Fábio Kerche - http://esquerdopata.blogspot.com.br/
Marina erra ao dizer que o BNDES empresta para "meia
dúzia". Em 2013, 97% de suas operações foram para micro, pequenas e médias
empresas
O BNDES é um dos principais instrumentos que o governo
brasileiro dispõe para implementar sua política econômica. É o governo em
exercício que escolhe as áreas prioritárias e as linhas de atuação do banco,
que as executa por meio de um rigor técnico garantido por seu capacitado corpo
funcional.
Para ficarmos em apenas dois exemplos: no governo Fernando
Henrique Cardoso, o BNDES teve um papel fundamental nas privatizações e no
governo Lula, respondendo à forte crise iniciada em 2008, expandiu o crédito à
indústria e à infraestrutura.
É, portanto, absolutamente legítimo que o papel do BNDES
seja debatido na campanha eleitoral. O próximo presidente terá a
responsabilidade de manter ou modificar as prioridades do banco nos próximos
anos, decisão que poderá afetar todo o financiamento ao setor produtivo
brasileiro.
Mas esse necessário debate eleitoral seria mais proveitoso
para o país se fosse lastreado por um correto diagnóstico por parte dos
candidatos. Como corrigir rumos se não conseguimos entender a atual direção?
Esse parece ser o caso da candidata do PSB à Presidência da República, Marina
Silva.
Em entrevista ao programa "Bom Dia Brasil", da TV
Globo, que foi ao ar nesta quinta-feira (25), a candidata disse que "o que
enfraquece os bancos é pegar o dinheiro do BNDES e dar para meia dúzia de
empresários falidos, uma parte deles, alguns deles que deram, enfim, um sumiço
em bilhões de reais do nosso dinheiro". O número de imprecisões só dessa
frase é impressionante.
Em primeiro lugar, o BNDES não "dá" dinheiro a
ninguém, ele empresta. Isso significa que o banco recebe de volta, corrigidos
por juros, os seus financiamentos. Sua taxa de inadimplência é de 0,07% sobre o
total da carteira de crédito, segundo o último balanço, sendo a mais baixa de
todo o sistema bancário no Brasil, público e privado.
Isso nos leva a outra imprecisão da fala da candidata. A
qual "sumiço" de recursos ela se refere se o BNDES recebe o dinheiro
de volta e obtém lucros expressivos de suas operações? O lucro do primeiro
semestre, de R$ 5,47 bilhões, foi o maior da história do banco.
Em relação aos empresários "falidos", talvez a
candidata, em um esforço de transformar em regra a exceção, esteja se referindo
ao caso Eike Batista. Se isso for verdade, temos mais uma imprecisão: seja por
causa de um eficiente sistema de garantias das operações, seja porque grupos
sólidos assumiram algumas empresas, o BNDES não sofreu perdas frente aos
problemas enfrentados pelo empresariado.
Por fim, nada mais falso do que dizer que o BNDES empresta
para "meia dúzia". No ano passado, o banco fez mais de 1 milhão de
operações, sendo que 97% delas para micro, pequenas e médias empresas.
Embora o BNDES não tenha a capilaridade dos bancos de
varejo, a instituição aumentou seus desembolsos para as pequenas empresas dos
cerca de 20% do total liberado da década de 2000 para mais de 30% no ano
passado. Se retirássemos as típicas áreas onde os pequenos não atuam (setor
público, infraestrutura e comércio exterior), os financiamentos para os menores
representariam 50% dos desembolsos do banco.
Das cem maiores empresas que atuam no Brasil, 93 mantém
relação bancária com o BNDES. Entre as 500 maiores, 480 são clientes do banco.
Como sustentar que o BNDES escolhe "meia dúzia" se a instituição
apoia quase todas as empresas brasileiras dos mais variados setores de nossa
economia?
A candidata Marina Silva lembrou recentemente que uma
mentira repetida diversas vezes não se transforma em verdade. Essa máxima
também vale para o papel que o BNDES vem desempenhando nos últimos anos.
FÁBIO KERCHE, 43, doutor em ciência política e pesquisador
da Fundação Casa de Rui Barbosa, é assessor da presidência do BNDES. Foi
secretário-adjunto e secretário de Imprensa da Presidência da República
(governo Lula)
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