(Capa: Marcelo Leybovich)
A ascensão da extrema direita exige um equilíbrio delicado da esquerda: forjar alianças amplas para enfrentá-la sem entregar sua liderança ao centro liberal. Ela precisa travar uma batalha dupla: contra a extrema direita e contra as tendências adaptativas de seus aliados moderados.
Quando Adolf Hitler foi nomeado Chanceler do Reich em 30 de janeiro de 1933, a reação das principais forças do movimento trabalhista alemão oscilou entre a descrença institucional e a indiferença sectária. O Partido Social-Democrata (SPD), apegado a uma legalidade republicana já corroída, convocou manifestações "pela Constituição", confiante de que o apoio popular ao establishment seria suficiente para conter o avanço autoritário. O Partido Comunista (KPD), por outro lado, fiel à doutrina do "terceiro período" ditada por uma Internacional Comunista stalinizada, convocou o combate aos "social-fascistas" — isto é, os próprios social-democratas — considerados o principal inimigo de classe. Dentro dessa lógica, Hitler nada mais era do que uma figura transitória, o prólogo turbulento de uma iminente ofensiva proletária. "Depois de Hitler, é a nossa vez", resumiu o argumento o KPD, sob a liderança de Ernst Thälmann. Ambos os partidos erraram no cálculo.
No país com o movimento trabalhista mais instruído, organizado e politizado de sua época, a falta de ação coordenada entre suas duas principais correntes permitiu que o fascismo tomasse o poder. Quase um século depois, pode-se afirmar com certeza que nem o apego ao formalismo constitucional nem o sectarismo que bloqueia qualquer possibilidade de aliança defensiva foram superados pela esquerda. Pelo contrário, ambos os erros reaparecem com perturbadora persistência cada vez que uma nova onda reacionária se instala.
Por que a extrema direita está avançando?
A guinada de amplos segmentos da população em direção à extrema direita não pode ser explicada, sobretudo, pelo racismo, pelo sexismo ou pela rejeição da "cultura woke". Ela responde a uma reação confusa, mas, em seus próprios termos, coerente, ao colapso do tecido social que outrora oferecia segurança, comunidade e propósito. Como aponta Meagan Day, muitos eleitores de extrema direita anseiam não tanto pelas hierarquias rígidas do passado, mas pela estabilidade no emprego e pela coesão coletiva que caracterizaram o capitalismo keynesiano, no qual também predominavam valores culturais conservadores. A demanda generalizada por ordem entre os setores de classe média e baixa, após décadas de decomposição social neoliberal, encontra uma sensibilidade conservadora semelhante na desconfiança em relação às mudanças impulsionadas pelos movimentos feminista, antirracista e LGBT. Essa relação foi habilmente explorada pela extrema direita, que conseguiu unificar descontentamentos heterogêneos em uma narrativa comum. No entanto, não são as disputas culturais em torno de gênero, raça ou sexualidade que motivam principalmente uma reação como a que observamos globalmente.
A chave, portanto, não reside nos valores culturais perdidos, mas nas condições materiais que sustentaram aquele período que ansiamos hoje (quando, por exemplo, "a América era grande"): altos salários, sindicatos fortes, baixa desigualdade. Foi essa estrutura — e não uma suposta harmonia baseada em valores conservadores — que permitiu uma ordem social mais integrada. O neoliberalismo desmantelou essas condições de integração, e a esquerda, ao abdicar progressivamente de seu programa histórico em nome da adaptação ao novo consenso, desocupou o terreno agora ocupado pela extrema direita com seu apelo à restauração de uma ordem perdida sob a égide de um Estado autoritário.
Um mundo pós-hegemônico
A história recente mostra que figuras excêntricas e extremistas, como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Boris Johnson, Geert Wilders e Javier Milei, difíceis de subestimar instintivamente, conseguiram se tornar os verdadeiros protagonistas da política global. Eles não apenas impõem sua agenda e ditam o ritmo do debate público, mas também conseguem se apresentar como portadores de uma saída para a crise. Onde, então, reside sua eficácia?
