Como uma guerra preventiva pode
se justificar? E como se pode enganar a si mesmo e sua retidão na presença de
imagens de horror de Gaza?
Gideon Levy – Haartez / http://www.cartamaior.com.br/
Começa como uma guerra de
escolha: uma política israelense diferente nos últimos meses a teria evitado.
Evoluiu para uma guerra sem sentido. Já é bastante óbvio que isso não resultará
em qualquer conquista de longo prazo. Pode ainda deteriorar-se num desastre, e
no final, vir a ter sido uma guerra de engano – Israel mentiu para si mesmo até
arruinar-se.
O primeiro engano foi o de que
não havia alternativa. É verdade, quando vários foguetes caem em Israel,
tornou-se o caso. Mas e os passos que levaram a eles? Foram passos para os
quais houve outras opções. Não é difícil imaginar o que teria acontecido se
Israel não tivesse suspendido as conversações de paz; se não tivesse lançado
uma guerra total contra o Hamas na Cisjordânia, no rastro do assassinato de
três adolescentes israelenses; não teriam deixado de realizar a transferência de
recursos destinados ao pagamento de salários na Faixa de Gaza; não seriam se
oposto ao governo de unidade palestina, e teriam atenuado o bloqueio da Faixa
de Gaza.
Os foguetes Qassam foram uma
resposta às escolhas de Israel. Depois que os objetivos se amontoaram, como
sempre ocorre em guerras – de parar os foguetes, para encontrar e destruir
túneis, e para a desmilitarização de Gaza. Eles podem bem continuar a
crescerem, para sabe-se lá o que mais. “O silêncio será recebido com calma”.
Lembram disso? Na sexta-feira, Israel rejeito a proposta de cessar-fogo do
Secretário de Estado John Kerry.
O segundo engano é que a ocupação
da Faixa de Gaza acabou. Imagine um enclave sitiado, cujos habitantes estão
aprisionados, com a maioria dos seus negócios e atividades controlados por um
outro estado – da manutenção do registro populacional ao comando de sua
economia, inclusive proibindo exportações e restringindo a pesca, e que voa no
seu céu e ocasionalmente invade o seu território. Isso não é ocupação?
O terceiro engano é a afirmação
de que as Forças de Defesa de Israel “fazem tudo o que está em seu alcance”
para evitar a morte de civis. Já passamos dos primeiros mil civis mortos, um
número assustador deles de crianças e a maioria dele de civis; com uma vizinhança
que foi destruída e 150 mil pessoas desalojadas sem lugar a salvo para onde
escapar. Tudo isso torna essa afirmação nada mais que uma piada cruel.
A afirmação de que o mundo apoia
a guerra e reconhece sua justeza também é um engodo israelense. Embora seja
verdade que os políticos ocidentais reiterem que Israel tem o direito de se
defender, os corpos que vão se empilhando e os refugiados desesperados estão
decepcionando o mundo e gerando ódio contra Israel. Finalmente, até os
estadistas que apoiam Israel lhe deram as costas.
O próximo engodo é que a guerra
mostrou ser “o Povo de Israel” uma
“nação maravilhosa”. Essa campanha mentirosa, intoxicante e autocongratulatória
e melosa já dura há tempo. A nação se moveu para dar suporte às trovas, e assim
segue. Mas além das vans cheias de doces e de caminhões com pacotes de roupas
íntimas, e funerais para soldados cujas famílias vivem no exterior, que milhares
de israelenses acompanharam e as demonstrações de preocupação com os feridos,
essa guerra também expôs outros comportamentos, em toda a sua feiura. Os
“soldados do comitê de bem estar” que são o Povo de Israel, expôs indiferença
em relação ao sofrimento do outro lado. Nem um gesto de compaixão, nem um pingo
de humanidade, nenhum choque, nenhuma empatia pela sua dor. As imagens
horríveis de Gaza – elas não são nada menos que horríveis – são recebidas aqui
com algo entre um bocejo e uma alegria. Um povo que se comporta assim não
merece os elogios que acumula sobre si. Quando as pessoas estão morrendo em
Gaza e, em TelAviv, as pessoas estão desinteressadas, não há razão para
agitação.
Nem há causa para agitação no
incidente da campanha contra meia dúzia de pessoas que se opõem à guerra. Do
gabinete de ministros e membros do parlamento para as ruas e os caras da
internet – um vento doente está soprando. Somente cidadãos obedientes. “Unidade
israelense”? “A nação é uma grande família?”. Isso é uma piada. Assim como é
piada a cobertura midiática israelense em tempos de guerra, uma rede de
propaganda cujos membros emitem notícias para si mesmos, a título de autoelogio
ou exortação, para incitar e instigar – e para fechar os próprios olhos.
E a maior piada de todas, a mãe
de todos os enganos: a crença na retidão de seus métodos. O slogan da “guerra
justa” é repetido com tanta frequência, ad nauseam, que se começa a suspeitar
que até aqueles que o entoam em mais alta voz começam a duvidar, não fosse
assim, não estariam gritando tão alto e não combateriam tão facilmente os
poucos que tentam expressar uma opinião diferente. Afinal de contas, como uma
guerra preventiva pode ser justificada? E como se pode enrolar a si mesmo nessa
retidão, na presença do show de horrores das imagens de Gaza?
Talvez o chão esteja queimando
sob os pés dos membros desse coro de justificadores da guerra, também. Talvez
eles também tenham entendido que, quando as batalhas acabam, o quadro real se
torna claro. É assim que sempre ocorre em guerras enganadoras, e é assim que a
guerra de 2014 também vai se mostrar.
Tradução: Louise Antônia León
Créditos da foto: Arquivo

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