por Prabhat Patnaik [*] - http://resistir.info/
Foi pintado um quadro da globalização que é como se segue:
os salários reais no sul são muito mais baixos do que no norte, uma vez que o
sul está sobrecarregado com grandes reservas de trabalho. Num mundo onde o
capital é móvel, ainda que o trabalho não o seja, o capital do norte mudará a
localização da sua actividade produtiva do norte para o sul, para aproveitar
destes salários baixos, a fim de atender à procura global. Ainda que o capital
do norte não se mova para o sul, capitalistas locais no sul que têm acesso (ou
possam obter acesso) a tecnologias de produção de vanguarda num grande número
de sectores, podem produzir no sul a fim de atender a procura global. Eles
podem assim fazer com êxito devido aos baixos salários do sul, desde que não
haja barreiras para o fluxo de bens e serviços do sul para o norte. Uma vez que
"globalização" implica a ruptura de barreiras ao livre fluxo de bens
e serviços e de capital, incluindo aquele na forma financeira, segue-se que a
era da globalização é a era da emergência do sul, de uma difusão maciça do
"desenvolvimento", dentro da ordem capitalista mundial, do norte para
o sul, pela que desaparecerá a dualidade historicamente observada da economia
mundial.
Durante algum tempo este prognóstico parecia justificado. A
China registou enormes taxas de crescimento com base no aumento de exportações.
A Índia testemunhou um aumento significativo em exportações do sector de
serviços e também alcançou taxas de crescimento impressionantes, em comparação
aquelas muito mais baixas na era dirigista pré liberalização pareciam
insignificantes. A ascensão nos preços das commodities primárias, causada entre
outras coisas pelo aumento da procura de uma economia chinesa em rápido
crescimento, ajudou a África e a América Latina a registarem também taxas de
crescimento expressivas. Com a globalização parecia que havia chegado o
"momento" do sul. E o capital financeiro internacional publicitou
este tema da difusão do "desenvolvimento", uma vez que ele
"legitimava" a globalização, pintando-o numa luz extraordinariamente
favorável como uma ruptura com todas as dicotomias passadas.
Este prognóstico também tinha um corolário: o sul já não
precisava de se preocupar acerca do seu próprio mercado interno, nem acerca da
distribuição igualitária de activos entre o seu povo, acerca de reformas
agrárias, acerca da elevação do padrão de vida da sua população. Ficar
"aberto" a fluxos de bens e serviços e de capital era tudo o que
importava, uma vez que automaticamente asseguraria crescimento e elevaria o
padrão de vida da população, se não imediatamente pelo menos ao longo do tempo
– mas nenhuma estratégia de expansão do mercado interno era realmente
necessário. Ao contrário, se o sul executasse reformas estruturais para uma
distribuição igualitária de activos e rendimentos, então a inquietação social
resultante poderia mesmo afastar a entrada do capital global e privá-lo da
oportunidade de crescimento que a globalização havia aberto. O que havia a
fazer, em suma, era evitar quaisquer reformas igualitárias e simplesmente
acalentar o neoliberalismo, uma conclusão que ia tão directamente contra toda a
tradição teórica que havia emergido das correntes "nacionalistas" e
leninistas que, por algum tempo, aquelas correntes teóricas pareceram fora de
moda e obsoletas.
CENÁRIO ALTERADO
Este cenário foi completamente alterado. A crise que em 2007
afundou o mundo capitalista avançado propagou-se agora ao sul, com taxas de
crescimento tanto na China como a Índia a desacelerarem notavelmente. E além
disso o velho mecanismo de estímulo ao crescimento dentro da globalização
parece ter chegado ao seu fim, levando as economistas sulistas a um beco sem
saída.
Isto era de esperar. Se o estímulo ao crescimento de uma
economia decorre basicamente da sua capacidade de exportar para o mercado
mundial, então a taxa de crescimento da procura mundial terá uma influência
importante sobre a sua taxa de crescimento. A recessão mundial, não
surpreendentemente, atingiu as economias do sul, incluindo a China e a Índia –
e as suas taxas de crescimento também vieram abaixo.
