A rede autocrática

Javier Milei, José Antonio Kast, Jair Bolsonaro e Nayib Bukele.


TRADUÇÃO: PEDRO PERUCCA

Ao buscarmos forjar um novo internacionalismo de esquerda, devemos reconhecer o que enfrentamos: uma rede global de extrema-direita que subverte e parodia as estruturas liberais herdadas. Será possível uma alternativa democrática mais radical?

Após uma tentativa de assassinato durante um comício de campanha em julho de 2024, o presidente dos EUA, Donald Trump, alegou ter sido "baleado pela democracia". Da mesma forma, ao reassumir a presidência no início de 2025, Trump anunciou que sua eleição era uma oportunidade para reverter uma "traição horrível" e restaurar a "democracia" e a "liberdade" ao povo americano. No entanto, em poucos meses, seu governo lançou múltiplos ataques às próprias estruturas democráticas que alegava defender, com decretos executivos que infringiam as prerrogativas do Congresso, suspendiam direitos de cidadania, limitavam o direito ao protesto pacífico, restringiam a independência das universidades e criminalizavam imigrantes. Entre janeiro e maio de 2025, tribunais federais dos EUA bloquearam ou suspenderam temporariamente 145 decretos executivos considerados inconstitucionais.

Quase simultaneamente, no Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro enfrentou acusações de conspiração para um golpe de Estado com o objetivo de derrubar — e, em última instância, assassinar — Luiz Inácio “Lula” da Silva, vencedor do segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Apesar de ter sido processado com provas substanciais reunidas pela Polícia Federal brasileira e de ter direito à defesa e ao devido processo legal, Bolsonaro e seus aliados acusaram o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes — o juiz responsável pelo caso — de ser um “tirano” e um “ditador”. Suas alegações foram corroboradas pelo Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que sancionou Moraes por “graves violações de direitos humanos”.

Anteriormente, em 2020, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, ordenou que militares e agentes da Polícia Nacional Civil (PNC) invadissem o prédio do Legislativo para "pressionar" os parlamentares a aprovarem um empréstimo de US$ 109 milhões para financiar um plano de segurança. A ação, segundo ele, foi apenas uma "demonstração de força". "Se eu fosse um ditador", afirmou, "ou alguém que não respeita a democracia, já teria tomado o controle de tudo". De forma semelhante, logo após assumir o cargo em 2023, o presidente da Argentina, Javier Milei, prometeu usar tecnologia de reconhecimento facial para identificar manifestantes em protestos antigovernamentais e cortar seus auxílios estatais e benefícios sociais. Ironicamente, ele incluiu sua ameaça autoritária em seu slogan de campanha: "Viva a liberdade, dane-se!" Os comentários mais perturbadores sobre o projeto de lei "antiprotesto" de Milei, no entanto, vieram da então Ministra da Segurança Nacional, Patricia Bullrich, que disse: "Ordem e lei geram liberdade, e liberdade gera progresso. Há entre 8.000 e 12.000 protestos por ano em nosso país. Isso arruína a economia, as famílias e cria desigualdade."

Essas alegações dos aliados da extrema-direita do hemisfério, invocando democracia, liberdade, igualdade e direitos humanos, soam estranhas e dissonantes, mas de alguma forma se normalizaram no atual cenário político. Ao entrarmos no segundo quarto do século XXI, líderes autocráticos e movimentos extremistas parecem ter a vantagem nas disputas narrativas e nos resultados eleitorais. Infiltrando-se primeiro nas estruturas democráticas, o autoritarismo contemporâneo buscou legitimidade por meio da competição eleitoral, apresentando-se com sucesso como um concorrente legítimo em disputas democráticas. Agora, fortalecido pelos resultados eleitorais e pelas alianças corporativas que concederam cargos executivos e assentos parlamentares a seus líderes e partidos, a agenda autocrática contemporânea não é mais clandestina; ela entra pela porta da frente e anuncia sua chegada. Curiosamente, porém, ela se apega aos símbolos da democracia e da igualdade ao fazê-lo.

Em todo o mundo, em movimentos autoritários vastamente diferentes, parece existir uma retórica comum: esses líderes proclamam-se os verdadeiros democratas e os únicos capazes de restaurar a soberania nacional. Seus inimigos, nesse contexto, tornam-se tiranos e ditadores, e qualquer restrição política ou limitação legal às suas ações é opressão. Promover a exclusão, suprimir violentamente os direitos e entregar a autoridade do Estado a entidades privadas ou aliados ideológicos estrangeiros deveria ser incompatível com qualquer noção aceitável de democracia ou soberania popular. Mas tais princípios são distorcidos na retórica autoritária, e essa deturpação do significado pode ser precisamente um elemento crucial para o sucesso eleitoral dos autocratas.

