BRENO ALTMAN - http://www.brasil247.com/
No início dessa semana, um importante dirigente do PSOL,
Juliano Medeiros, deu-se ao trabalho de responder nota que eu havia
recentemente escrito, acerca do caráter marginal de agremiações políticas que
buscam se situar à esquerda do PT. Seu artigo atende pelo título "Resposta
a Breno Altman: por uma esquerda inconformista".
A questão proposta em meu texto era simples e o encabeçava:
"Por que a ultraesquerda brasileira é residual?". Não houve qualquer
intenção ofensiva na pergunta enunciada. A história está repleta, afinal, de
pequenos grupos que lograram rapidamente plantar frondosas alternativas de
poder.
Não é o que ocorre, no entanto, com os agrupamentos
mencionados em meu breve artigo. O desempenho eleitoral do PSOL, PSTU, PCB e
PCO, tudo junto e misturado, dificilmente chegará a 2% nas eleições
presidenciais. A curva de resultados, após atingir seu pico em 2006, é
declinante e beira a inanição. Tampouco sua influência nos movimentos sociais e
nas lutas populares é relevante, com a exceção de alguns segmentos
minoritários.
Esta constatação foi feita apenas para fazer jus a um
clássico axioma: a prática é o critério da verdade. Maus resultados, depois de
um longo período, deveriam obrigar à revisão de orientações adotadas. Outra
opção é sobreviver como pequenas seitas, senhoras da luz e da razão, mas cujas
ideias supostamente corretas jamais são capazes de servir como amálgama para
uma força social expressiva.
Medeiros labuta para explicar, em sua resposta, a existência
de diferentes concepções entre as correntes citadas. Aceitemos que suas
explanações sejam certeiras e apropriadas. Todos estes grupos, ainda assim, têm
em comum, mesmo com distintas matizes, a mesma caracterização sobre o Partido
dos Trabalhadores: o maior instrumento político que o proletariado brasileiro
logrou forjar teria se passado, de malas e bagagens, para o campo da burguesia.
Tal conclusão é seminal para a atuação de legendas
pretensamente situadas à esquerda da esquerda. Ela nasce da compreensão de que
o governo petista configurou-se em comitê gestor a serviço das companhias
capitalistas e, portanto, no principal inimigo a ser combatido. No curso dessa
transição, teria arrastado o próprio partido para a posição de apêndice
político das classes dominantes.
O dirigente do PSOL ensaia certo cuidado em sua análise, mas
em termos que ressaltam seu ponto de partida. Ao se referir à presumida posição
do PT como fiador de um "pacto conservador", Medeiros indaga e
responde a si próprio: "Isso é o mesmo que dizer que o PT e os demais
partidos burgueses seriam farinha do mesmo saco? Evidente que não." O fato
é que, ao determinar diferenças táticas no tratamento de diferentes partidos, o
psolista reafirma o eventual transformismo de classe operado pelo PT, agora
vicejando ao lado dos "demais partidos burgueses".
Este padrão de raciocínio não é novo. Trata-se de comparar a
trajetória petista a de partidos sociais-democratas europeus que, nascidos no
movimento operário, acabaram por se alinhar a suas respectivas burguesias
nacionais durante a Guerra Fria. Foram ainda mais longe: com o colapso da União
Soviética, aprofundaram sua submissão à hegemonia norte-americana, ao capital
financeiro, à doutrina neoliberal e a excrecências como o chauvinismo.
Pode-se argumentar, com razoável comprovação nos fatos e
narrativas, que o PT veio a se converter em um partido reformista, a partir de
sua estratégia de aproximação do poder pela via institucional. Eventualmente
alguns de seus quadros tenham saltado o alambrado. Mas não há qualquer
fundamento na realidade para se afirmar que tenha reproduzido o curso
social-democrata europeu, o da passagem para outro campo de classe, ou que
esteja próximo de fazê-lo, ainda que o risco esteja sempre presente em um
partido que opera por dentro do Estado.
As medidas e políticas adotadas desde 2003, ainda que possam
ser consideradas débeis e insuficientes, tiveram caráter de resistência ao
modelo rentista herdado dos governos anteriores e emulado de projetos animados
pelos países centrais do capitalismo. Ao lado de outras experiências
latino-americanas, mais ou menos radicais, o PT impulsionou programa na
contramão do ciclo histórico aberto nos anos oitenta.
A aplicação de políticas distributivistas promoveu a maior e
mais prolongada onda de crescimento de renda e emprego entre os trabalhadores
desde os anos quarenta. A inclusão social se transformou na principal
ferramenta para ampliação do mercado interno de massas como força propulsora do
desenvolvimento, apoiada também por iniciativas que ampliaram direitos de
acesso à moradia e à educação.