Mas levanta-se aqui uma questão: uma vez que os salários
sulistas continuam a ser consideravelmente mais baixos do que os do norte, por
que o processo de "difusão" de actividades não deveria, ainda que sob
a égide do capital metropolitano ou de produtores internos, continuar em plena
força, de modo a que a taxa de crescimento nos países de baixos salários não
afectasse a taxa de crescimento da procura mundial? Por outras palavras, por
que a taxa de crescimento da economia mundial não deveria afectar
exclusivamente os países de altos salários e excluir aqueles de baixos salários
dos seus efeitos destrutivos, até que as diferenças salariais na economia
mundial tivessem desaparecido?
A resposta a esta pergunta repousa na própria natureza da
globalização. A globalização não provocou a transferibilidade de todas as
actividades de todas as actividades, mas apenas de algumas. Em particular, ela
realmente fortaleceu o monopólio do capital metropolitano sobre tecnologias de
vanguarda num grande número de sectores, acima de tudo através da
institucionalização global de um regime de Direitos da Propriedade intelectual.
Isto significa que naqueles sectores onde o capital metropolitano não pretende
localizar suas unidades de produção no sul, os produtores locais no sul não
estão em posição de produzir para o mercado mundial. E o próprio capital
metropolitano não pretende, em actividades de tecnologia intensiva, mudar a sua
base de produção para o sul, privando-se de todas as vantagens que desfruta nas
suas localizações actuais no norte. O resultado de tudo isto é que há limites
para a difusão de actividades mesmo sob a globalização actual: actividades que
incorporam tecnologia barata conseguem difundir-se no sul mas não actividades
que incorporem tecnologia avançada.
DESACELERAÇÃO DAS TAXAS DE CRESCIMENTO
Se existe um tal limite para o espectro das actividades que
podem ser difundidas, isto aponta claramente para o facto de salários mais
baixos no sul deixarem de importar no que se refere à difusão. E nas
actividades que são difundidas, a taxa de crescimento da procura mundial
determina que as taxas de crescimento dos países hospedeiros seriam aquelas em
que tal difusão se verificou. Esta é a razão porque países do sul, que até
recentemente estavam a experimentar taxas de crescimento extraordinariamente
altas, agora começam a desacelerar.
Certamente esta desaceleração no sul não foi concomitante
com a desaceleração da economia mundial. Ao contrário, por algum tempo parecia
que o sul havia escapado ao destino do norte, que não seria vítima da crise tal
como as economias nortistas. Mas a razão para este interregno repousa não no
facto de o sul estar livre da influência da recessão mundial mas sim em outra
coisa, nomeadamente na formação de "bolhas" num certo número de
economias do sul mesmo após o colapso da "bolha" imobiliária nos EUA.
Uma vez que o capital financeiro internacional prefere
"finanças saudáveis", isto é, quer que os governos equilibrem seus
orçamentos (ou no máximo que tenham um défice orçamental que não exceda uma
certa percentagem do PIB, habitualmente 3%), a utilização do instrumento
orçamental para ressuscitar a actividade económica tem primado pela sua
ausência durante a actual crise global. O que o tem substituído é um vigoroso
recurso à política monetária. No principal país capitalista do mundo, os EUA,
as taxas de juro a curto e longo prazo foram virtualmente conduzidas para zero
através da intervenção do banco central (inclusive no mercado de títulos a
longo prazo do governo onde o banco central normalmente não intervém).
No processo de compra de títulos do governo o Federal
Reserve tem estado a bombear enormes montantes de dinheiro, um fenómeno que é
chamado "facilidade quantitativa" ("quantitative easing").