O autoritarismo contemporâneo e a nova direita

O autoritarismo do século XXI gira em torno de um conjunto de líderes carismáticos que são geralmente — e erroneamente — rotulados como “populistas” ou “neopopulistas”: rótulos que, como alertou o teórico político Benjamin Arditi, chamam a atenção para o populismo como uma tática, e não como uma ideologia concreta. A ofensiva, na verdade, vem de uma casta de etnonacionalistas, ultraconservadores e neofascistas, alinhados com ultralibertários e “radicais de mercado” na extrema direita do espectro político. Uma vez no poder, eles se apoiam em argumentos de apoio popular para coagir oponentes, paralisar restrições institucionais e restringir direitos e proteções sociais. Impulsionadas por ganhos eleitorais, as formas autoritárias contemporâneas de governo distorcem e exauriram as instituições democráticas, embora consigam mantê-las à tona.

Para além dos exemplos notórios de Trump e Bolsonaro, o autoritarismo contemporâneo encontra seus casos clássicos no primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán e no presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em que as maiorias parlamentares concederam a esses líderes executivos amplos poderes. Tais casos revelam que a ascensão de autocratas não depende da estrutura dos sistemas políticos. Enquanto alguns emergem com o apoio de partidos fortes com raízes sociais profundas, outros se aproveitam de um partidarismo fragmentado e volátil.

Os processos contemporâneos de autocratização não são lineares nem rígidos, e certamente não se limitam a assegurar e expandir a liderança executiva. Em muitos países, plataformas antidemocráticas encontram terreno fértil em governos de centro-direita e centro-esquerda, ou alavancam suas crescentes bases eleitorais como força de pressão. Bolsonaro, por exemplo, perdeu a reeleição em 2022, mas permaneceu uma força política influente e capitalizou sobre a maioria parlamentar em sua coalizão de apoio, restringindo significativamente a agenda programática de Lula. Em outras partes das Américas, a nova direita alcançou vitórias políticas significativas, não apenas garantindo posições em El Salvador com Bukele e Milei na Argentina, mas também colhendo sucessos notáveis ​​na oposição, como Rafael López Aliaga no Peru e José Antonio Kast no Chile, que venceu a presidência no final de 2025.

De forma semelhante, partidos de extrema-direita na Europa conquistaram um número significativo de assentos parlamentares, participando cada vez mais na formação de governos e até mesmo influenciando políticas fora das coligações. Na Áustria, por exemplo, o Partido da Liberdade (FPÖ) ficou em primeiro lugar nas eleições nacionais de 2024, mas não conseguiu formar governo. A coligação resultante excluiu o FPÖ, mas responde à pressão expressiva do seu eleitorado com políticas anti-imigração, como a proibição do uso de véu islâmico nas escolas. O cenário é bastante similar nos Países Baixos, onde uma coligação liderada pelo Partido da Liberdade de Geert Wilders entrou em colapso recentemente por não ser considerada “suficientemente rigorosa” em relação à política de imigração.

Após perder a disputa parlamentar em 2023, o partido Lei e Justiça da Polônia reafirmou sua força na corrida presidencial de 2025, dois anos depois de ser derrotado nas eleições parlamentares pela Coligação Cívica. Na Alemanha, o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), liderado por Alice Weidel, tornou-se o segundo maior partido no Bundestag; da mesma forma, o Chega, em Portugal, e o Vox, na Espanha, emergiram como fortes vozes reacionárias de oposição. Na Itália, o apelo pessoal da primeira-ministra Giorgia Meloni impulsionou o partido nacional-conservador Irmãos da Itália (Fratelli d'Italia) à presidência, e sua moderação em relação ao euroceticismo a faz parecer uma líder de direita radical aceitável para seus pares liberais-democráticos. E mesmo em países onde governos centristas conseguiram isolar a extrema-direita, como a França e o Reino Unido, a instabilidade política deu lugar a políticas cada vez mais antidemocráticas e deslocou o espectro político para a direita (em parte com a cumplicidade do centro-esquerda).

Essa força eleitoral, contudo, não reflete necessariamente a prevalência da ideologia de extrema-direita entre os eleitores. Embora tenham conseguido expandir seus redutos, a maioria ainda depende de persuadir um eleitorado mais amplo e indeciso. Seu sucesso, portanto, depende de abordar inseguranças materiais, os efeitos nocivos da concentração de renda e uma sensação generalizada de impotência política. Frequentemente, capitalizando-se no cansaço e na insatisfação pública com um Estado restritivo e indiferente, alguns desses movimentos oferecem variações do grito de guerra "retomar o controle", numa complexa distorção da soberania popular e nacional. Isso encontra eco em eleitorados que vão além dos ultraconservadores e reacionários.