No novo cenário político global, a estratégia da extrema direita baseia-se em um diagnóstico implícito: o mundo não se organiza mais em torno de consensos amplos e estáveis, nem de hegemonias duradouras. Vivemos um período que podemos chamar de "pós-hegemônico", marcado pelo descrédito generalizado do sistema político e por uma profunda crise de identidades coletivas. Soma-se a isso a deterioração das instituições populares que, por mais de um século, canalizaram a agitação social – partidos operários, sindicatos e até mesmo a Igreja –, hoje gravemente enfraquecidas. O resultado é um vácuo de referências ideológicas e organizacionais, no qual proliferam relações sociais cada vez mais fragmentadas, instáveis e voláteis.
Nesse contexto, a extrema direita não visa construir maiorias amplas, porém instáveis, mas sim minorias fortes e ideologicamente coesas, capazes de resistir e projetar sua influência em cenários de confronto. O objetivo é galvanizar uma base social forte, leal e mobilizada – mesmo que não seja majoritária – que funcione não apenas como apoio eleitoral, mas também como veículo para uma nova cultura política: mais agressiva, mais simples e mais identitária. Identificar essa estratégia com um suposto "gramscianismo de direita" é um erro; trata-se, antes, de uma forma de "guerra cultural" adaptada a um mundo pós-hegemônico.
Enquanto os livros didáticos de sociologia eleitoral e comunicação política aconselham os políticos em campanhas a "focar nos que faltam" — isto é, a moderar seu discurso para atrair eleitores de centro-esquerda —, a nova direita inverteu esse princípio e, para surpresa de quase todos, obteve sucesso. Em vez de suavizar suas posições, optou por radicalizar e consolidar seu núcleo duro. Em um cenário de identidades frágeis e lealdades políticas instáveis, esse núcleo torna-se um trunfo estratégico. Combinado com a erosão do sistema político e a crise hegemônica do neoliberalismo, permite — em certas circunstâncias — ampliar seu alcance, atrair eleitores descontentes e até mesmo conquistar maiorias eleitorais sem a necessidade de convencê-los completamente.
Essa lógica não visa evitar a polarização, mas sim aceitá-la plenamente e transformá-la em método. Cada confronto, cada crise e cada provocação fortalece seus alicerces, os une e expande sua esfera de influência. O confronto, então, deixa de ser um obstáculo à governação e se torna a própria maneira de construir poder em um contexto marcado pela fragmentação e pela incerteza.
No exercício do poder, a hipótese de estabilização desses governos consiste em manter sua própria base de apoio, em meio a um sistema político que não se recupera de seu colapso, enquanto a sociedade afunda na desmobilização e na apatia. Nesse contexto, o autoritarismo pode florescer. Mais do que uma anomalia, trata-se de uma inovação político-estratégica que deve ser entendida em toda a sua dimensão, pois talvez constitua a maior novidade da ordem política surgida após a crise de 2008.
A lógica pós-hegemônica da polarização, no entanto, é dupla. Ao renunciar à construção imediata de uma maioria social, a extrema direita involuntariamente revela que ainda existem forças sociais capazes de enfrentá-la, por mais dispersas, desmoralizadas ou residuais que pareçam. Nesse cenário, a polarização não apenas solidifica o bloco reacionário: também pode catalisar uma recomposição do campo oposicionista. Como ilustrou a ascensão da direita após o esgotamento do neopopulismo latino-americano, inversamente, toda estratégia de confronto tende permanentemente a moldar seu próprio antagonista. A condição para que esse potencial se materialize é a existência de uma liderança política capaz de articulá-lo e projetá-lo com horizonte próprio.
Frente Operária Unida? Frente Popular? Frente Democrática?