Embora haja alguma redução do montante bombeado a cada mês em relação ao nível
anterior de US$80 mil milhões, ainda há uma abundância de dólares a inundarem o
mundo os quais têm ido para as economias do sul com crescimento mais rápido, os
chamados "mercados emergentes", e ali criaram "bolhas".
A desaceleração do crescimento entre as economias mais
dinâmica do sul devido à recessão mundial foi portanto, numa certa medida,
contrariada pelo estímulo à procura dado pela formação destas
"bolhas" – e isto manteve as taxas de crescimento nestas economias
avançarem por algum tempo. A influência das mesmas, no entanto, começa a
desvanecer-se. O sul que supostamente estava em ascensão está agora a
testemunhar uma queda, a qual só pode ser impedida se o mercado interno for
expandido através de medidas igualitárias quanto à riqueza e à distribuição do
rendimento, mas que, além da China numa certa medida, nenhum outro país está a
fazer de qualquer maneira significativa (a China tem aumentado seus salários
reais internos, pelo menos nas regiões costeiras).
É improvável que a economia capitalista mundial registe
qualquer recuperação robusta no futuro previsível. Isto se deve ao facto de na
era da globalização, uma vez que os salários reais por toda a parte são
influenciados pelas grandes reservas de trabalho sulistas, o vector dos
salários mundiais tornam-se rígidos no sentido do aumento mesmo quando a produtividade
do trabalho ascende, levando a um aumento na fatia do excedente mundial. Esta
tendência é mais uma vez reforçada pelo enfraquecimento dos sindicatos (pelas
mesmas razões). Uma vez que o rácio fora do excedente é mais baixo do que
aquele fora dos salários, esta redistribuição de salários para lucros (e outros
rendimentos do excedente), cria uma tendência rumo à super-produção na economia
mundial.
Não se pode recorrer à intervenção do Estado para contrariar
esta tendência porque o capital financeiro, como já foi mencionado, prefere
"finanças saudáveis" e sob a globalização prevalecem os caprichos do
capital financeiro: sendo o capital financeiro internacional e os Estados sendo
Estados-nação, qualquer violação dos seus desejos corre o risco de provocar uma
fuga de capitais das suas costas. A única possível reacção à tendência em
direcção à super-produção na economia mundial sob estas circunstâncias é dada
pela formação de "bolhas". Mas estas não podem ser feitas sob medida
e, assim como a sua formação pode estimular o nível da actividade económica
mundial, o seu colapso seu o efeito oposto de mergulhar a economia mundial numa
crise aguda, como temos estado a ver.
Portanto, a economia mundial no período que vem aí é
provável que testemunhe um estado de quase estagnação, com breves recuperações
ocasionais seguidas por colapsos. As economias sulistas, ligadas sob o regime
de globalização à economia mundial, não estão em vias de conseguir algo muito
melhor. Um aspecto notável do sue alto crescimento passado é que mesmo naquele
período houve pouco impacto deste crescimento sobre o seu estado de desemprego
e sub-emprego e portanto sobre o estado de pobreza aguda do seu povo. Na
verdade, em muitos países o despojamento de camponeses e de pequenos produtores
tradicionais que ocorreu piorou ainda mais a pobreza. Na estagnação que os
ameaça nos próximos anos, uma vez que este despojamento não cessará (mas pode
mesmo ser agravado), a condição do povo piorará ainda mais.
A revolta popular contra um regime que produz tais
resultados pode ser protelada por algum tempo pelo recurso a várias formas de
fascismo, mas logo ficará claro que a promessa da globalização para o sul foi
uma quimera, que não há alternativa a uma ampliação do mercado interno como
meio de expandir a economia e que as mudanças estruturais exigidas para isto –
tais como a redistribuição igualitária de activos, que a esquerda sempre
enfatizou – são indispensáveis para o progresso.
Do mesmo autor em resistir.info:
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
O original encontra-se em http://peoplesdemocracy.in/2014/0720_pd/rise-and-fall-global-south
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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