Mais do que a cruel exclusão da diferença ou a restauração reacionária de uma suposta ordem, os movimentos autocráticos também articulam a promessa de eficácia política. Livres das amarras da "velha política" e de complexos compromissos internacionais, apresentam-se como atores poderosos que cumprirão suas promessas. Apelam à desilusão, à completa descrença de que alternativas democráticas possam melhorar a vida de seus eleitores, ou à ideia de que algo indefinível irá mudar. Esse apelo pode ser condensado em grandes questões — como a inflação (como ocorreu nas eleições americanas de 2024), a corrupção (como nas eleições presidenciais brasileiras de 2018) ou uma burocracia estatal inchada (como na Argentina em 2023) — ou em vagas demandas sociais. Em todo caso, em vez de instrumentalizar o racismo, a xenofobia e o conservadorismo moral, os novos autocratas mobilizam a esperança. Isso permite que os movimentos autocráticos instilem entusiasmo revolucionário e um senso de pertencimento à comunidade.

Além do punho de ferro

Para atrair bases eleitorais mais amplas e diversificadas, o autoritarismo contemporâneo não pode se basear unicamente em promessas de mão pesada para restaurar a ordem, nem pode esperar uma delegação incondicional de poder a um líder todo-poderoso. A fantasia absolutista de um exercício monocrático do poder, defendida, por exemplo, pelo blogueiro de extrema-direita e herói do movimento MAGA, Curtis Yarvin — elevado ao status de “intelectual público” com a ajuda da grande mídia americana — em nada contribuiu para desinflar essa ilusão. Nos países onde o autoritarismo prospera atualmente — desde sistemas representativos consolidados como os da Europa Ocidental e dos Estados Unidos até as constituições democráticas relativamente mais recentes adotadas em países da América Latina, África, Pacífico Sul e países pós-soviéticos nas últimas décadas do século XX — a democracia consolidou sua posição como a única forma legítima de organização política. Em meio à diversidade de seus espectros políticos, esses países tenderam a reconhecer o pluralismo, os direitos das minorias e a legitimidade da dissidência como condições mínimas para uma governança justa, mesmo que persistissem debates sobre os arranjos institucionais e sua capacidade de implementar políticas democráticas de longo alcance. Os autocratas contemporâneos, portanto, devem lidar com uma experiência coletiva de inclusão democrática e lutas emancipatórias.

Essa constatação dá origem a uma característica fundamental — e aparentemente paradoxal — do autoritarismo contemporâneo: até agora, ele preservou eleições competitivas, apresentando-se como a única alternativa à restauração da democracia, cujo significado foi, em muitos aspectos, esvaziado pela tecnocracia liberal. Os líderes autoritários sabem que, para alcançar e expandir seu poder por meio de resultados eleitorais, precisam negociar sua autoridade com eleitores que não aceitam o despotismo, incluindo membros de minorias emancipadas cujas principais bases de apoio desejam excluir. Devem oferecer eficácia política por meios democráticos, uma vez que seus eleitorados são motivados pela possibilidade de exercer influência sobre o governo.

Ao apropriarem-se das noções de democracia e liberdade, os autocratas contemporâneos, por sua vez, acusam seus oponentes de exercerem “opressão violenta”, rotulando-os de “tiranos” e “ditadores”. Mais do que um mero clichê, essa subversão discursiva pode ser um elemento central do extraordinário poder de persuasão do autoritarismo contemporâneo, que transcende realidades nacionais, setores sociais e divisões demográficas. Mesmo quando, uma vez no poder, rompem com o pacto democrático que legitimou sua ascensão, ignorando suas promessas de campanha e frequentemente enfrentando índices de aprovação em queda livre, esses líderes continuam a se agarrar ao seu autoproclamado status de vetores legítimos da vontade popular, possivelmente na esperança de que suas próprias versões subvertidas e excludentes de democracia e soberania eventualmente prevaleçam a ponto de se tornarem hegemônicas.

Resistindo à tentação de contradizer os autocratas e se engajar em uma batalha conceitual para restaurar o significado da democracia, os democratas podem fazer melhor resistindo ativamente ao esvaziamento e à cooptação dos meios democráticos de representação, proteção social e responsabilização nas instituições políticas. Acima de tudo, podem enviar ao eleitorado uma mensagem clara sobre protagonismo, influência e soberania popular. Assim como a memória coletiva da democracia molda o discurso autoritário, a experiência de um passado autocrático, compartilhada por muitos dos países que agora caminham rumo ao autoritarismo, oferece um alerta. E os democratas podem usar essa experiência a seu favor.

Este ensaio faz parte do projeto After Order do Alameda Institute, que examina as transformações da soberania nestes tempos catastróficos.

ANNA RAPOSO DE MELLO

Anna Raposo de Mello é pesquisadora e coordenadora de projetos na Alameda e pesquisadora associada no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP).

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