Os EUA levantaram ao seu redor uma fortaleza solipsista
capitalismo corrupto e enlouquecido que se apoia na produção de valores
fictícios
Norman
Pollack – Counterpunch // www.cartamaior.com.br
Seria necessária toda uma psiquiatria social para
compreender o gigantesco mecanismo de defesa através do qual os EUA comodamente
escondem, sobretudo de si mesmos, a deslealdade e a baixeza com que atuam no
cenário mundial.
A amnésia conveniente de sua beligerância e de suas
irregularidades alcançou seu apogeu na administração Obama, que se mostrou
ainda pior do que Clinton, se é que isso é possível, ambos arquitetos de um
Império Americano do Capitalismo Monopolista. Uma questão: nos é contado que um
iminente declínio financeiro no mundo seria exclusivamente culpa da China e da
sua incapacidade de manter as mesmas taxas de crescimento em uma economia
globalizada. O fardo de carregar a prosperidade mundial recai apenas sobre os
ombros da China. Não faz sentido.
Os EUA, reforçados por suas tropas de choque, o
Banco Mundial, o FMI e a OMC, levantaram ao seu redor uma fortaleza solipsista
de justeza política que, no entanto, esconde o crescimento desenfreado de um
capitalismo corrupto e enlouquecido e se engrena na produção de valores
fictícios ao invés de, como se presume, produzir para o mercado. Até para
padrões marxistas o capitalismo americano declinou. As consequências esperadas
de alienação e maximização dos lucros, ruins o suficiente se avaliadas por uma
ótica humana de progresso social, degringolaram em uma versão infernal de
guerra financeira que cumpre a tarefa de manutenção da supremacia global
unilateral. Tudo isso na tentativa de se salvar de uma depressão catastrófica
que afeta, antes de qualquer um, os próprios EUA.
Esse auto-revestimento em um excepcionalismo mítico
se assemelha a distúrbios mentais, na medida em que só pode se sustentar sobre
um estado autoritário de deslocamento do ego. No seu lugar, projeta inimigos
dos quais deve se resguardar, inimigos que perpetuam o mal e toda sorte de
inadequações. É exatamente onde nos encontramos: a China e (em uma menor
extensão atualmente) a Rússia requerem a postura beligerante dos EUA.
Intervenções, atividades secretas, mudanças de regime, tudo e qualquer coisa
que a mente do tirano consegue imaginar. Tudo que possa blindar o
auto-reconhecimento das guerras criminosas que engendra internacionalmente e da
degeneração de sua democracia interna.
Aparentemente pequenas coisas importam, pois
revelam os ingredientes dessa receita criminosa. E o ingrediente nesse caso é a
Parceria Transpacífico (PTP), a cereja no bolo do Obama e sua forma de definir
o modelo de globalização americano, uma trama insidiosa para assegurar a
penetração do mercado americano, de uma maneira mais sutil do que o antigo
grande porrete. Vemos a imperialismo do livre-mercado de Gallagher e Robinson
em sua avançada forma moderna. De forma despercebida (já que os termos ainda
não chegaram a público e as deliberações foram tomadas a toque de caixa como só
se espera dos regimes mais antidemocráticos), nós assistimos a Câmara de
Comércio dos EUA pressionando para eliminar as leis anti-tabaco entre os países
signatários. Ou ainda John Castellani, presidente da Pharmaceutical Research
and Manufacturers of America, fazendo lobby para garantir a extensão das leis
de patente, em detrimento da saúde coletiva. A PTP representa tão-somente os
interesses do capital - ou também o direito norteamericano de impor seus
produtos, à custa de doenças pulmonares e da restrição de genéricos para a
população global.
