A mentalidade profundamente enraizada de dependência dos EUA por figuras como Rutte representa um obstáculo à autonomia estratégica da Europa.


Ilustração: Chen Xia/GT

Por Global Times

As declarações do Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, esfriaram mais uma vez o debate europeu sobre "autonomia estratégica". Durante um discurso no Parlamento Europeu, em Bruxelas, na segunda-feira, Rutte afirmou categoricamente que a Europa está "sonhando" se pensa que pode se defender sem os EUA. Questionado em entrevista à imprensa holandesa no domingo sobre se a Europa poderia algum dia funcionar sem os EUA, ele respondeu inequivocamente: "No que me diz respeito, nunca".

As declarações de Rutte surgem em um momento em que os apelos por maior autonomia e uma postura mais assertiva dentro da Europa têm se intensificado, especialmente em meio às crescentes tensões sobre questões como a Groenlândia e as relações tensas com Washington. Por um lado, os países europeus estão cada vez mais conscientes das pressões que remodelam os laços transatlânticos; por outro, o chefe da OTAN continua a enfatizar a suposta incapacidade da Europa de funcionar sem os EUA. Isso ilustra que a aspiração europeia por "autonomia estratégica" enfrenta forte resistência, principalmente de figuras como Rutte, evidenciando profundas divisões internas em todo o continente.

"Como secretário-geral da OTAN, Rutte tem um interesse direto em manter a aliança transatlântica", disse Zhao Junjie, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Europeus da Academia Chinesa de Ciências Sociais, ao Global Times. A principal tarefa de Rutte é sustentar a OTAN, com o guarda-chuva nuclear dos EUA servindo como pilar central da aliança. "Para manter a OTAN viva, Rutte demonstrou uma deferência quase inquestionável aos EUA, buscando até mesmo apaziguamento", observou Zhao.

A questão, no entanto, é se uma aliança que só consegue justificar sua existência enfatizando constantemente a dependência externa e sacrificando a autonomia de seus membros ainda merece existir.

De fato, a OTAN se tornou uma relíquia da Guerra Fria que já não cumpre seu propósito original. Para preservar essa estrutura ultrapassada, as declarações "posicionais" de Rutte — incluindo seus comentários anteriormente controversos referindo-se ao presidente dos EUA, Donald Trump, como "papai" — ironicamente ecoam as críticas do governador da Califórnia, Gavin Newsom. Newsom acusou abertamente alguns líderes europeus de "não serem mais duros" com o presidente dos EUA, Donald Trump, sugerindo que eles deveriam "ter mais fibra". Nesse contexto, Rutte poderia considerar seguir o "conselho" de Newsom: se manter a relação transatlântica exige uma postura tão subserviente, ele bem que poderia usar joelheiras.

Declarações de elites políticas como Rutte explicam por que a Europa reconhece a necessidade de buscar autonomia, mas consistentemente falha em fazê-lo. A questão não é meramente uma falta de capacidade; ela decorre de uma mentalidade profundamente enraizada de dependência dos EUA. Essa dependência vai além de questões militares, influenciando os julgamentos diplomáticos da Europa, as avaliações de risco e até mesmo sua imaginação política. Embora slogans ousados ​​possam repercutir, quando a ação se faz necessária, divisões internas e preocupações com Washington frequentemente ressurgem, fazendo com que a busca da Europa por autonomia estratégica seja repetidamente paralisada.

Em uma encruzilhada onde as fraturas históricas nas relações transatlânticas se tornam cada vez mais difíceis de reparar, a Europa está vivenciando um momento de despertar. Zhao Junjie acredita que, embora figuras como Rutte possam resistir a essa tendência, a autonomia estratégica está se tornando uma trajetória inevitável para a Europa. A reavaliação das relações com os EUA por alguns formuladores de políticas europeus entrou em uma nova fase marcada por um distanciamento mais claro de Washington. Apenas alguns dias antes, o primeiro-ministro holandês, Dick Schoof, afirmou publicamente que a Europa precisa ser capaz de agir com mais independência, tanto militar quanto economicamente, e demonstrar firmeza para enfrentar os EUA.

A escolha entre continuar a se agarrar aos EUA ou tomar a iniciativa e trilhar um caminho independente na defesa tornou-se crucial para a Europa. A autonomia estratégica europeia não é totalmente inatingível, mas exige um alto grau de consenso interno e ação coletiva. A longo prazo, a Europa precisa primeiro se libertar, no plano das ideias, da dependência psicológica e institucional dos EUA, para depois reformular sua arquitetura de segurança na prática. Caso contrário, a "autonomia estratégica" permanecerá pouco mais que um slogan, e a OTAN continuará sendo um obstáculo estrutural difícil de superar para a Europa.

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