O Estado vem recuperando papel regulador e protagonismo
econômico, com a expansão dos investimentos públicos e o fortalecimento dos
bancos estatais. Outras empresas sob controle governamental também tiveram suas
atividades alavancadas, a começar pela Petrobrás, cuja musculatura foi
tonificada após a descoberta do pré-sal e a substituição do regime de concessão
pelo de partilha.
Essas reformas, no fundamental, não alteraram as estruturas
da economia e do poder político, mas representam alternativa programática
distinta daquela defendida pelos núcleos dirigentes da burguesia interna e seus
sócios internacionais. Não é à toa a guerra permanente dos meios tradicionais
de comunicação, efetivos partidos das classes dominantes, contra os governos de
Lula e Dilma.
A adaptação de determinadas corporações ao predomínio da
agenda petista não anula sua oposição de classe. O capital, como sabe qualquer
curioso pelos assuntos da história, busca acomodação, se possível, até a
processos revolucionários. Quanto mais a uma situação instável, no quadro de um
governo de coalizão, sem maioria parlamentar de esquerda, com as velhas
instituições praticamente intactas, na qual são vastos os espaços para a
disputa entre diversos projetos e interesses.
Ainda que limitadas, na essência, à realocação de recursos
orçamentários e ao redirecionamento de fundos públicos, as mudanças
implementadas pelas administrações petistas se contrapõem à lógica rentista e
aos primados neoliberais, em movimento inverso ao da social-democracia
europeia.
Medeiros até chega a considerar estes fatos como
"ganhos reais". Mas logo emenda que "não comprovam qualquer
compromisso em si". Do bolso de seu colete saca uma espantosa tese para
tentar argumentar exatamente o contrário, que esses "ganhos reais"
são um sinal de capitulação do PT: "aumentar a renda e expandir gastos
públicos são instrumentos utilizados pela burguesia sempre que as condições
conjunturais permitem."
A afirmação reflete ilusão escandalosa. Quer dizer que há
vontade patronal natural para "aumentar renda e expandir gastos
públicos", cujo obstáculo seriam apenas "condições
conjunturais"? Em qual momento da história a burguesia aceitou aumentar a
renda dos trabalhadores sem que fosse por poderosa pressão do movimento
operário, interna ou internacional, através de lutas sindicais ou governos de
caráter popular?
Mas o pior aspecto de sua peroração fantasiosa diz respeito
ao desconhecimento do mundo no qual vivemos depois do colapso da União
Soviética. Todos os países capitalistas, nos últimos quase 25 anos, sob
governos conservadores ou sociais-democratas, padeceram com a redução dos
salários reais dos trabalhadores e a diminuição dos gastos públicos com
programas sociais. As únicas exceções foram nações governadas por partidos de
esquerda, de oposição ao neoliberalismo, como é o caso do Brasil no período
petista.
Trata-se de estelionato político da pior qualidade
reconhecer "ganhos reais", mas classifica-los como normais aos
interesses da burguesia ou triviais em um cenário internacional ainda dominado
pela hegemonia unipolar do imperialismo norte-americano.
A banalização das conquistas, para enquadrá-las na teoria da
suposta domesticação petista, da qual o PSOL e seus parceiros parecem depender
para respirar, acaba confluindo para a seguinte conclusão: "este também é
um governo da direita, ou ao menos de parte dela".
Obviamente esta afirmação vem acompanhada da crítica à
política de alianças, tanto no campo econômico quanto institucional. Medeiros
não se deu ao respeito de citar, como caberia a um quadro responsável, a
contradição fundamental decorrente da eleição de um presidente de esquerda sem
maioria parlamentar. Qual a alternativa para uma situação como essa, a
propósito, além da negociação com setores e partidos da burguesia que, se
descolando da fração dirigente do neoliberalismo, aceitassem respaldar um
programa mínimo e progressista de governo? Afinal, não foi assim que se
obtiveram os tais "ganhos reais" reconhecidos até pelo açodado crítico?
Não passa de charlatanismo caracterizar o atual governo, por
sua natureza de coalizão, como "da direita" ou de parte dela. Basta
analisar seu rumo, com alguma honestidade, para reconhecer que o princípio
reitor foi a construção de um modelo econômico-social que se choca com a
fórmula propugnada pelo capital financeiro desde o Consenso de Washington.
Outra coisa é questionar seu ritmo e profundidade, ou
identifica-lo como um "reformismo fraco", repetindo André Singer, que
fica aquém das possibilidades políticas reais e debilita a disputa pela
hegemonia no Estado e na sociedade. Uma posição é considerar este governo
inimigo, outra é carimba-lo como insuficiente ou recuado.
A história está cheia de exemplos como uma ou outra destas
conclusões sobre governos frentistas levam a distintas estratégias.
