Cuidado, hospital


Omar dos Santos

Este título me apareceu à cabeça ao acompanhar duas notícias que povoam a mídia da capital federal e a do país, que são aparentemente desatreladas. Uma sobre os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica – Enamed, cujos resultados foram tão pífios que demonstram claramente o fracasso do modelo de ensino superior do Brasil e a outra sobre a tragédia ocorrida no Hospital Anchieta na Região Administrativa de Taguatinga, que causou a morte de três pacientes internados em sua UTI, ambas ocasionadas pela inépcia e negligência de médicos e técnicos em saúde daquele “nosocômio”, o arcaísmo é intencional mesmo. O noticiário dá conta de que a polícia civil investiga a possibilidade de ter havido outros óbitos pelos mesmos motivos. Os dois fatos me lembraram de um livrinho, chamo-o assim por puro carinho, cujo título é – Cuidado, escola –, obra inteligente e oportuna, que lia costumeiramente no tempo de minha militância pedagógica.

O autor, utilizando magistralmente o recurso polissêmico da palavra “cuidado” desvenda as contradições dos papeis que a escola desempenha na sociedade, mostrando que ela muitas vezes representa riscos para a formação dos alunos.

Faço analogia com os dois títulos, o do texto e o do livro, pois tenho opinião firmada de que hospital é um dos lugares mais perigosos para a vida. Mas o problema não se circunscreve ao hospital ou a qualquer serviço de saúde e, como diz o jargão, “o buraco é bem mais embaixo”.

O objeto deste texto não é aprofundar o debate sobre a educação brasileira, não porque esse debate não seja mais que necessário e urgente, mas porque a ideia aqui é alertar o leitor para o fracasso do modelo de educação adotado por sucessivos governos e radicalizado pelos governos Temer e Bolsonaro.

Quando o Congresso Nacional, subordinando-se aos interesses e às ordens do grande capital, patrocinou o golpe que derrubou a Presidenta Dilma através de um impeachment absolutamente ilegal e vergonhoso, Darcy Ribeiro, um de nossos maiores educadores, afirmou com toda sabedoria: “A crise da educação brasileira não é uma crise, é projeto”. E o mais repulsivo é que com tal projeto, nossas elites buscam manter o país eternamente subdesenvolvido e subserviente e seu povo alienado.

Não estou aqui a dizer que nossa educação foi, em alguma época, antes ou depois desses dois governos, um modelo virtuoso de ensino, mas estou afirmando, com toda segurança, que em matéria de esculhambação e esbulho os dois foram milagrosos e os resultados comprovam isto.

Ao sentar-se, sem ficar vermelho, na cadeira de presidente, usurpada que foi, Temer cuidou de substituir o ministro da educação por um representante do empresariado, que logo foi substituído por outra figura ilustre, mas desconhecida. Dois anos de governo, dois ministros. A grande realização desse governo na educação foi sua política de austeridade, cujo pilar principal foi a aprovação do Teto de Gastos; (Emenda Constitucional 95/2016). Medida que congelou os investimentos em educação, por 20 anos.

Aí chegou o “Messias” e a coisa desandou de vez. Com ele, a desordem na educação brasileira foi geral, afetando seus três pilares, o administrativo, o doutrinário e o orçamentário.

Para se ter ideia da profundidade da debacle, em quatro anos de governo Bolsonaro, (ou desgoverno para dizer a verdade), foram nomeados sete ministros da educação, entre os quais, um não pode assumir por estar envolvido em desvios de verbas públicas, outro teve que renunciar com cinco dias de mandato pelos mesmos motivos e dois foram ministros interinos.

Com uma gestão assim, o resultado não poderia ser outro e seu legado à educação e ao povo brasileiro é uma profusão de “esquisitices”: Ministros exonerados por corrupção por um governo corrupto; ministro que teve que renunciar pela descoberta de falsificações de títulos acadêmicos em seu currículo comprovadas tanto por instituições nacionais como internacionais; ministro que acusou o povo brasileiro de canibalismo e de ladroagem em hotéis, aeroportos e aviões; ministro chefe de esquema de favorecimento a prefeituras ligadas a igrejas evangélicas, quando no repasse de verbas da educação; e por último, ministro da educação que ao escrever um texto de cinco linhas cometia quatro erros grosseiros.