A comparação entre a extrema direita atual e o fascismo clássico é tão necessária quanto, por vezes, sufocante. Como frequentemente acontece, analogias históricas podem ser ferramentas úteis para a reflexão, mas também correm o risco de exagerar as semelhanças com o passado. Hoje, antigas discussões sobre táticas antifascistas – como as da frente única, da frente popular ou do chamado "terceiro período" – estão novamente ganhando força. Essas discussões, no marxismo das décadas de 1920 e 1930, envolveram figuras como Leon Trotsky, Antonio Gramsci, Daniel Guérin, Palmiro Togliatti, Otto Bauer, Angelo Tasca, Arthur Rosenberg e Georgi Dimitrov. No entanto, essas referências reaparecem tanto como fontes de inspiração quanto na forma de analogias excessivamente rígidas, que podem obscurecer o perfil específico do novo ciclo reacionário.
Entre a década de 1930 e a situação atual, existe uma profunda descontinuidade histórica. As derrotas acumuladas nas últimas décadas – da ofensiva neoliberal à dissolução do "campo socialista" – deixaram a esquerda em uma posição de fragilidade estrutural, não apenas política, mas também no contexto das forças organizacionais (sindicatos, associações, movimentos) às quais estava associada. A atual crise da ordem liberal não confronta partidos comunistas ou forças reformistas de massa, como ocorreu na Europa durante o período entreguerras. Ao contrário de então, não há polarização entre projetos políticos: a iniciativa e a radicalização pertencem quase exclusivamente à extrema direita.
A esquerda radical, por sua vez, sobrevive em estado de defesa, recolhida em trincheiras locais ou núcleos de resistência social, sem capacidade real de desafiar a hegemonia do descontentamento. Nesse contexto, presumir que a esquerda anticapitalista pode competir com a extrema direita por um suposto espaço comum "antissistema" constitui um erro estratégico. Hoje, não existe um "campo antissistema" compartilhado, nem um radicalismo social politicamente neutro ou disponível. O que predomina é uma metabolização reacionária do descontentamento, avançando sobre o terreno deixado pela desorganização das classes trabalhadoras e pelo recuo da esquerda. Tentar se tornar a ala esquerda dessa radicalização só leva ao isolamento ou — pior ainda — à adaptação ao discurso de direita (do qual não faltam exemplos, mesmo entre as correntes marxistas).
Isso coloca um difícil dilema político: como resistir ao avanço da extrema direita em um cenário tão diferente daquele da década de 1930, com uma esquerda enfraquecida, desorganizada e defensiva? A resposta sugerida pelo senso comum liberal – uma guinada para o centro com o objetivo de atrair setores moderados e isolar a extrema direita – reitera um caminho já testado, com resultados conhecidos. Para além de acordos táticos específicos para impedir vitórias eleitorais de figuras como Trump, Le Pen ou Bolsonaro, uma aliança estável com o "centro extremo" apenas reforça as condições que alimentam o fenômeno que busca conter. Pior ainda, consolida uma narrativa a serviço do projeto reacionário: a extrema direita como a única ruptura real com o sistema e a esquerda como seu apêndice domesticado.
No entanto, em quase nenhum país que vivencie a ascensão da extrema direita é plausível supor que um bloco estritamente "da classe trabalhadora" possa, sozinho, conter a reação, especialmente quando a velha social-democracia europeia ou os populismos latino-americanos dificilmente podem continuar a ser considerados expressões reformistas da classe trabalhadora. Na Europa, quase sem exceção, e de forma mais sutil no caso do progressismo latino-americano, essas forças forjaram laços orgânicos com frações das classes dominantes e, ainda assim, frequentemente se mostram insuficientes para enfrentar o avanço reacionário. Tal é o grau de degradação do equilíbrio de poder, particularmente no plano político. Somente aceitando descaradamente a magnitude do retrocesso poderemos começar a enfrentá-lo.
