A história agigantou a estatura e
celebramos a sua memória com respeito e admiração. Sua vida e obra são uma
inspiração insubstituível.
Léa Maria Aarão Reis / www.cartamaior.com.br
“Não só Trotsky, mas também o trotskismo, no
Brasil, tem uma tradição e um legado na esquerda que remete ao final dos anos
vinte. Foram cinco gerações. A primeira, de Mário Pedrosa, Lívio Xavier e
Fúlvio Abramo. A segunda, a do jornalista Hermínio Sachetta, que ajudou na
formação do jovem Florestan Fernandes. A terceira resistiu nos anos cinquenta, nos anos da
guerra fria, com os irmãos Fausto, Boris e Ruy, e Leôncio Martins Rodrigues;
Michael Löwy foi para o exílio na França. A quarta, no final dos anos
sessenta, é a minha geração e gerou as
maiores organizações - foram importantes na fundação da CUT e do PT, a
Convergência Socialista, O Trabalho e a Democracia Socialista, e tiveram um
papel na organização das lutas dos trabalhadores e da juventude. E a quinta, a
que chegou à vida adulta nos anos oitenta e início dos anos noventa, compareceu
na formação do PSTU, em 1994, e do PSOL em 2004.”
Quem fala a Carta Maior é o
historiador marxista Valério Arcary(*),
escritor e professor do CEFET/SP – Centro Federal de Educação
Tecnológica - e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Conversamos com
Arcary, hoje filiado ao PSTU, relembrando a data de 21 de agosto de 1940 quando
Lev Davidovitch Bronstein morreu, num hospital, aos 60 anos, depois de
sobreviver, durante um dia, aos golpes de picareta do agente de Stalin, o basco
Ramón Mercader, desfechados na sua nuca, no escritório da casa em Coyoacán, no
México - hoje um museu e em cujo jardim se encontra o seu modesto túmulo. Para
o prof. Arcary, o idealizador e comandante do Exercito Vermelho, agora, com sua
memória celebrada, representa um fio de continuidade com a tradição
marxista. “A primeira geração de brasileiros trotskistas fez a
melhor análise marxista sobre a revolução de 30,” ele lembra, “e esteve à
frente da organização da Batalha da Praça da Sé, conhecida, também, como a
Revoada dos Galinhas Verdes, um combate antifascista.”
Nesta entrevista para Carta
Maior, 75 anos depois do fatídico 21 de agosto, ele fala sobre a herança que
permanece entre nós do pensamento de Trotsky: “A história agigantou a estatura
e celebramos a sua memória com respeito e admiração. Sua vida e obra são uma
inspiração insubstituível. Mas não alimentamos cultos. As experiências bárbaras
de culto à personalidade que se disseminaram a partir do processo pioneiro na
ex-URSS, onde Stalin, ainda vivo, se fez glorificar por uma indústria de
propaganda tão poderosa quanto a força do aparelho policial – militar, que
instituiu o terror como política de Estado, alimentam grande prudência, senão
pudor, em relação ao tema do lugar do indivíduo na história. O ainda hoje
presente regime ditatorial na Coréia do Norte que, ao garantir a transição do
poder de pai para filho, instituiu a primeira monarquia que se reivindica “socialista”,
convida tanto ao desprezo, quanto inspira o sarcasmo.
CM- O que é a teoria da revolução
permanente de Trotsky?
Trotsky elaborou a teoria do
desenvolvimento desigual e combinado, e desenvolveu uma teoria-programa para as
revoluções contemporâneas. Esta elaboração foi chave para a vitória da primeira
revolução anticapitalista da história, a revolução de outubro de 1917. Aos 26
anos, inspirado pela experiência derrotada da revolução de 1905, formulou a
teoria da revolução permanente. Antecipou que, em países historicamente
retardatários, como era o Império Czarista, com uma burguesia economicamente
poderosa, porém, social e politicamente frágil, a revolução democrática contra
o czarismo teria como sujeito social decisivo a classe trabalhadora urbana
aliada à maioria camponesa. Este bloco social operário e popular não se
contentaria com a conquista da república democrática e, em mobilização
ininterrupta, em permanência, poderia realizar a reforma agrária, libertaria as
nações oprimidas por Moscou dentro do Império, e desafiaria a propriedade
privada, abrindo o caminho para a revolução europeia e a luta pelo socialismo
internacional.
CM- Em qual livro Trotsky trata
dos desvios da época stalinista?
