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A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
1.
A decisão da Universidade Sorbonne, instituição cuja trajetória longeva se amalgama à própria gênese do pensamento ocidental, de interromper o fornecimento de dados ao sistema World University constitui um ato de ruptura contra a lógica da reificação acadêmica. Não se vislumbra ali um capricho administrativo, mas a insurgência diante de um modelo que reduz a densidade da atividade intelectual a categorias quantitativas desprovidas de substância humana e histórica.
O que emerge é o esgotamento de um método que intenta aprisionar a universidade em tabelas globais, obliterando que o conhecimento possui raízes profundas na totalidade da vida social. Como pretender mensurar séculos de compromisso científico e ensino público sob o peso de um padrão abstrato, voltado unicamente à valorização de indicadores estranhos à ontologia do ser social?
Tal fratura adquire o caráter de denúncia ao desvelar a estrutura de captura do trabalho vivo. Por trás da frieza dos índices, reside a exploração da atividade intelectual levada ao paroxismo. Pesquisadores docentes e discentes não apenas exercem o ensino ou a investigação, mas são capturados por uma teia burocrática que exige o gerenciamento da própria produtividade.
Observa-se uma intensificação das tarefas que expropria o tempo de vida e converte corpos exaustos em combustível para alimentar o fetiche da excelência. O adoecimento e o esgotamento configuram-se como o valor de troca oculto nesse processo de avaliação, no qual a saúde do cientista é imolada perante a abstração da métrica.
A contradição atinge seu ápice quando essa estrutura de opressão é celebrada por aqueles que ela própria desumaniza. É recorrente o espetáculo de instituições e indivíduos que difundem, com entusiasmo, posições e universidades em rankings, como se a conquista de um lugar na hierarquia justificasse a penúria da existência cotidiana. Opera-se aqui uma forma de alienação na qual a consciência do sujeito é obscurecida pelo fetiche do reconhecimento simbólico.
O trabalhador do conhecimento, ao festejar tais números, comemora a eficácia dos meios que garantem sua própria subordinação. A competição institucional é apresentada como prestígio, ocultando que este nada mais representa do que a legitimação do desgaste humano em prol da acumulação de capital simbólico.
O movimento de recusa observado na Sorbonne reverbera em outras latitudes, evidenciando o declínio da legitimidade desses modelos de controle. Nos Estados Unidos, faculdades de direito centenárias romperam com classificações que desvalorizavam a função social das ciências humanas.
Na Ásia, instituições sul-coreanas reagiram à volatilidade de empresas como a Quacquarelli Symonds, cujas oscilações metodológicas revelam a fragilidade de critérios impostos como verdades inquestionáveis. Na Europa central, o boicote ao envio de dados reflete a percepção de que tais sistemas em nada contribuem para a efetiva missão acadêmica. O desconforto não é um fenômeno episódico; é o sintoma de uma estatistização forçada que tenta converter a universidade em uma sucursal do “Big Brother” acadêmico. Essa competitividade-vigiada institui uma numeralização da consciência, subjugando a produção intelectual a uma burocracia-algorítmica que aniquila a finalidade política do conhecimento.
2.
No Brasil, o cenário assume tons de uma dramaticidade corrosiva. Tornou-se trivial presenciar perfis oficiais celebrando o fato de uma universidade pública estatal superar outra de mesma natureza, como se o êxito residisse no aniquilamento simbólico do par. Questiona-se a racionalidade de uma lógica de rivalidade entre entes que deveriam constituir o alicerce de um projeto coletivo de nação.
Ao mimetizar códigos competitivos típicos do mercado financeiro, o ambiente acadêmico renuncia à cooperação para se lançar em uma corrida por visibilidade numérica. Essa prática ignora as desigualdades históricas, tratando instituições com realidades distintas como se estivessem em uma pista de competição corporativa.
Os rankings internacionais atuam como reguladores das consciências e das práticas pedagógicas, impondo uma temporalidade que nega a maturação do pensamento. A investigação científica é expropriada do tempo do kairós, voltado à elaboração teórica profunda e à escuta das necessidades sociais, para se submeter ao império do kronos, marcado pela aceleração linear e pela contabilidade fria.
Projetos são arquitetados sob a receita da fragmentação e da entrega imediata, enquanto investigações que exigem demora e rigor são relegadas ao abandono. Por que o sistema premia o cientista que converte sua atividade em índice? Como aceitar que a densidade intelectual morra em nome da mera exibição de rendimento? Seria essa a vitória final do “Big Brother acadêmico” sobre a nossa própria consciência?
Essa análise não descarta a necessidade de diagnósticos sobre o ensino superior, desde que estes funcionem como instrumentos de identificação de assimetrias estruturais a serviço de políticas públicas de fortalecimento. A patologia se instala quando a classificação passa a ditar o financiamento e a sobrevivência, constrangendo a universidade a se adequar a um modelo de excelência que atende apenas aos interesses da hegemonia global.
Instituições com trajetórias singulares são forçadas a abrir mão de suas identidades para que possam ser contempladas no figurino estreito da padronização mercadológica, perdendo sua capacidade de resposta às contradições da realidade nacional.
A decisão da Sorbonne de romper com este circuito deve ser apreendida como um ato de resistência contra a mercantilização do conhecimento. Ao questionar as regras estabelecidas, a instituição recoloca no centro do debate a função social da universidade. Marx nos lembraria que a produção intelectual assume a forma de mercadoria, na qual o valor de uso da ciência é eclipsado pelo seu valor de troca simbólico.
Marx veria esses critérios de classificação como o fetiche da mercadoria em sua expressão máxima: o conhecimento deixa de servir à emancipação humana para ser um objeto quantificável. Como o pensamento pode sobreviver quando a métrica dita o que é real? Por que aceitamos que algoritmos de instituições-rankings funcionem como o capital variável que extrai a mais-valia do nosso intelecto? Essa tomada de posição demonstra que a comparação seriada desidrata a relevância histórica da produção do conhecimento. É a revolta contra a alienação de um sistema que nos obriga a produzir apenas para alimentar o apetite de um mercado de prestígio vazio.
O risco reside na fabricação (formação) de um cientista funcional à cadência da produtividade incessante. Pesquisas distantes dos interesses de conglomerados editoriais perdem tempo e legitimidade, pois o trabalho intelectual mira abstrações numéricas em vez de problemas sociais.
Ao romper com esse ciclo, a universidade francesa nos faz questionar: a quem serve esse conhecimento? Nossos pares refutam a hostilidade científica que reduz o semelhante a adversário por resíduos de prestígio. Ou será que, obcecados por selos estrangeiros, aceitamos o fetiche do ranking como substância da vida acadêmica? Marx veria o triunfo da mercadoria: o conhecimento não respira como práxis, mas jaz como mercadoria inerte. Qual o resultado dessa corrida senão o eclipse da soberania intelectual e o silêncio da negatividade crítica? Como cultivar a dúvida se cada ideia é vendida antes de ser dita? Resta o peso de uma consciência reduzida a números.
*Everton Fargoni é doutor em educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
"A leitura ilumina o espírito".
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