A coisa piora quanto as regulações domésticas de
estabilização da moeda ou qualquer arranjo unilateral que possa beneficiar os
EUA. Nós ainda nem começamos a calcular as negociatas que envolvem os objetivos
geopolíticos (leia-se: anti-China) e redefinem a estrutura econômica mundial
para prevenir o declínio norteamericano. O capitalismo dos EUA é multifacetado:
avança com seus objetivos financeiro-comerciais e simultaneamente militariza um
cerco sobre a China no cenário global. O confronto bélico substitui o
crescimento econômico. São faces inseparáveis da mesma lógica de expansão,
força vital do capitalismo norte-americano, dada a sua confecção de subconsumo
e degradação de trabalho em seus estágios formativos de desenvolvimento
industrial, que fosse de outra forma teria resultado em recessão endêmica. E
esse cenário sempre tem sido acompanhado pela ameaça ou utilização de recursos
militares. Para a América, a rivalidade comercial tem sido tanto causa como
consequência da guerra, condição enraizada no próprio capitalismo.
Nós jogamos bem o jogo do imperialismo porque
reconhecemos bastante cedo que apenas o colonialismo não valia a pena e, fomos
mais longe, porque valorizamos o unilateralismo na política e na economia
internacional. E cá estamos: o gigantismo nos negócios está no final de suas
forças e busca bodes expiatórios para justificar seu desempenho problemático na
contemporaneidade, do ponto de vista não só de crescimento, de distribuição de
riqueza, de provimento de seguridade social e de melhoria em infra-estrutura ,
porém também, ainda mais importante, em termos de direitos humanos no país e no
exterior. Simbolicamente, o recorde de assassinatos com drones de Obama dialoga
com a falência moral do capitalismo militar, uma prática amplamente suprimida
na psique americana. E se uma nação pode se safar impunemente quando faz a
morte reinar nos céus (e bombardeia uma zona hospitalar claramente demarcada),
o seu comportamento no cenário maior (assassinatos com drone são apenas uma
proverbial ponta de iceberg) não deverá nos surpreender.
A Cortina de Ferro da Guerra Fria deu lugar a uma
nova e mais permeável Nova Guerra Fria. Em relação à China, principalmente, mas
também à Rússia, já reduzida a um status de segunda classe. (Não é assim, é
claro, exceto na mentalidade arrogante de líderes políticos e militares
norte-americanos). Ironicamente, porém, as características psicanalíticos do
Velha Guerra Fria foram agora dirigidas para dentro. Talvez a enormidade dos
crimes de guerra promova uma íntima negação que apaga todos os rastros de conduta
ilícita, como quando falamos de danos colaterais (um eufemismo para explicar
ações deliberadas à distância que levam ao assassinato de pessoas inocentes -
por exemplo, alvejando festas de casamento, entre outros). Seja no Iraque ou no
Afeganistão - a presença militar global dos Estados Unidos pode ser encontrada
ad-infinitum - ou na contenção a longo prazo da Rússia, que se traduz em uma
perigosa política de cerco cujas tendências antidemocráticas e pró-guerra na
sociedade americana estão tomando seu pedágio psicológico: mais xenofobia, mais
hostilidade reprimida, mais etnocentrismo, delírios de grandeza, todos se
refestelando à beira de uma enorme explosão.
E agora a China. Nela se focalizam todos os
descontentamentos, como um alvo imputado a receber agressões que, como um
espelho, refletem os próprios sentimentos dos EUA, suas necessidades e
concepção do futuro. A Parceria Transpacífico sem a China é um indicativo da
agressão, primeiro através de comércio e, em seguida, como com a UE e a OTAN, a
sua conversão para um sistema de aliança militar, sendo os EUA, como em outros
casos, o chefe do arranjo. Vale citar o artigo do New York Times (por Neil
Gough) intitulado "China e suas Mensagens Financeiras Divergentes reforçam
o Mal-Estar Global” (20 de outubro), que revela um novo sentido ao que a PTP
acarreta. Como seu título indica, a China seria a culpada pelas preocupações
financeiras globais. E a principal razão, lendo nas entrelinhas, não seria uma
desaceleração da taxa de crescimento, mas um fracasso para proceder rápida e
completamente com as privatizações.
