças Armadas. Não está dentro do Painel de Controle do Governo Nacional e
muito menos de um governo em retirada, imerso em uma crise econômica”.
Elevador verde
César Santos Gerardo del Corazón de Jesús Milani foi
promovido a general de Brigada em 2007. Nesse mesmo ano, uma operação exitosa
de inteligência é realizada. Enquanto finalizavam os preparativos para a troca
de Néstor por Cristina, os funcionários compravam suas fichas e faziam suas
apostas. O multifuncional Aníbal Fernández, então ministro do Interior,
especulava para assumir a Defesa. Para consegui-lo, conspirava com o titular do
Exército, Roberto Bendini, e com o chefe da Inteligência Militar (conhecida
como J-2), Osvaldo Montero. Essa foi a versão que o segundo de Montero
apresentou à ministra Garré, de maneira reservada. A ação desencadeou a
demissão do chefe dos espiões e a promoção de Milani ao comando da J-2. No ano
seguinte, Bendini, o general que tirou os quadros, foi aposentado, sem honras.
Toda a liderança militar é construída em dois terrenos
distintos. De um lado, está a carreira profissional, que não se rege por
parâmetros puramente meritocráticos. Para subir, é preciso assumir determinados
estilos, tecer cumplicidades e ser portador de uma certa representatividade
corporativa. O tom conservador impregna as condutas desde o mesmíssimo Colégio
Militar. Para aqueles que chegam a um plano superior, a bajulação passa a ser o
elemento determinante. O vínculo com os atores políticos se constitui no
fator-chave.
Milani jurou lealdade ao projeto de Garré e deu a entender
que colocava à sua disposição o aparato de Inteligência do Exército. Os
primeiros movimentos logo em 2007 foram de sedução. O general depurou todos os
agentes envolvidos com a repressão ditatorial e acatou com entusiasmo a
modernização do serviço de espionagem. A hierarquização da inteligência militar
foi um dos principais itens no redesenho da Forças Armadas imaginado pelo
ministério, em função das novas teorias sobre a questão bélica, o que se
expressou no crescimento significativo do orçamento dedicado a isso. Também
resultou na considerável expansão de sua rede de influência, implantando
secionais em quase todas as unidades que o Exército possui no país, por menores
que fossem.
2010 foi o ano da reviravolta nessa história. Nos primeiros
dias de janeiro, uma peça-chave da equipe de Nilda Garré pediu demissão; o
então vice-ministro Germán Montenegro, atual titular da Polícia de Segurança
Aeroportuária, saiu do ministério incomodado com o crescimento de Milani nas
Forças Armadas. Na imprensa, Montenegro relata uma aliança entre o general
espião e outro homem-chave da espionagem nacional, o atual chefe do
Departamento de Reunião Interior da Secretaria de Inteligência do Estado,
Fernando Pocino. O alcance dessa conexão é e continuará sendo um enigma, mas é
possível deduzir sua importância como base de sustentação do projeto de Milani.
Em fevereiro do mesmo ano, a revista Veintitrés publicou
“Todos os nomes do Batalhão 601. Um documento histórico: a lista completa de
todos os que integraram o organismo de inteligência da ditadura militar entre
1976 e 1983”, uma informação tornada pública por Milani. Três meses depois, o
Exército participou de maneira entusiástica das festas do Bicentenário, um
impactante e inesperado momento de reunificação pátria. Segundo o pesquisador
Máximo Badaró, “a celebração do dia do Exército, o 29 de maio, se transformou
na ocasião privilegiada para reescrever seu passado institucional e restaurar a
sintonia entre a memória militar e a memória nacional. Para isso, as
autoridades militares construíram um relato que omitia seu protagonismo na
última ditadura e ressaltava em contrapartida sua contribuição ao
desenvolvimento econômico e social do país, e seus vínculos com a sociedade no
contexto democrático atual” (Histórias do exército argentino, 2013).