No livro A Revolução Traída, de
1936, ele analisa o processo de burocratização da URSS e do Partido
Bolchevique, e prevê que, ou o proletariado faria uma revolução política
democrática ou o capitalismo seria restaurado na Rússia. Infelizmente, foi o
que acabou acontecendo.
CM- Cinco gerações depois, como
os jovens, na universidade, veem o papel e as teorias de Trotsky? É uma figura
datada ou se trata de um clássico?
Trotsky tem uma presença na
universidade tanto na dimensão política quanto intelectual. Não se pode,
contudo, perder o sentido das proporções. A maioria dos estudantes
universitários brasileiros contemporâneos não lê, infelizmente, nem Marx.
Lênin, então, nem pensar. São aproximadamente seis milhões, e somente um milhão
em universidades públicas. A maioria dos estudantes só se integra no movimento
estudantil, onde as ideias de esquerda são mais influentes, em algumas
circunstâncias excepcionais.
CM- Qual é a militância dentro da
universidade?
Em alguns cursos a presença
marxista é, em diferentes proporções, mais expressiva: Serviço Social,
Educação, História, Geografia, Ciências Sociais, Filosofia, Letras, Direito,
Economia. O trotskismo teve uma intensa presença militante nas universidades brasileiras nos últimos quarenta anos, tanto
entre estudantes quanto entre professores e técnico-administrativos. Muitos
milhares de jovens de diferentes gerações uniram-se ao trotskismo, em suas
diferentes organizações, e contribuíram, ao longo de décadas, para que fosse
possível a existência de um movimento estudantil no Brasil com inclinação por
alianças sociais com os trabalhadores, o que não acontece em outros países.
Centenas de trotskistas ajudaram, nos últimos trinta anos, a construir o ANDES,
o SINASEFE e a FASUBRA como sindicatos dos mais combativos e representativos do
movimento sindical. O auge da influência
marxista na academia se deu nos anos oitenta em função do deslocamento da
relação social de forças para a esquerda na luta final contra a ditadura. O
lugar de Trotsky ao lado das três correntes intelectuais marxistas mais
influentes, inspiradas em Gramsci, Lukács, Althusser, permanece, também,
significativo, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Existem muitas
dezenas de trabalhos acadêmicos sobre Trotsky e sobre os trotskistas
brasileiros. Trotsky é percebido, portanto, entre aqueles que se interessam
pelos temas da transformação social como um clássico.
CM- A revolução permanente e sua
teoria devem ser evocadas pelas esquerdas do Brasil?
Sim. A obra de Léon Trotsky é um
referencial para elaborar um programa para a revolução brasileira. Tem sido
assim. O trotskismo contribuiu para uma compreensão marxista original e
instigante da originalidade da formação social brasileira. Sem esta compreensão
é impossível um programa. Não é possível lutar, seriamente, pela mudança da
sociedade em que vivemos, sem compreender como ela é. Em perspectiva marxista
esta análise deve identificar quais são os sujeitos sociais interessados na
transformação. O Brasil permanece muito diferente dos seus vizinhos
sul-americanos de colonização espanhola, por muitas determinações. Todavia, a
escravidão é a principal. Houve escravidão em muitas outras colônias das
Américas. No entanto, nenhuma nação contemporânea conheceu em sua história
escravidão negra em tão larga proporção, e por tanto tempo como o Brasil. A
colonização do Brasil foi motivada por interesses capitalistas. Muito antes da
independência, já existia uma classe dominante luso-brasileira com características
burguesas embora as relações sociais fossem pré-capitalistas. A acumulação
capitalista precedeu, portanto, a abolição da escravidão. Existiam assalariados
desde os tempos da América portuguesa, mas esta relação de trabalho era
marginal. Por aqui a burguesia começou a se formar no século XVI. Mas o
proletariado surge como classe, ainda assim muito embrionariamente, somente no
final do século XIX, alguns séculos mais tarde - como alertou, pioneiramente, nos anos quarenta, Caio Prado
Júnior. Se avaliarmos a escala nacional, só podemos considerar uma presença da
classe operária em alguns poucos centros urbanos depois dos anos trinta do
século XX e, de forma mais expressiva, somente depois dos anos cinquenta,
quando ainda quase metade da população vivia no mundo rural. Esta assimetria do
processo histórico-social de formação das duas classes mais importantes da
atual sociedade brasileira potencializou no marxismo duas posições opostas, que
podemos classificar, simplificando, como os produtivistas e os circulacionistas.
A primeira e mais influente foi a daqueles que não admitiam a possibilidade da
existência de uma colonização capitalista desde a invasão portuguesa.
