A independência em relação aos poderes econômicos ou
políticos e a total liberdade da redação são princípios fundadores do Le Monde.
Leneide Duarte-Plon / http://cartamaior.com.br/
Paris - Por estar convicto de que a imprensa é um poder que
pode estar na contramão dos interesses do país, o general De Gaulle decidiu
criar um jornal para defender os interesses da França, recém-libertada da
ocupação alemã, que durou quase cinco anos. Nascia o Le Monde.
O primeiro número do diário vespertino foi publicado dia 18
de dezembro de 1944 (com data do dia seguinte, como até hoje). Surgiu da
determinação do general de Gaulle de dotar o país de um jornal prestigioso
voltado para o mundo. Mas, logo nos primeiros anos de vida, a redação se
libertou do peso de cotidiano oficioso pois os jornalistas tinham um projeto de
jornal totalmente independente.
Convidado a dirigir o Le Monde, Hubert Beuve-Méry não tinha
vocação de vassalo do poder. Fundou uma sociedade de responsabilidade limitada
e depois a Société des Rédacteurs du Monde para defender a independência da
redação e deixou claro que não aceitava estar sob a proteção ou dependência de
qualquer poder, político ou econômico. No primeiro editorial Beuve-Méry deu o
tom : « O jornal vai garantir ao leitor informações claras, verdadeiras e, na
medida do possível, rápidas e completas”.
Nascia o mais respeitado jornal francês, conhecido como « le
quotidien de référence » por seu compromisso com o jornalismo isento, no qual
os jornalistas decidem de A a Z o conteúdo editorial. A atual Charte d’étique
et de déontologie (Código de Ética), reescrita para se adaptar às novas mídias
sem nunca se afastar dos princípios fundadores, diz claramente : “A
independência editorial das publicações
do grupo Le Monde em relação aos acionistas, anunciantes, poderes
públicos, políticos, econômicos, ideológicos e religiosos é condição necessária
a uma informação livre e de qualidade”.
Logo no preâmbulo a Charte d’étique assinala que seu
objetivo é « definir os princípios essenciais de independência, de liberdade e
de fiabilidade da informação, além de precisar os direitos e deveres dos
jornalistas, dos dirigentes assim como dos acionistas. »
O caso HSBC
No mês de fevereiro deste ano, o jornal deu, mais uma vez,
provas de sua absoluta liberdade de edição em relação aos acionistas ao
publicar em duas edições seguidas o furo sobre o sistema de fraudes fiscais de
contribuintes do mundo inteiro que tinham contas na Suíça, no banco inglês
HSBC.
No dia seguinte à primeira publicação pelo Le Monde de
algumas dezenas de contribuintes franceses – de uma lista de 3 mil que para
escapar do fisco francês se beneficiaram do guarda-chuva do HSBC – dois dos
três acionistas do jornal, Mathieu Pigasse e Pierre Bergé, declararam
publicamente, em entrevistas, não concordar com a decisão editorial.
Mathieu Pigasse, diretor-geral do Banco Lazard, conhecido
por suas posições de esquerda e por seu interesse particular pela imprensa
(detém parte do grupo Le Monde, juntamente com Pierre Bergé e Xavier Niel, além
da revista Les Inrocks) criticou a decisão editorial de publicar nomes como um
certo “populismo” ou “macartismo fiscal”. Mas declarou-se “orgulhoso” pelo
trabalho de investigação feito pelos jornalistas do Le Monde.
Pierre Bergé – ex-companheiro de Yves Saint-Laurent, criador
e responsável pelo sucesso da marca do estilista –, que viu a publicação de
nomes como uma espécie de “delação”, lembrou: “Eu me comprometi por escrito a
não intervir no conteúdo do jornal, o que sempre respeitei. Mas não me
comprometi a me calar e não criticar as matérias”. Entre os direitos dos
acionistas não consta no código de ética nenhuma intervenção no conteúdo
editorial. Isso faz deles um leitor como outro qualquer.