Do ponto de vista doutrinário a ação dos bolsonaristas foi ainda mais nefasta para a sociedade. Como o presidente entregou o governo aos militares, quase ressuscitando a ditadura de 64, da qual sistematicamente confessava saudades, ao entreguista Paulo Guedes, que unificou os ministérios da fazenda, do planejamento e da indústria e comércio e assim pode cometer toda sorte de espoliação do patrimônio público e por último ao presidente da Câmara Federal, Arthur Lira, ficando assim, o tal presidente, livre o tempo todo para vadiar, nestas condições, a quadrilha que teve a autorização explicita da elite brasileira pode fazer o que quis com os destinos da nação.

Na educação, os referidos governos quase conseguem destruir os grandes avanços que vinham sendo construídos nos governos de esquerda anteriores ao golpe dado pelo congresso e pelas elites.

Na busca de anular a resistência acadêmica e cívico-cultural dos progressistas, o referido governo implantou ideologias fascistas como o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares, que transforma a escola em quartel, e a Escola sem Partido também de inspiração fascistoide. Flexibilizou o currículo do Ensino Médio para alargar a já grande diferença entre a escola do rico e a do filho do trabalhador, na qual o aluno é que escolhe as matérias de seu currículo. Reestruturação do Educação Profissional e Tecnológica para impor ao filho do trabalhador uma formação profissional medíocre e sem nenhuma base acadêmica.

Sabemos que quando um governo, seja lá qual for, deseja destruir uma ação de responsabilidade pública que não lhe convém, ele o faz cortando investimento, e o governo do “mito” usou esta prerrogativa como poucos o fizeram na história da república, sobretudo nas áreas da educação e da pesquisa. Para um governo fascista, entreguista e preguiçoso como foi o de Bolsonaro, para as elites retardadas como são as do Brasil e para militares corruptos e golpistas como os nossos, a educação é a maior inimiga da humanidade.

Durante seu mandato, Bolsonaro cortou R$ 10, 5 bilhões do orçamente das universidades públicas e das escolas técnicas. Bloqueou R$ 3,2 bilhões do orçamento do Ministério da Educação. Cortou 97% dos recursos para programas de educação técnica e de fomento à pesquisa. Acrescenta-se ainda a esse projeto de desmonte da educação e da pesquisa, os enormes valores contingenciados para cobrir injustificados rombos orçamentários.

Este cenário justifica a situação da educação brasileira e o fiasco que se deu no Enamed de 2025. Explica também o baixíssimo desempenho de nossos alunos do Ensino Básico no Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA, realizado pela OCDE, no qual nossa educação vinha experimentando notáveis e sensíveis melhorias até 2014, mas que agora voltou a piorar.

A sabedoria popular nos ensina que “não colhe banana quem plantou laranjeira” e é aqui que os dois acontecimentos, resultados do Enamed e a tragédia do Anchieta, se encontram na mais perfeita relação de causa e efeito.

Mesmo que as investigações policiais apontem para a possiblidade de crime intencional, o que acrescenta à formação acadêmica a importância da formação ética e moral dos estudantes, a situação se coloca como o exemplo mais acabado do fracasso do ensino brasileiro.

Os resultados apresentados na avaliação feita pelo Enamed 2025, se referem a 351 cursos de medicina sendo que 304 pertencem ao Sistema Federal de Ensino, que inclui as instituições públicas federais e as instituições privadas.

Os demais são regulados pelos sistemas estaduais. Estes resultados mostraram que 85% dos cursos municipais foram considerados insatisfatórios.

Que mais de 80% desses cursos são oferecidos por instituições privadas.

Desta forma, como diz a analogia acima, é perfeitamente natural, esperável e lógico os acontecimentos de erros médicos, de desvios de conduta e de trapaça financeira que ocorrem diuturnamente neste Brasil. O caso do Anchieta só é um pequeno exemplo entre as centenas de milhares que ocorrem em nossos serviços de saúde, públicos e privados.

O atual governo tem buscado redirecionar a educação e a pesquisa brasileiras para caminhos que possam dar as condições básicas para o desenvolvimento tecnológico e socioeconômico que fazem uma nação soberana e um povo autônomo. Mas com tantos inimigos tanto nacionais como internacionais a luta é difícil. Mas lutar é preciso.

Enquanto isto só me resta alertar o leitor. Cuidado, escola e hospital.

Taguatinga, DF, 22 de janeiro de 2026

Omar dos Santos


"A leitura ilumina o espírito".

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