Estados Unidos, em estado de emergência nacional

Em resumo, é evidente que os Estados Unidos enfrentam uma emergência nacional. Mas o fator que a desencadeou não foi a China, o Irã, a Europa, a Venezuela, Cuba e certamente não o México. (Foto AP/arquivo)


Não há dúvida de que os Estados Unidos estão, de fato, em estado de emergência, e Donald Trump tinha razões de sobra para declará-lo, como fez ontem.

E com razão: a economia está em crise por todos os lados devido à inflação, à incerteza financeira e às crises em vários setores do comércio internacional; a deterioração das condições de vida de segmentos crescentes da sociedade é evidente; há corrupção desenfreada e inegável, praticada e incentivada pelo círculo presidencial; a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a ponta de lança estratégica dos EUA na Europa, mas também no Oriente Médio, na Ásia Central e na África, está se deteriorando; os laços de Washington com seus aliados e parceiros históricos estão severamente enfraquecidos; há uma série de confrontos interinstitucionais, e o espetáculo de grupos paramilitares assassinando, ferindo, espancando e sequestrando pessoas nas ruas de várias cidades com a bênção da Casa Branca exaspera e polariza a opinião pública.

A avaliação da gravidade da situação está correta; o diagnóstico da sua causa, porém, é falho. A “ameaça incomum e extraordinária” é o caos interno e externo provocado pela cúpula do regime, liderado pelo único ditador no mundo que — bravo pela sinceridade! — se reconhece como tal (https://shorturl.at/mNN9M); dizer que vem de Cuba é uma piada de mau gosto que só Marco Rubio poderia ter inventado e que ninguém além do seu chefe conseguiria contar em público sem corar.

A afirmação de que “as políticas, práticas e ações do governo cubano são concebidas para prejudicar os Estados Unidos e apoiar países hostis, grupos terroristas transnacionais e agentes malignos que buscam destruir os Estados Unidos” (https://shorturl.at/n74oq) leva a imaginar um poderoso Estado caribenho tentando esmagar uma nação pobre, indefesa e vulnerável ao norte.

Algo igualmente estúpido é defendido pelo autor fascista de best-sellers Peter Schweizser em seu livro "O Golpe Invisível: Como as Elites Americanas e as Potências Estrangeiras Usam a Imigração como Arma" (https://shorturl.at/EY2fS), no qual ele afirma que o México, por meio de seus consulados, está promovendo um golpe de Estado no país vizinho e tentando "influenciar as eleições presidenciais" nos Estados Unidos.

Em ambos os casos, tratam-se de exemplos do mecanismo projetivo, que já foi discutido neste espaço: “quando percebemos algum aspecto negativo de outra pessoa, algo que produz rejeição e desagrado em nós, mesmo quando mal conhecemos essa pessoa, é muito provável que estejamos projetando nela aspectos de nós mesmos que consideramos intoleráveis” (https://shorturl.at/ElTIN).

Em ambos os casos, a realidade é exatamente o oposto: são as práticas e ações de Washington que visam prejudicar Cuba e financiar e promover “grupos terroristas internacionais e agentes malignos” que buscam a destruição do governo cubano. E são os Estados Unidos que têm interferido sistematicamente na política interna do México, seja com a aquiescência de presidentes subservientes, como todos os do período neoliberal, seja com a oposição explícita das administrações atuais, seja sob Trump, Biden ou, novamente, Trump. Lembremos, por exemplo, como o intrometido ex-embaixador Ken Salazar acreditava ter o direito de comentar a Reforma Judiciária aprovada em nosso país ao final do mandato presidencial anterior (https://shorturl.at/SdgAh).

Mas, para além dos conflitos entre os pronunciamentos do trumpismo e a realidade, o fato é que o primeiro demonstra, além de possíveis problemas de saúde mental por parte do ditador – explorados oportunamente por seus subordinados para promover seus próprios interesses – tentativas de fuga e de construção de mecanismos externos que lhe permitam evadir-se da situação interna cada vez mais preocupante e da inegável disfuncionalidade de seu governo.

Em suma, é evidente que os Estados Unidos enfrentam uma emergência nacional. Mas o fator que a desencadeou não foi a China, nem o Irã, nem a Europa, nem a Venezuela, nem Cuba, e muito menos o México. A grave crise da superpotência carrega uma assinatura imediata e clara: um rabisco furioso de linhas grossas, angulares e agressivas que correspondem à assinatura do Presidente dos Estados Unidos e que simbolizam o declínio, talvez terminal, de seu país.

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