A partir da morte de Néstor Kirchner em outubro de 2010, e
especialmente logo após os enfrentamentos de dezembro no Parque Indo-americano
da Cidade de Buenos Aires, em que três pessoas morreram como consequência da
repressão das forças policiais, um novo esquema foi montado na área de
Segurança. A magnitude alcançada por um novo tipo de conflito social que
transformou os territórios provocou o transbordamento das polícias federais e
provinciais, que foram penetradas pela potência econômica das redes criminosas,
anulando a histórica regulação do delito exercida pelas forças de segurança.
Nesse contexto, decidiu-se aprofundar a intervenção da Gendarmaria Nacional e
da Prefeitura Naval em tarefas policiais, remanejando milhares de efetivos das
fronteiras em direção às cidades. Em 10 de dezembro, criou-se o ministério da Segurança
e Nilda Garré foi nomeada para comandar a nova estrutura. Arturo Puricelli, um
velho político de Santa Cruz, assumiu como ministro da Defesa. A partir desse
momento, os assuntos militares foram decididos diretamente entre César Milani e
a presidenta Cristina.
Antes do Natal, Milani é promovido a general de Divisão e
passa a controlar a subchefatura do Exército. Pela primeira vez, sua figura é
questionada publicamente durante a discussão da sua indicação no Senado, na
qual se aponta uma suposta afinidade com os caras pintadas. Mas, em vez de
discutir sua situação no presente, aqueles que exigem a demissão do novo homem
forte do Exército buscam argumentos unicamente no passado para desautorizá-lo.
Fronteiras da lei
O terrorismo foi a primeira das “novas ameaças” assinaladas
pelo Comando Sul do Exército Norte-americano e presentes no país. Segundo as
investigações judiciais, ela vem do Irã. Duas décadas depois do narcotráfico,
proveniente da Bolívia, do Paraguai e da Colômbia, isso ocupa o centro das obsessões
dos serviços secretos.
De acordo com as informações obtidas por Saín entre oficiais
atualmente na ativa, o Exército Argentino vem realizando atividades de patrulha
militar no norte desde pelo menos outubro de 2011. Os efetivos escalados para
tarefas relacionadas com o combate ao narcotráfico pertencem às Brigadas, V com
sede em Salta, XII em Posada e III em Resistencia. As patrulhas estão
conformadas pelo pessoal do Exército, que participa com restrição das ações,
embora portando armas e sempre sob o comando formal de algum oficial. Tais
manobras fazem parte da Operação Fortín II, a maior mobilização operacional das
Forças Armadas desde a Guerra das Malvinas.
Fortín II é o dispositivo criado para incluir as Forças
Armadas na Operação Escudo Norte, uma iniciativa do ministério de Segurança
durante a gestão Garré. As leis de Defesa Nacional e de Segurança Interior
promulgadas na democracia impedem expressamente que os militares intervenham em
tarefas policiais, embora esta última preveja que “o Ministério da Defesa
disporá, em caso de requerimento do Comitê de Crise, do apoio das Forças
Armadas nas operações de segurança interior”. Como costuma acontecer em toda
trama normativa que incorpora a excepcionalidade como possível, a interpretação
se torna um campo elástico sujeito às correlações de forças.
A leitura dos decretos e resoluções despertam uma tensão
significativa sobre como as distintas Forças iriam se envolver. A Resolução
Ministerial que estabelece o Fortín II foi assinada pelo ministro da Defesa em
12 de julho de 2011 e apenas indica “incrementar e fortalecer as capacidades de
vigilância e reconhecimento da matéria aeroespacial”. Uma semana depois, o
decreto de criação do Estudo Norte diz que ele “terá por objetivo incrementar a
vigilância e o controle do espaço terrestre, fluvial e aéreo da jurisdição
nacional nas fronteiras nordeste e noroeste da República Argentina”.
Ambas as operações começaram em 20 de junho e deveriam ser
concluídas em 31 de dezembro de 2011. As Forças Armadas contribuiriam com a
informação solicitada pelo Sistema Nacional de Vigilância e Controle
Aeroespacial (Sinvica), um plano de radarização que data de 2014 com o objetivo
de monitorar o tráfego aéreo. O procedimento consiste em detectar “os voos
irregulares” e transmitir esse “dado neutro” às forças de segurança para que
procedam à eventual detenção. Em 7 de agosto, duas semanas depois de iniciadas
formalmente as operações, um helicóptero da Gendarmaria derrubou um pequeno
avião Cessna com 70 quilos de maconha em Campo de Gallo, a 200 quilômetros ao
norte de Santiago del Estero. O Eurcopter AS350 de Gendarmaria também caiu ao
solo logo depois de ser atacado pelo pequeno avião do narco.