Insistiram durante décadas na defesa esdrúxula de que teria existido feudalismo
no Brasil. Defenderam que uma sociedade deve ser caracterizada, historicamente,
pelas relações de produção dominantes. Afirmaram que o que caracteriza o
capitalismo é o trabalho assalariado. Se o trabalho assalariado não é
dominante, a sociedade não é capitalista. A outra posição era igualmente
unilateral. Os circulacionistas afirmavam que a colonização tinha sido
sumariamente, capitalista, desprezando o fato monumental de que o escravismo
criou raízes profundas em quase quatro séculos de existência.
CM – Qual a interpretação da
POLOP?
A Organização Revolucionária
Marxista-Política Operária, POLOP, por exemplo, assumiu esta segunda
interpretação para concluir a necessidade de um programa diretamente socialista
ou anticapitalista diminuindo a importância das tarefas democráticas da
revolução brasileira. Jacob Gorender tentou solucionar o debate com uma
elaboração inspirada, ainda que sob uma forte influência estruturalista,
sugerindo que o Brasil conheceu um modo de produção próprio, o escravista
colonial.
CM – E o Brasil hoje, é produto
deste quadro histórico?
O Brasil é ainda um país muito
atrasado do ponto de vista econômico, social, político e cultural. É
dramaticamente atrasado em termos educacionais quando comparado com nações em
estágio semelhante de desenvolvimento econômico. Atrasado, portanto, em toda a
linha. Mas é, ao mesmo tempo, o maior parque industrial do hemisfério sul do
planeta, e uma das maiores economias capitalistas do mundo contemporâneo, com
doze cidades com um milhão ou mais de habitantes, e 85% da população
economicamente ativa em centros urbanos. Só utilizando os recursos marxistas da
lei do desenvolvimento desigual e combinado é possível equacionar a principal
das peculiaridades brasileiras: o capitalismo usou em escala insólita a mão de
obra escrava.
CM- Qual é a força da classe
trabalhadora brasileira?
Uma das peculiaridades que
distingue o Brasil é que este proletariado tardio é um dos mais poderosos do
mundo. A força da classe trabalhadora brasileira repousou e se explica, em
grande medida, pelo seu gigantismo, pela concentração e pela sua juventude que,
paradoxalmente, foi até hoje, também, a sua fraqueza. A atual classe
trabalhadora brasileira se formou, majoritariamente, pelo deslocamento para as
cidades, em processo muito intenso e acelerado de migrações internas, da
população descendente, em sua maioria, dos afro-brasileiros cujos ancestrais
foram escravos.
CM – E qual é o desafio de uma
real revolução democrática?
É o desafio de ser uma revolução
social anticapitalista, ou seja, a expropriação dos monopólios, porque a classe
trabalhadora deverá ser o seu principal sujeito social. Mas só poderá triunfar
se tomar como sua as bandeiras democráticas das tarefas inacabadas deixadas
para trás pela impotência burguesa. Essa revolução democrática tem muitas e
variadas tarefas. Tem tarefas civilizatórias, como a erradicação da corrupção,
a demarcação das terras indígenas, o fim das desigualdades regionais. Tem
tarefas de libertação nacional na luta contra a ordem imperialista. Tem tarefas
agrárias contra o latifúndio. Só poderá triunfar, contudo, se for também uma
revolução negra.
CM- Como ler Trotsky neste
momento atual, à luz da nova onda de conservadorismo que procura varrer, mais
uma vez, a ação progressista de governos da América Latina, e em momento em que
o jogo geopolítico volta a apontar o continente como um espaço que, a qualquer
custo, deve ser disputado pelos EUA à China?
Não vejo o mundo assim. Vejo que
prevalece mais associação que conflito entre os EUA e a China no sistema
mundial de Estados. A principal contradição no mundo, que está longe de ser a
única, mas permanece a mais importante, e que explica a situação tanto na
Grécia quanto no Brasil, é aquela entre Capital e Trabalho. O ano de 2015 tem
colocado à prova o sangue frio da
esquerda marxista brasileira. Quando uma batalha está em curso não é claro quem
irá vencer. Acontece que nenhum dos dois campos mais fortes em disputa é
progressivo. Se Dilma permanecer, e superar a vertigem da crise com o auxílio
do PMDB de Temer e os apelos da grande burguesia, os próximos três anos serão
anos de longa recessão, sacrifícios e a Agenda Brasil. Se Dilma viesse a ser
derrubada por um impeachment no Congresso Nacional, sob a direção Cunha e
Aécio, teríamos um governo de transição liderado, provavelmente, por Michel
Temer com participação do PSDB. E a Agenda Brasil. Por isso há tanto nervosismo
nas fileiras da esquerda. Ficou mais difícil, muito mais difícil do que em
2014, defender qual é o mal menor. Mas, resistir às pressões dos dois campos,
em simultâneo, e posicionar-se de forma independente significa, também, neste
momento, ficar ainda mais em minoria do que há um ano. Não fosse isso o
bastante, cercados por forças muito mais exaltadas. Compreender os limites
intransponíveis do governo Dilma remete à compreensão da história do PT.