Gough escreve que o "problemático mercado de
ações da China representa um revés significativo para suas longas décadas de
esforços no sentido de construir um sistema financeiro moderno",
Circunlóquios explicitam, ao longo do artigo, que o sistema financeiro não deve
incluir outra coisa senão privatizaçôes. Suas queixas sobre a desvalorização da
moeda (que a PTP pretende evitar, embora de forma não declarada) são menos
importantes do que a agenda de privatizações: "Um pacote de reformas para
expansão de companhias estatais quebrou as expectativas de que a China se
posicionasse a fim de privatizar essas empresas”. Em vez de reduzir suas
participações, o Partido Comunista afirmou que aumentaria seu controle sobre
essas empresas. Existe um equivalente econômico à frase "Melhor morto do
que o vermelho", pro que parece ser o pensamento prevalente entre os
americanos, talvez o bastante, quem sabe, para ir pra guerra. Essas empresas
não devem ser arrancadas das garras do Partido Comunista?
Pobre China; para Gough, ela está praticamente
caindo aos pedaços, resultante do seu fracasso em adotar o capitalismo em toda
sua extensão. (Por sinal, o capitalismo não está satisfeito a menos que seja
completamente totalizado, através de elementos mistos, como de fato já existe
na China, o que é inaceitável para os EUA e sua classe de investidores).
Assim, ele continua: "Para muitos políticos e
investidores globais, a série de surpresas da China [isto é, favorecer e/ou proteger
empresas estatais] é conduzida pela necessidade de colocar a economia de volta
aos trilhos". Uma taxa de crescimento de 6,9% no terceiro trimestre,
conforme relatado em 19 de outubro, que ainda inveja países ocidentais. Ele
prossegue: "Enquanto o presidente Xi Jinping diz estar o país comprometido
com a reforma financeira, as medidas passam a mensagem de que a China está
recuando nesses esforços. É uma paisagem nova que dificulta a navegação para o
restante do mundo".
A título de ilustração, Gough cita Fraser Howie,
banqueiro de longa data na Ásia e co-autor do livro "Capitalismo Vermelho:
A Fundação Financeira Frágil da extraordinária ascensão Chinesa", que
coloca a questão de forma sucinta: "As pessoas dizem que a reforma está chegando,
mas estão abrindo mão das reformas. Fere o propósito; ou você aceita o mercado
ou não”. (Grifo meu) Assim, entramos no mundo codificado da semântica FMI-Banco
Mundial, em que os mercados se abraçando podem ter apenas uma referência
capitalista, isto é, baseando-se nas multinacionais americanas e em um sistema
de comércio semelhante ao americano. Além disso, a China passa dos limites.
Seus tecnocratas e agências concorrentes buscam um "resultado
coletivo" que torna "difícil de discernir" sobre "exatamente
o que está acontecendo na China". As autoridades estão pensando para trás,
bem como semeando confusão entre os investidores. "Do lado de fora",
observa Gough, "funcionários parecem estar mudando o curso de planos de
longa data que são amplamente considerados críticos para a saúde da
economia".
Capitalismo sem dúvida, mas um capitalismo sem
compromisso com a perspectiva dos EUA. E a admissão da China à PTP teria que
esperar até o inferno congelar. O mercado de ações da China caiu com a
assistência planejada do seu ministro das Finanças para start-ups corporativos
(com o que já voltou atrás), provocando essa reação de Matthew Goodman,
especialista em comércio asiático, do Centro de Estudos Estratégicos e
Internacionais: "O resgate do mercado reanimou dúvidas sobre o compromisso
da liderança com liberalização econômica e se esse é mesmo o que a
administração entende por reforma. É bem claro que as coisas não estão indo de
acordo com o plano". Ou talvez estejam. Talvez a China esteja repensando a
totalização capitalista. Andrew Batson, de GaveKal Dragonomics, uma empresa de
consultoria financeira em Beijing, parece pensar que Xi Jinping está tomando
maior controle da economia, em detrimento de uma filosofia capitalista fincada
no mercado: "O foco na centralização de autoridade tem sido um grande tema
do Xi e também este ambiente mais politizado e nacionalista que ele inaugurou
teve efeitos muito claros sobre o progresso da reforma econômica. Isso não é
necessariamente negativo. Mas certamente não é a agenda de reformas pró-mercado
que algumas pessoas estavam esperando.