Dentro desse contexto operacional, o Exército não tinha o
maior protagonismo. Mas começou a pressionar. Até que, em 9 de setembro do
mesmo ano, foi assinada uma Resolução Conjunta que prevê “a transferência do
Sistema de Defesa Nacional para o Sistema de Segurança Interior todos os dados
neutros relacionados a movimentos terrestres que foram oportunamente
registrados pelas Forças Armadas no marco do exercício regular de suas funções
de vigilância e controle”. Para tais efeitos, seriam empregados “radares
táticos de vigilância terrestre (Rasit), de dotação do Exército Argentino, na
zona delimitada pela Operação Fortín II”. Conscientes da ambiguidade da ordem,
a Resolução Interministerial anexou um Protocolo que confirma a diferença
essencial entre o que deve ser considerado um Tráfico Aéreo Irregular e o que
se denomina movimento terrestre “irregular”. O primeiro é fácil de determinar,
pois todo voo que não foi incorporado à Administração Nacional de Aviação Civil
deve ser considerado suspeito, mas como os veículos terrestres circulam
livremente, “não se pode qualificar como irregular um movimento terrestre na
tela de um radar tático de modo a ser devidamente interceptado e identificado
pelas Forças de Segurança”.
Foi assim que o Exército começou a desdobrar suas unidades
no território norte do país, com um agravante: diferente do sistema de radar
controlado pela Força Aérea, que possui localizações fixas, os Rasit devem ser
empregados de maneira móvel e isso pressupõe deslocamentos fora dos quartéis,
uma patrulha situada no limite da legalidade. A solução encontrada pelos
brigadeiros da Força Aérea no comando da Operação foi permitir os deslocamentos
sempre e quando estiverem sob as ordens e a responsabilidade de efetivos da
Gendarmaria. O desempenho dos radares foi péssimo, mas a presença militar nos
territórios continua e foi incrementada nos últimos meses.
Negócios de arma dura
A grande afinidade do general Milani com o poder político se
traduz em prerrogativas e benefícios que permitem construir legitimidade entre
seus pares. A Operação Fortín II é um argumento de peso não apenas por sua
magnitude estética, mas também pelo que ela implica em termos de orçamento. O
Decreto 1091/2011 estabelece que se aplique ao pessoal militar afetado “um
regime de diárias equivalente ao homologado para o pessoal da Administração
Pública Nacional estabelecido no artigo 45 do Anexo I do Decreto Nº 214 de
2006, com suas sucessivas modificações, assim como suas normas particulares de
liquidação”. Isso permite aos soldados e oficiais quase duplicar seus minguados
salários, já que todos os gastos de manutenção são cobertos pelo Exército.
No mesmo sentido, adverte-se quanto ao crescimento do número
de integrantes da cúpula militar. Segundo dados trazidos pelo historiador
Máximo Badaró, no fim da ditadura, o Exército contava com 102 generais para um
total de 103 mil efetivos. Mas, já em 1984, essa quantidade havia se reduzido a
39 e, durante os vinte anos que vão de 1990 a 2010, não passaram de 35. Mas
essa tendência decrescente foi quebrada e, atualmente, há pelo menos 54
generais para uma dotação que ronda os cinquenta mil membros, uma média de um
para cada mil, assim como em 1982. essa propensão à macrocefalia contradiz a
intenção de construir um controle unificado das três forças, mas é bem-vista no
interior do Exército porque amplia as possibilidades de ascensões, “alargando o
fuzil”.