De fato, o código de ética do jornal, assinado por seus três
acionistas ao comprar o título em 2010, diz que o papel deles é “definir a
estratégia da empresa e não tentar pesar sobre o sentido da informação”, como
assinalou a Société des rédacteurs du Monde (SRM), que viu nas críticas dos
dois acionistas uma “tentativa de intrusão no conteúdo editorial do jornal”. O
presidente atual da SRM, Alain Beuve-Méry, afirmou que, como leitores, tanto
Pigasse quanto Bergé podem se expressar e criticar o jornal à vontade. Como
acionistas, têm que respeitar a código de ética, ou charte d’éthique, que
assinaram.
Jornalistas fuzilados depois da libertação de Paris
Le Monde tem a política no seu DNA. Nasceu como herdeiro
natural do jornal Le Temps, acusado de colaboração com os nazistas. Dele herdou
a apresentação gráfica sóbria, além de parte da redação e o local na Rue des
Italiens. A imprensa que colaborou com o ocupante e com o governo fantoche do
marechal Pétain, instalado em Vichy, desapareceu com a vitória dos aliados e o
restabelecimento da democracia. Alguns dos diretores dos jornais
colaboracionistas foram julgados e fuzilados, como Georges Suarez, que dirigia
o jornal Aujourd’hui, patrocinado pela embaixada alemã. Foi o primeiro
jornalista condenado à morte depois da libertação de Paris, em 1944. Apesar de
judeu, Suarez vendera a alma ao nazi-fascismo.
No imediato pós-guerra, o papel era drasticamente racionado
e o Le Monde, como outros jornais, começou a circular em folha única impressa
dos dois lados. Ao completar 70 anos em dezembro de 2014, o jornal comemorou a
publicação de 21 mil números.
Com o tempo, o jornal foi se tornando um grupo de imprensa
poderoso e multifacetado que hoje conta diversos títulos, entre eles o jornal
online lemonde.fr, o Le Monde Diplomatique, Le Monde des Religions, o Courrier
International, as revistas Télérama e La Vie.
Para a direita ele é à esquerda demais. Uma esquerda mais
radical o considera de centro-esquerda e o critica por não tomar posições mais
claras defendendo os países mais frágeis contra o poder da Troika, como no caso
da Grécia. No entanto, para jornalistas de todos os espectros do leque
político, o Le Monde é um modelo. Tornou-se o « jornal de referência » na
avaliação de jornalistas e políticos por sua ética e sua independência.
Mas nenhum jornal pode se tornar uma referência se não tiver
como norte os três princípios que abrem a lista dos « deveres dos jornalistas »
do Le Monde : 1. Respeitar a verdade, quaisquer que sejam as consequências para
si mesmo, em razão do direito que o público tem de conhecer a verdade ;
2.Defender a liberdade de informação, de comentário e crítica ; 3. Publicar
somente informações cuja origem é conhecida ou então acompanhá-las das reservas
que se impõem; não suprimir as informações essenciais e não alterar os textos e
documentos.
Em outro texto do código de ética do jornal lê-se que as
diversas mídias do grupo têm por vocação fornecer uma informação de qualidade,
precisa, devidamente checada e equilibrada. Os jornalistas devem ter um olhar
crítico sobre os acontecimentos e os jornais do grupo devem expressar o
pluralismo das opiniões.
Quantos jornais e revistas da grande imprensa brasileira
poderiam garantir que respeitam esses deveres básicos do bom jornalismo ?
Para garantir a pluralidade da informação, a République
Française subvenciona, através de ajudas diretas e indiretas, os órgaõs de
informação, abrangendo todo o espectro ideológico. Assim, seja o comunista
L’Humanité, o católico La Croix, os jornais de centro-esquerda Le Monde e
Libération ou o direitista Le Figaro, todos recebem subvenções do Estado. No
orçamento de 2013 estas se elevavam a 513 milhões de euros, segundo o Projeto
de Lei de Finanças. Além dessas ajudas diretas, o Estado também garante tarifas
de postagens especiais para os jornais e um sistema fiscal que beneficia os 36
mil jornalistas franceses.
Exatamente um mês depois do atentado que dizimou a redação
do jornal satírico Charlie Hebdo, foi aprovada nova lei de ajuda à imprensa que
prevê isenção fiscal de pessoa física para doações a empresas jornalísticas com
menos de 50 assalariados. A lei recebeu o nome de Charb, o diretor de Charlie,
morto no massacre de 7 de janeiro.
Créditos da foto:
reprodução
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