Filme com Benício del Toro mostra que a CIA ainda
age de modo tão brutal quanto os senhores do tráfico.
Léa Maria Aarão Reis* // www.cartamaior.com.br
Além da maldição que paira sobre as nações
detentoras de cobiçadas reservas de petróleo, outra se soma aos alvos das
intervenções econômicas e políticas desestabilizadoras, permanentes, por parte
do Império. São nações que se encontram em espaço geográfico crítico para a
sobrevivência e garantia da sua soberania, e, no caso do México, têm os Estados
Unidos da América sentados sobre sua cabeça. De soberano o país tem, cada vez
mais, menos um pouco.
Este é o tema do filme Sicário, terra de ninguém
(Sicario/2015), como anuncia o título. Cenário de uma região onde a disputa
pelos cartéis de drogas e o seu extermínio, há décadas segue descontrolada –
guerra sem fim e sem resultados - o epicentro fica na ciudad de Juarez,
favelizada, com mais de dois milhões de habitantes. Lá, a CIA e outras agências
americanas não têm jurisdição para atuarem. Trabalham nas sombras e agem
ilegais, e de modo tão brutal quanto os senhores do tráfico.
Neste filme do canadense Dennis Villeneuve é
eloquente um diálogo durante o duelo final entre um sicário (o matador, o
mercenário) atuando junto com a CIA e outros agentes americanos e um chefão do
tráfico. Pergunta o chefe mexicano, sentado na sua mesa, jantando e rodeado
pela mulher e pelos filhos, todos sob a mira do ex - advogado colombiano
transmudado em justiceiro (o papel é do excelente ator porto-riquenho Benício
Del Toro cuja carteira é recheada de prêmios internacionais): “Eu lamento a
morte de sua mulher degolada e da sua filha jogada num tanque de ácido. Mas
você sabe bem com quem aprendemos a ser assim violentos.”
Pano rápido.
Villeneuve é autor de uma bela produção canadense
que, com o tempo, vai se tornando um clássico. Chama-se Incêndios
(Incendies/2010). É a trajetória de uma mulher árabe que, ao morrer no Canadá,
deixa aos filhos uma herança surpreendente. O roteiro do filme é perfeito e a
narrativa dessa fascinante história, apaixonante. Em Sicário, ao contrário, o
roteiro filmado é de um estreante, Taylor Sheridan, e, confuso, tende a
manipular a trama para, de modo sutil, justificar a extrema violência e as
violações cometidas pelos americanos em territórios estrangeiros – no caso a
zona cinzenta de fronteira entre a cidade americana de El Paso, de um lado, e
Juarez, tida como a cidade mais violenta do mundo, do outro. Os bandidos são os
traficantes mexicanos que devem morrer. Os mocinhos, os sicários, os policiais
– fardados e à paisana - e os vingadores. Eles sobrevivem.
Dennis Villeneuve já provou em seus filmes
anteriores que sabe dirigir momentos de grande tensão, e aqui repete a proeza.
É perfeita a sequência de um gigantesco engarrafamento na fronteira.
Mas a história gira em torno da destemida agente do
FBI Kate Macy, aqui o símbolo de uma moral que (ainda) perduraria, pelo menos
na visão de Villeneuve e de Sheridan, e cuja dedicação e coragem fazem com que
seja convidada a integrar uma equipe mista cujo objetivo é capturar o tal
chefão do crime mexicano. Aos poucos, Kate percebe que sua crença no que reza a
lei nem sempre é levada ao pé da letra. Ela descobre que foi escolhida para a
missão como decoração, enquanto representante do FBI, o que confere legitimidade
à ação.
Há uma observação de Del Toro à agente Kate,
decisiva para entendermos do que se trata. “Você assina este relatório provando
que tudo foi feito às claras e aconselho que depois vá para uma pequena cidade
onde haja necessidade da implantação da lei. Porque aqui, Kate, isto não é para
você. Aqui é a terra de lobos e você não é um lobo.”
A função de Kate (atriz Emily Blunt) é servir de
contraponto moral na história das transgressões tramadas em obscuros bastidores
às quais, diga-se - e não de passagem -, nós, cidadãos comuns, nunca
conheceremos. Se por um lado é
estereótipo, por outro é bom sempre relembrar.
Torturas: “Você vai ver o que é o inferno na terra
dos ianques”, diz um policial americano numa sessão de tortura ao traficante mexicano,
prisioneiro. Matanças, sequestros, limites legais apagados por decisões que são
tomadas “distantes daqui, por pessoas que foram eleitas”, comenta um
agente.
O estado de direito que se esboroa e propicia o
caos com a pobreza, as favelas, os viciados, traficantes, os facínoras.
Veem-se, numa montanha de pedra próxima da várzea onde meninos jogam pelada,
pintadas em letras garrafais, mensagens da Bíblia.
É nessa várzea nos arredores de Juarez, durante uma
pelada da garotada, que se dá a última sequência do filme de Villeneuve. Um
tiroteio ao longe, balas tracejantes atravessam o horizonte, o jogo para e o
tempo entra em suspenso. Poucos minutos depois, as balas silenciam e a pelada
volta ao “normal”. Nada muito diferente do que ocorre em vários bairros, no Rio
de Janeiro, regularmente.
Some-se a essa realidade mostrada em Sicário/Terra
de Ninguém, a informação recente sobre os novos telegramas do WikiLeaks
publicados na revista americana Jacobin por Alexander Main e Dan Beeton. “Eles
não mostram vislumbres das atividades mais secretas das agências de informação
dos EUA. São, provavelmente, a ponta do iceberg das interferências políticas de
Washington na América Latina. Mas evidenciam a persistência e os esforços dos
diplomatas dos EUA em intervir contra os governos de esquerda na América
Latina. Usam a alavancagem financeira e os múltiplos instrumentos disponíveis
na caixa de ferramentas para a “promoção da democracia” - às vezes até através
de meios violentos e ilegais.” Bingo.
*Jornalista
Créditos da foto: reprodução
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