Quanto, em junho de 2013, a presidenta ordenou a troca de
todos os chefes militares, a consagração de César Milani foi definitiva. Pela
primeira vez na história do Exército argentino, um oficial da área de
inteligência assumiu a chefatura da Força, contrariando a tradição que
estabelece a artilharia, a infantaria e a cavalaria como os três serviços
principais com os quais se maneja uma guerra. Ao mesmo tempo, o general de
divisão Luis María Carena, também oriundo da área de inteligência e, portanto,
subordinado de Milani, foi colocado à frente do Estado Maior Conjunto,
deslocando o brigadeiro general Jorge Chevalier, que estava no posto desde
2003. Outro general do Exército, Luis Cundom, foi designado comandante
operacional do EMC. Milani multiplicou sua influência colocando quadros da
inteligência militar em postos-chaves.
Um fato aparentemente sem vínculo com essa trama, mas que
algumas pessoas ao par das redes de espionagem local apontam como muito
relevante, foi a assinatura, no começo de 2013, do Memorándum de Entendimento
entre Argentina e Irã sobre os temas relacionados ao ataque à sede da AMIA.
Segundo os entendidos, esse giro de 180 graus nas investigações constitui uma
afronta aos dirigentes da Secretaria de Inteligência do Estado (ex-SIDE), em
especial ao mítico Antonio Stiusso, até então vencedor de todas as disputas
internas do organismo, e de fortes vínculos com a CIA e o Mossad. Stiusso, por
meio da Direção Nacional de Contrainteligência, tem o monopólio estatal das
escutas, tem fortes influências no Poder Judiciário da Nação e se reporta ao
Subsecretário Fernando Larcher, o pinguim a quem Néstor pediu para fazer um
pacto com os espiões, mas que nunca contou com a confiança de Cristina. No
contexto de uma transição para 2015 sem certezas de nenhum tipo, a aliança
entre o homem forte da Inteligência Militar e o ressuscitado Fernando Pocino
traria um destaque particular para o governo. Um rumor amplamente difundido nos
corredores da política portenha (com sucursais em Puerto Madero) assegura que a
ex-SIDE de Larcher e Stiusso mandou um informe à presidência em outubro de 2013
com a notícia de quer Sergio Massa não participaria das eleições legislativas –
e das quais, no último momento, ele decidiu participar, ganhando do oficialismo
com facilidade.
Essas versões não podem ser comprovadas porque pertencem ao
universo daquilo que não se pode admitir – lá onde se conformam as bases de
sustentação de uma política que continua tendo o traseiro sujo e não admite que
se tracem alianças talvez imprescindíveis para um governo com problemas, mas
imperdoáveis pelo fato do que elas poderiam significar em um futuro com os
militares outra vez ativos nos assuntos internos.
Segundo Alberto Binder, integrante do Acordo de Segurança
Democrática e da Iniciativa Cidadã para o Controle do Sistema de Inteligência
(ICCSI), “Milani é um sapo muito grande para este governo. Primeiro, se vamos
traçar uma linha sobre quem teve participação na ditadura, é preciso ser claro.
Então, Milani fica do lado dos que nunca podem ser chefes do Exército por mais
que se diga que era jovem. Segundo, dar poder à inteligência militar no
contexto atual, em que há uma pressão internacional muito forte para que os
exércitos se metam no tema do narcotráfico, terrorismo e segurança nacional, é
outra vez brincar com fogo. Terceiro, dar um projeto político de desenvolvimento
nacional ao Exército é não reconhecer a história que temos. Não precisamos do
Exército nas cidades com La Cámpora. É muito prejudicial essa restauração do
Exército como sujeito político interno que vai se metendo por um lado e por
outro”.
Em definitivo, o que Milani conseguiu foi arranjar um grande
negócio com o kirchnerismo. Trocou lealdade por uma autonomia cada vez maior,
algo que muito poucos conseguiram. O argumento do general é a inteligência. E a
mentira.
O batalhão inimigo
Hugo Agapito Ledo, natural da cidade de La Rioja, então
estudante de Filosofia na Universidade de Tucumán, fazia parte da Frente
Inimiga, uma estrutura criada na década de setenta pelo Partido Revolucionário
dos Trabalhadores (PRT-ERP) para coordenar os militantes, aspirantes e
simpatizantes em idade de fazer o serviço militar. O objetivo era prepará-los
para realizar tarefas de inteligência nas fileiras inimigas. Todas as
averiguações faziam-se úteis com a finalidade de um maior conhecimento das
Forças Armadas, de suas instalações e capacidade, de seus planos e objetivos.