As formulações marxistas das décadas de 1920 e 1930 sobre a "frente única dos trabalhadores" continuam a oferecer um ponto de partida útil, desde que compreendidas à luz das profundas transformações históricas que nos separaram daquele momento. Essa orientação foi concebida em um contexto em que os partidos comunistas tinham apoio de massa, competiam pela liderança do movimento operário e podiam exercer pressão real sobre os líderes reformistas em sociedades industriais onde o proletariado era numericamente central. Hoje, essa estrutura desapareceu: a esquerda perdeu influência no mundo do trabalho, o movimento operário enfraqueceu significativamente e até mesmo a própria esquerda reformista atravessa uma de suas fases mais frágeis e desconexas.
Na medida em que a extrema direita não é derrotada pela mobilização social, a esquerda é compelida a travar a batalha eleitoral em condições adversas. Duas experiências recentes oferecem alguma orientação: a coalizão que derrubou Bolsonaro com sucesso e recolocou Lula no poder no Brasil, e o bloco promovido pela França Insubmissa (Nova Frente Popular), que conseguiu, pelo menos temporariamente, impedir a extrema direita de chegar ao poder nas últimas eleições parlamentares francesas. Nenhuma dessas experiências corresponde ao modelo clássico de frente única dos trabalhadores, pelo menos não em seu sentido histórico mais estrito. O Partido dos Trabalhadores, que há muito deixou de atuar como uma força de classe independente, recorreu a alianças com setores liberais e facções burguesas como parte de sua estratégia para derrubar Bolsonaro. A França Insubmissa, por sua vez, apelou, por imperativos táticos, a uma aliança com o Partido Socialista Francês, que há décadas vem sendo arrastado por uma deriva neoliberal mal mitigada por alguns vestígios de sua antiga cultura de esquerda.
No entanto, ambos os processos alcançaram algo que não deve ser subestimado: não apenas deslocaram a extrema direita, como também conseguiram relegar a "burguesia liberal" — a "terceira via" no Brasil e o bloco macronista na França — para segundo plano. Se tivesse monopolizado o confronto com a extrema direita, teria condenado a esquerda, em todas as suas formas, a um estado residual. Ao evitar essa deriva em direção a um sistema bipartidário ao estilo dos EUA — entre uma extrema direita radicalizada e um "centro extremo" neoliberal —, esses processos preservaram um terreno político relativamente mais aberto, a partir do qual é mais viável desafiar a hegemonia e confrontar a reação de posições de esquerda.
Embora a esquerda radical não tenha atualmente força para impor um programa de reformas estruturais ou para evitar alianças com setores social-liberais, nos casos do Brasil e da França, a liderança das coalizões não caiu nas mãos da ala mais conservadora. No Brasil, foi Lula quem liderou a aliança, não os partidos liberais ou burgueses; na França, foi Mélenchon, não o Partido Socialista. Isso abriu uma dupla arena de disputa: de um lado, contra a extrema direita, por meio de blocos com real competitividade eleitoral; de outro, dentro das próprias coalizões, na tentativa de impedir que a luta contra as forças reacionárias leve a governos social-liberais que desmobilizem e desmoralizem as classes trabalhadoras.
Este cenário, contudo, não deve gerar ilusões, pois está repleto de perigos gravíssimos. Se predominarem facções social-liberais, a esquerda corre o risco de ser reduzida à ala progressista do status quo , reforçando assim as condições sociais que alimentam a extrema direita. Se, por outro lado, adotar uma posição intransigente em relação às alianças, será simplesmente incapaz de deter o avanço das forças reacionárias. Atribui-se a Lênin a fórmula de que a política envolve sempre caminhar entre precipícios: tal é, nesta situação, a estreita brecha que define o verdadeiro âmbito de ação. Blocos eleitorais de transição deste tipo — capazes de evitar a subordinação ao "centro extremo" e, ao mesmo tempo, de conter a extrema direita — podem funcionar como defesas provisórias, úteis para ganhar tempo, reconstruir forças e reagrupar, a médio prazo, um polo radical que recupere o terreno perdido e volte a oferecer uma alternativa estratégica à crise, como fizeram as correntes socialistas e comunistas no início do século XX.
MARTÍN MOSQUERAGraduado em Filosofia, professor da Universidade de Buenos Aires e editor-chefe da revista Jacobin Latin America.

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