Somente no mês de julho, mais de
100 mil refugiados chegaram à Europa. Muitos são objeto de rejeição e ódio
xenofóbico.
Leneide Duarte-Plon, de Paris* / www.cartamaior.com.br
Eles são originários do Oriente
Médio e do norte da África, mas também do sul do Sahara. Fogem às guerras e à
fome. São chamados de migrantes, refugiados, imigrantes ou candidatos ao
direito de asilo. Esses homens, mulheres e crianças que chegam diariamente aos
milhares a alguns países da Europa, com uma aceleração nos últimos meses, são
objeto de rejeição e ódio xenofóbico em diversos países da União Europeia.
Canalizando o medo de uma parte
da população que vê nos « invasores » um grande risco para a identidade do
continente, os movimentos neonazistas e fascistas de extrema-direita rejeitam
qualquer ajuda aos exilados. Estes extremistas estão perdendo totalmente o
pudor de expressar a xenofobia que os anima.
Na Alemanha, eles incendiaram nos últimos meses dezenas de abrigos para
migrantes e refugiados que esperam resposta ao pedido de asilo. Nesta
quarta-feria, Angela Merkel foi pessoalmente a Heidenau para abrir um centro de
abrigo de refugiados e condenar a violência racista.
« Essa crise de migrantes é
excepcional e vai durar. Ela é uma questão européia », disse François Hollande
na segunda-feira, 24 de agosto, depois de se reunir em Berlim com a chanceler
alemã. Discursando diante dos embaixadores acreditados em Paris esta semana, François
Hollande reconheceu que « as crises migratórias são as trágicas consequências
dos conflitos que se acumulam ».
Só faltou bater um « mea culpa ».
A França de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, participou com grande empenho do
bombardeio da Líbia, que destituiu o ditador Kadhafi e abriu as portas para o
caos atual, onde reinam todos os tipos de tráficos de armas e de máfias
responsáveis por organizar a passagem de migrantes para o continente europeu.
Itália e Grécia, principais
portas de entrada
Os países mais atingidos por essa
massa migratória, utilizados como porta de entrada da União Europeia, são a
Itália e a Grécia, mas os Balcãs também servem de passagem para chegar à Europa
pela Hungria. Por isso, o governo húngaro está construindo um muro em toda a
sua fronteira sul.
Mas essa não é uma solução.
A solução do problema migratório
na Europa é política e deve ser resultado de uma visão comum, pensam Hollande e
Merkel. Em maio, a Comissão Européia apresentou um « plano de ação » que
repartia os migrantes entre os países da União num total de 40 mil em dois
anos. Mas em junho, os países da UE reijeitaram as quotas obrigatórias e
exigiram a instauração de « acolhida voluntária ».
Resta saber se os países da União
Europeia vão continuar a reagir individualmente. Dentro dessa lógica, o
primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, que disse que seu país « não tem nenhum
dever pois não foi ele quem provocou o caos na Líbia bombardeando Kadhafi ».
Ele acrescentou que a Eslováquia pode acolher 200 refugiados, « mas unicamente
cristãos da Síria ».
O problema é que o fluxo de
chegada diária de pessoas totalmente desamparadas ultrapassa todas as
previsões. Somente no mês de julho foram mais de 100 mil refugiados novos
dentro da União Europeia.
Para Angela Merkel a solução da
acolhida aos migrantes é « o próximo grande projeto europeu ». A Alemanha é
agora a primeiro destino dos que chegam pedindo asilo: neste ano de 2015, serão
800 mil pedidos de asilo, quatro vezes mais que em 2014, que já era um ano
recorde. Mais de 80% dos alemães pensam que esse é o problema principal do país
e 60% pensam que a Alemanha precisa de imigrantes para enfrentar o problema
demográfico e tem meios de responder a essa demanda.
Apesar de ter um pastor luterano
como presidente e uma chanceler filha de pastor luterano, a Alemanha não teme o
chamado choque de civilizações que os neonazistas apresentam como um
espantalho. Foram esses alemães xenófobos que fizeram do livro de Thilo
Sarrazin « A Alemanha corre para o abismo » um best-seller. O panfleto alerta
para a presença maciça de muçulmanos como o risco maior do país.
Países em guerra e países «
seguros »
Entre os passos a seguir, a União
Europeia deve estabelecer os países cujos cidadãos terão prioridade por se
tratarem de países em guerra. Os oriundos dos chamados países considerados «
seguros » não terão seus pedidos de direito de asilo acolhidos e serão enviados
de volta. Segundo o jornal Le Monde, 40% dos pedidos de asilo são de pessoas
originárias dos países dos Balcãs, considerados « países seguros ».
Por outro lado, a União Européia
prevê ajuda a países como a Turquia, Líbano e Jordânia, que já abrigam milhares
de exilados das guerras do Oriente Médio. Com esse auxílio, essas pessoas não
serão tentadas a embarcar para a Europa, com riscos cada vez maiores de perecer
nos barcos superlotados que chegam às praias da Sicília ou de ilhas gregas,
muitas vezes com muitos cadáveres, alguns mortos sufocados por falta de ar nos
porões.
Isso quando não morrem afogados
depois de terem vendido tudo o que possuem para pagar aos traficantes de
ilusões, verdadeiras máfias que cobram uma média de 2 mil euros por pessoa para
a travessia em barcos precários, superlotados e sem nenhuma segurança.
Esmagada por uma crise econômica
e política, a Grécia não pode arcar sozinha com os problemas suscitados pela
enorme chegada de migrantes. O comissário grego para a Imigração, Dimitris
Avramopoulos, defendeu em entrevista uma solução comum a toda a Europa para a
implantação de políticas « mais corajosas e que impliquem mais solidariedade e
responsabilidade na acolhida dos migrantes ». Seu país vai propor um mecanismo
permanente para a repartição dos migrantes.
Quem sabe se, num élan de
maturidade política e esforço coletivo, os países da União Europeia vão
encontrar uma solução solidária e responsável ao problema dos que fogem de
guerras muitas vezes estimuladas por interesses de países europeus e de seus
aliados americanos, como foi o caso da Líbia, do Iraque e do Afeganistão.
* Leneide Duarte-Plon é
jornalista, trabalha em Paris e é co-autora, com Clarisse Meireles, da
biografia de frei Tito de Alencar, Um homem torturado-Nos passos de frei Tito
de Alencar.
Créditos da foto: Marina Militare
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