Quem integrava essa rede secreta também tinha como missão as tarefas de
recuperação de armas, munições, equipamentos, além da realização de sabotagens
de forma permanente.
Em 1973, durante a tentativa da tomar por meio das armas o
Comando de Saúde por parte do ERP, quem abriu as portas para a entrada no
quartel foi o recruta Hernán Invernizzi, que como consequência ficou mais de
dez anos preso. Em 1974, a mesma organização guerrilheira assaltou o Regimento
17 das Tropas Aerotransportadas com sede em Catamarca, contando com a
colaboração de alguns soldados que atuavam naquela unidade militar. Em seu
livro O esquadrão perdido, José D’Andrea Mohr conta 129 recrutas desaparecidos
dentro dos quarteis durante os anos setenta. Investigações realizadas pelo
Instituto Espaço da Memória de Santiago do Estero confirmam que vários deles
pertenciam à Frente Inimiga. É o caso de Hugo Milcíades Concha, de Santiago,
então estudante de Engenharia da Computação, que foi emboscado por seus chefes
em 17 de maio de 1976 nas cercanias de seu próprio quartel, o Batalhão de
Engenheiros de Combate 141. Germán Cantos, também de Santiago e membro da
Frente Inimiga, era estudante de Psicologia e desapareceu em 3 de setembro do
mesmo ano. Assim como Ledo, foi acusado de desertor.
O então tenente César Milani assinou a ata de deserção do
recruta Ledo em 17 de junho de 1976. Existem relatos críveis sobre o problema
que representava para um integrante médio das Forças Armadas daquela época o
fato de militantes revolucionários se infiltrarem em uma instituição que se
sentia portadora da essência nacional. Nenhuma ofensa poderia ser maior para um
militar de lei, inclusive com convicções democráticas. No entanto, Milani jura
que aquilo foi um trâmite burocrático e fortuito. E, em que pese a intensidade
alcançada pelos enfrentamentos, ele desconhecia absolutamente o marco político
que rodeava o caso. Independentemente do que pensemos sobre o ocorrido nos anos
setenta, é difícil calar a certeza de que o atual chefe do Exército mente.
Porta de ferro
No livro Civis e militares: memória secreta da transição,
publicado em 1987, Horacio Verbitsky escreveu que “cada governo tem um tema com
o qual se identifica e em relação ao qual se prestam contas. Perón foi
criticado pela sua política institucional, sem que isso resultasse na
diminuição da sua assombrosa popularidade. Mas seu governo entrou em crise em
1952, quando mudou o discurso da justiça social pelo da produtividade”. O mesmo
critério foi utilizado pelo jornalista e pesquisador para julgar o governo de
Alfonsín, quando as promessas radicais em matéria de reconstrução da soberania
democrática foram por água abaixo e anteciparam um triste e explosivo final.
O kirchnerismo tentou reunir os dois principais fundamentos
que instituíram legitimidade durante o século passado: redistribuição de renda
mais direitos humanos. Em ambos os campos, o governo emite sinais de certa
mudança de rumo, em um contexto ordenador e normalizados. Como se admitisse que
começou a fase de declínio, pretende fazer uma transição sem sobressaltos em um
cenário cuja virada à direita parece ineludível. Sem ânimos nem disposição para
um balanço crítico sincero, o horizonte das forças comprometidas com “o
projeto” pode ser de desagregação e perda de autoridade moral para discutir o
que está por vir. A resolução do affair Milani terá um peso determinante nesse
dilema. “Eu sei que quando, quando a Cristina sair, terei que me exilar”, disse
o general militante a um militar de alta patente em uma conversa de amigos. Os
homens e as mulheres passam. As cagadas permanecem.
Original:
http://www.revistacrisis.com.ar/el-general-militante.html
Tradução: Daniella
Cambaúva
Créditos da foto: Arquivo
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