O MIR chileno não participava do governo da Unidade Popular,
durante a presidência de Salvador Allende. Classificava-o como reformista,
indisposto a conduzir rupturas que julgava indispensáveis. Buscava, no limite
de suas forças, mobilizar setores do povo e da juventude para radicalizar as
medidas palacianas e reivindicar mudanças mais profundas. Mas diante de
qualquer ataque da direita, cerrava fileiras com a UP e formava nos primeiros
batalhões em sua defesa. Marchava separado, mas golpeava junto.
O grupo Bandeira Vermelha, na Venezuela, poucos meses após a
eleição do presidente Hugo Chávez, passou a considera-lo um braço populista do
Fundo Monetário Internacional, destinado a reorganizar o Estado burguês em
crise. Passou a defini-lo, portanto, como um inimigo a ser abatido. Seus
militantes, aplicando essa linha, estavam ombro-a-ombro com os golpistas de
2002, a ocupar provisoriamente o Palácio de Miraflores. Estabeleceram, desde
então, aliança implícita com a oposição de direita, pois partilham o mesmo objetivo
tático, qual seja, derrubar o governo de Nicolás Maduro, como antes o de
Chávez.
Os fatos não deixam quaisquer dúvidas que, até o presente,
com raros momentos de bom senso, o pensamento majoritariamente assumido pelo
PSOL aproxima-se mais da variante venezuelana que da chilena. A diferença é
que, retoricamente, também bate nos partidos da direita, mas efetivamente
movimenta-se pela lógica de considerar o governo petista seu inimigo principal.
Basta relembrar o comportamento durante a crise de 2005 e a
AP 470. Ou no curso da operação conservadora contra a Petrobrás. Ou nas
campanhas presidenciais de Heloísa Helena e Plínio de Arruda Sampaio. Ou a
facilidade com que filiados importantes – como a própria ex-senadora alagoana e
o senador Randolfo Rodrigues, entre outros – já anunciam apoio à candidatura de
Marina Silva para o segundo turno da corrida presidencial.
O grande problema da linha adotada pelo PSOL e companhia, no
entanto, é a existência de um abismo entre a caracterização do governo como
"da direita" e a potente mudança positiva da situação dos
trabalhadores. O "inconformismo" receitado por Medeiros esbarra no
apoio de massas ao processo liderado pelo PT. Ainda que existam insatisfações
concretas, especialmente nos últimos anos, os pobres da cidade e do campo não
reconhecem, em sua experiência concreta, a identificação do governo petista
como traidor ou patronal. Pelo simples fato que essa afirmação não se sustenta
sobre a história dos últimos doze anos, refletindo apenas uma análise sectária
e inócua.
Medeiros parece não dar muita bola para isso. Diante da
sustentação popular ao governo petista, recorda que assim também se portava
"a maioria dos trabalhadores que viviam sob o fascismo da Itália dos anos
20". Vamos saltar seu desconhecimento sobre qual era a base social dos
fascistas, que jamais conseguiram maioria entre operários e camponeses
sem-terra. Ainda que adesão social não seja definidora sobre o caráter
progressista ou não de um determinado partido, isolamento tampouco é prova de
inconformismo eficaz, a serviço da boa causa socialista.
A incorreta apreciação sobre o significado contemporâneo do
PT e seu governo, além de estimular tendência à reclusão em um gueto político,
propicia certa dinâmica mercadológica: vale tudo para tentar o desgaste do
partido que ocupa o espaço social supostamente dedicado à autodenominada
"esquerda inconformista", incluindo exacerbar os piores preconceitos
de setores médios naturalmente antipetistas.
A ineficácia desta postura, no entanto, parece que ainda não
incomoda seus autores, mesmo que os dividendos correspondentes sejam recolhidos
por correntes reacionárias que celebram a possibilidade de encontrar ajuda
objetiva de agrupamentos estranhos ao seu campo político-ideológico.
Apropriam-se da produtividade denuncista da ultraesquerda, sugando mais um
pouco de seu potencial de inserção autônoma na luta de classes.
Ainda que esta situação residual da ultraesquerda não a
condene, por si só, ao desaparecimento, deveria ser suficiente para levar seus
melhores dirigentes e agremiações a repensar opções que conduziram ao
raquitismo, mesmo com o importante espaço à esquerda aberto pelo gradualismo
petista. A preferência por atitude de rejeição, em prejuízo à hipótese de
defesa e radicalização das mudanças, parece tornar inepto o acionar dos que se
imaginam o último biscoito do pacote revolucionário.
Estas escolhas serão colocadas em xeque, mais uma vez, no
segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Qual será a orientação do
PSOL, por exemplo? Marchando separado, golpear junto com o PT para derrotar a
restauração neoliberal representada por Marina e Aécio? Ou lavar as mãos
porque, conforme reza sua bem-sucedida cartilha, são todos farinha do mesmo
saco e da mesma classe?
Breno Altman é jornalista e diretor do site Opera Mundi.

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