Certamente não é a reforma que Barack Obama
esperava. Os EUA podem apenas admitir um modelo de reforma financeira. Mas para
aqueles (e aqui me incluo) que valorizam a economia socialista e uma sociedade
pelo seu potencial de justiça redistributiva, por sua perspectiva moral do
humanismo, por seu enfrentamento com a alienação do capitalismo mercantil e por
conceder ao capital um papel secundário na organização da economia política, da
cultura e da alocação de recursos, ou seja, sendo sua democratização critério
para manutenção em funcionamento. Para aqueles que assim concebem o mundo, é
crucial se livrar de ilusões a respeito China.
Por isso, até agora a China ofereceu mais ao
capitalismo e ao seu quadro institucional do que eu gostaria de ver, a fim de
vislumbrar o socialismo enquanto padrão mundial vital e viável de
desenvolvimento. A China, como a Rússia, pode muito bem estar em um ponto de
inflexão (no caso da Rússia, talvez no limite). Não porque uma economia mista
deva ser evitada, mas porque a superposição de riqueza e poder concentrado em
uma ordem política hierárquica e unificada, como eu concebo o capitalismo,
renuncia as perspectivas progressistas do futuro global.
A China, sob Xi, parece viver o processo de
desmantelamento do socialismo, uma tendência que é difícil de reverter uma vez
iniciada. A postura de confrontação dos EUA, realizada para além da PTP e do
avanço militar sobre o Pacífico, poderia talvez obrigar o retorno da China ao
socialismo, à luz da ordem mundial hostil que a aguarda, mas simplesmente não
há garantias de que o capitalismo seria preso na China. Gough relata que o
primeiro-ministro Li Keqiang "reuniu-se com os líderes de alguns dos
maiores bancos da China na sexta-feira [16 de outubro] e emitiu uma promessa
ampla de apoio a empresas com problemas financeiros". O primeiro-ministro
afirma que a China “não vai cortar ou retirar empréstimos das empresas com
dificuldades que tenham boas perspectivas de mercado". E ele fornecerá
"o apoio necessário para empresas passando por falência ou reagrupamento”.
Ainda assim, tendo em mente a equação americana de reforma e privatização, há
alguma perspectiva de reversão, como testemunha o Comitê Central do Partido
Comunista que sem rodeios “pretende dirigir a flexibilização do aperto do
partido sobre as empresas estatais." Esta liderança do partido "é
vital para garantir a direção socialista do desenvolvimento".
Segue meu comentário do New York Times sobre o
artigo do Gough:
"Reforma financeira" = privatização. Nada
menos irá satisfazer o Ocidente e os investidores em geral. O crescimento de
6,9%, dado restante do desempenho global, deve ser ridicularizado? Nada no
artigo indica estar a dívida corporativa das economias desenvolvidas no coração
da atual crise financeira. A China pode lidar com seus problemas de dívida
entre Estado e empresas estatais. Ela não é causa da iminente recessão, mas a
China faz um bode expiatório conveniente para os EUA e outras empresas que
estão muito endividados e procedem com operações financeiras questionáveis.
É muito cedo para proclamar o triunfo do
capitalismo, ou pelo menos do tipo de capitalismo baseada na ganância, que se
comporta como um canhão solto. O The Times enfatiza caos e confusão na China,
mas sem o setor estatal se veria um dano muito maior para a economia mundial.
Tradução por Allan Brum
Créditos da foto: Chad J. McNeeley
Comentários
Postar um comentário
12