Cresci ouvindo – e, lamentavelmente, muitas vezes,
absorvendo – centenas de mentiras que as pessoas contam sobre o universo
feminino. Especialmente sobre a sexualidade feminina.
Disseram-me que nós éramos menos promíscuas. Que a gente
queria mesmo era casar e ter filhos e um cachorro, porque querer sexo casual
era coisa de homem. Nós somos românticas. Eu ouvi alguns homens dizerem que eu
gosto de receber flores e chocolate e sair pra jantar e que eu não tenho
tendência à traição porque, afinal, minhas necessidades sexuais são menos
expressivas.
Ouvi dizer que nós não somos visuais e que preferimos
perceber outros aspectos além da beleza. Que, enquanto alguns homens babam por
nossas bundas, nós nos encantamos pela inteligência ou pelo senso de humor
deles. E, vejam só: queriam me convencer que eu não gosto de apreciar nádegas
masculinas. De que eu não reparava no volume por debaixo da sunga deles, no
charme das costas largas ou de um corpo bonito.
Ouvi que a gente não gostava de futebol. Achava estranho
como alguns homens falavam com tanta propriedade sobre os nossos gostos: que
não tínhamos talento pra esportes ~masculinos~ e que preferíamos comédias
românticas do que filmes policiais, bebidas docinhas do que cerveja e whisky
cowboy.
Fui percebendo que, aos poucos, muitas de nós acabávamos nos
moldando a partir daquilo que pensavam de nós. E que nós mesmas começamos a
acreditar que temos medo de barata, que
somos desunidas e que competimos compulsivamente. Que não entendemos de
futebol, que não queremos só sexo e que não gostamos de whisky cowboy porque
não é bebida de mulher. Acreditamos, enfim, que a gente não repara nas bundas
dos homens. E continuamos acreditando nisso enquanto nossos olhos fugiam,
furtivamente, em direção a elas. E enquanto queríamos convidá-los pra sair e
dar no primeiro encontro, continuávamos a nos vestir de pudor e fingir, para
nós mesmas e para as nossas avós, que queríamos mesmo era um bom casamento.
Lamento informar que, depois de algumas frustrações, a gente
aprendeu a se conhecer. Agora nós entendemos de nós mesmas e, vejam só: isso
não depende mais da opinião dos outros. Percebemos que somos capazes de cuidar
umas das outras, que podemos gostar de bebidas fortes e que muitas de nós
querem só sexo. Sem casamento, sem filhos e sem ligação no dia seguinte.
Percebemos – até que enfim! – que apreciamos as vossas
bundas assim como vocês apreciam as nossas, companheiros. E que – do mesmo
jeito que algumas de nós querem um casamento feliz e uma penca de filhos –
outras querem curtir uma putaria como se não houvesse amanhã.
Agora o mundo terá que aprender quem somos em vez de querer
nos ensinar isso. Diremos as nossas verdades em vez de nos contentar com as
mentiras que nos contam.

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