
Após o sequestro de Nicolás Maduro pelo exército dos Estados Unidos, o governo liderado por Delcy Rodríguez parece ter iniciado uma viragem económica pragmática e calculada. A sua estratégia, apresentada sob o lema "defender a soberania contra a agressão", busca abrir portas que estiveram fechadas durante anos, especialmente para os Estados Unidos.
O motor dessa mudança é, sem dúvida, o setor petrolífero. O governo lançou uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos cujo objetivo é formalizar e proteger, por meio dos chamados Contratos de Participação Produtiva (Sharing Participation Agreement), a entrada de capital e tecnologia estrangeiros. Trata-se de uma mudança radical, pois até agora havia muita relutância em relação a formas de economia mista (pública e privada) no setor de hidrocarbonetos.
Segundo o governo venezuelano, esta reforma visa gerar confiança jurídica para que empresas, particularmente americanas como a Chevron ou a ExxonMobil, invistam maciçamente na revitalização dos campos venezuelanos. O primeiro sinal concreto desta nova orientação foi a assinatura de um contrato para exportar Gás de Petróleo Liquefeito (GPL), um produto novo na cesta de exportações do país. Este movimento não é ingénuo: responde diretamente ao interesse expresso por Donald Trump de que as empresas dos Estados Unidos liderem a reativação energética venezuelana.
Paralelamente, Rodríguez procura atender à emergência social e controlar a inflação por meio de uma engenharia financeira de alto impacto. A peça-chave são dois novos fundos soberanos. O Fundo de Proteção Social foi concebido para injetar recursos diretamente no bolso dos trabalhadores e em serviços como saúde e educação. O Fundo de Infraestrutura, por sua vez, visa a reabilitação urgente de água, eletricidade e estradas.
Esses fundos seriam alimentados pelas receitas do petróleo. Para conter a espiral de preços, o governo prometeu uma injeção sustentada de divisas provenientes do petróleo no mercado cambial, uma medida destinada a reduzir a enorme diferença entre o dólar oficial e o paralelo, que tanto alimenta a inflação.
Esta reviravolta é complementada por um pacote de reformas legais e uma mudança de tom em relação ao setor privado. Foram apresentados projetos de lei como a Lei dos Direitos Socioeconómicos — para controlo de preços — e a Lei de Aceleração de Trâmites — contra a burocracia —, enquanto se fundem ministérios em busca de eficiência.
Talvez um dos gestos mais simbólicos tenha sido a convocação de Rodríguez ao Conselho Nacional de Economia Produtiva, um espaço de diálogo com empresários que estava fraturado há anos, sinalizando uma abertura tácita para reativar a produção nacional.
Em essência, a narrativa do governo de Delcy Rodríguez é um exercício de equilíbrio: mantém uma retórica de firmeza soberana em relação a Washington, mas, na prática, executa um manual de emergência económica que depende crucialmente do capital e da aprovação do mesmo "império" que denuncia, mas sem ideologia e até mesmo renunciando a princípios históricos.
Prova disso é a recente "sugestão" do filho de Nicolás Maduro de restabelecer relações diplomáticas com o Estado de Israel. Embora não seja um anúncio oficial, o seu valor é simbólico e de sondagem: serve para medir as reações internas do chavismo e enviar um sinal forte a Washington e a Israel sobre a disposição para a mudança.
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