Estudar a história do PT é tema imprescindível para a esquerda brasileira.
Porque o perigo de repetir, uma, duas e mais vezes os mesmos erros não é
pequeno. Não nos deve preocupar que haja polêmicas na interpretação. O que deve
nos assombrar é que não haja uma discussão, até apaixonada, sobre as mutações
do petismo em lulismo.
CM – Quais os eventuais riscos
desta discussão que se faz tão necessária?
O perigo da mimetização, ou da
imitação, muito tentador para a geração mais madura de ativistas que viveram a
experiência do PT nos anos oitenta, e não se deixaram abater pela
desmoralização. Este impulso consiste em imaginar que com a mesma estratégia,
mas com homens e mulheres diferentes, seria possível replicar os êxitos do PT,
evitando os seus erros, e obter um desenlace diferente. E existe o perigo
oposto que pode ser também, muito atrativo, especialmente, para a geração mais
jovem, que despertou para a luta de classes depois da eleição de Lula em 2002:
desprezar as lições positivas da experiência do PT, como, por exemplo, a
importância de um instrumento de organização dos trabalhadores para a luta
política, inclusive quando a luta política se concentra em terreno
desfavorável, como nas eleições. E apostar somente no espontaneísmo, ou na
militância pela defesa de reivindicações imediatas. Houve algo de admirável,
mas, também, perturbador, na verdade, desde o início, na história do PT. Para
remeter ao vocabulário cunhado pela literatura, tivemos o momento epopeia, o
momento tragédia e até o momento comédia na trajetória em que o petismo se
transformou em lulismo.
CM – Como escolher entre o
continuísmo e as rupturas?
Tudo o que existe se transforma.
Existem continuidades e rupturas. Nem sempre, no entanto, predomina o que era
mais progressivo. Muitas vezes, prevalece o que era mais regressivo. O que
provocou mudanças sociais e políticas reacionárias nos partidos da classe
trabalhadora, a se considerar os incontáveis exemplos históricos, foi o impacto
das lutas políticas e sociais, das vitórias e das derrotas, ou seja, da pressão
das outras classes. Quando as pressões socialmente hostis, oponentes,
contrárias aos interesses dos trabalhadores foram extremamente poderosas,
abriram-se crises nos partidos de origem proletária. Os partidos operários são
muito mais vulneráveis à pressão das classes inimigas do que os partidos que
representam as classes proprietárias. Porque o proletariado é uma classe ao
mesmo tempo explorada, oprimida, e dominada. É completamente inusitado quando
um filho da burguesia adere à causa do socialismo. Mas está longe de ser surpreendente
que líderes da classe trabalhadora passem a defender os interesses dos patrões.
CM - Analise um pouco o livro do
Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros. Você crê que ele chega a
distorcer a realidade dos últimos anos de Trotsky no exílio, ao preencher, com
a imaginação riquíssima, alguns episódios biográficos? Ou, ao contrário, é uma
obra que serve de estimulo às novas gerações para pesquisá-lo?
O livro de Padura é um romance
histórico que já nasceu como um clássico. É um livro, intelectualmente, honesto
e, literariamente, brilhante. Não se deve esperar, porém, que um escritor
escreva história. O grande valor de Padura é o de nos apresentar um Léon
Trotsky honrado, incorruptível, digno e arrebatado pela luta pelo socialismo.
Ramón Mercader nos é descrito como uma personalidade maníaca que só pode ser
compreendida no contexto de uma família patologicamente enlouquecida, e nas
circunstâncias abomináveis do regime stalinista, e das aberrações que promoveu
em escala internacional. O melancólico Ivan, finalmente, é um sobrevivente nos
marcos do regime cubano burocrático decadente.
* Autor do livro As esquinas
perigosas da História - Situações revolucionárias em perspectiva marxista
(2004, prefácio de César Benjamin), adaptação do último capítulo de sua tese de
doutorado. Autor, também, de O encontro da revolução com a História (2007) e Um
reformismo quase sem reformas (2011).
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