
Neste artigo, o autor analisa o papel dos dados econômicos nas próximas eleições brasileiras, nas quais serão renovadas a Presidência da República, a Câmara dos Deputados e 2/3 das cadeiras do Senado.
As eleições agendadas para este ano têm todas as perspectivas de se tornarem as mais decisivas e definidoras entre todas as realizadas desde o fim da ditadura militar-empresarial que usurpou o controle do aparelho estatal do nosso país por cerca de 21 anos.
Desta vez, as forças que representam o campo popular-democrático-nacional competirão com os setores oligárquico-imperialistas não apenas pela Presidência da República, mas também pela composição de outro dos poderes políticos essenciais da nação. Além da eleição completa de novos membros da Câmara dos Deputados, dois terços das cadeiras do Senado também precisam ser renovadas.
Contudo, embora seja de suma importância garantir que o Poder Executivo permaneça nas mãos daqueles que se identificam com as aspirações e os interesses da maioria do nosso povo, é igualmente importante impedir que o Poder Legislativo se torne um bastião desestabilizador a serviço de forças pró-imperialistas e antipopulares. Portanto, nossos esforços devem se concentrar em alcançar o sucesso em ambos os aspectos da disputa eleitoral.
Agora, a grande incógnita que devemos desvendar é como confrontar e derrotar a extrema-direita e todos os seus aliados no grande capital, nas condições atuais, em que os principais conglomerados de mídia digital estão completamente associados e interligados a eles. É inegável que, ao deter o controle quase total das redes sociais e seus algoritmos, essa extrema-direita goza de uma enorme vantagem operacional ao travar batalhas ideológicas contra nós, que defendemos as aspirações das massas.
Contudo, embora estejamos plenamente conscientes da nossa significativa desvantagem em termos de recursos técnicos, isso jamais poderá servir de desculpa para justificar a nossa paralisia, o nosso desânimo e a nossa rendição ao derrotismo. Pelo contrário, devemos encarar essa situação como um desafio para redobrar os nossos esforços e o nosso empenho na busca de caminhos e meios que nos conduzam a um país mais justo, equitativo e soberano. Neste texto, tentarei delinear algumas ideias sobre como avançar nesse caminho nestes tempos de grande dificuldade.
Um dos temas mais controversos na política diz respeito ao peso dos fatores econômicos na determinação do rumo das lutas sociais. Alguns acreditam que a economia sempre desempenha um papel decisivo. Por outro lado, há quem diga que, muito mais do que motivações econômicas, os seres humanos são movidos por valores que lhes permitem obter reconhecimento pessoal — ou seja, aqueles que ajudam a dar sentido à sua existência.
Consequentemente, para aqueles que aderem estritamente e literalmente à primeira categoria, quando um governo garante uma elevação no padrão de vida material e econômico para toda a sua população, isso resultará, sem dúvida, em sua aprovação pela maioria. Os defensores da segunda visão, por outro lado, sustentam que, independentemente dos benefícios socioeconômicos específicos, a população pode rejeitar um governo se este não agir conforme o esperado em outras áreas, como religião, moralidade, sexualidade, família e assim por diante.
Diante desse dilema, cabe a nós revelar o que é verdadeiro e o que é falso em cada uma dessas abordagens. Bem, eu gostaria de adiantar e dizer que acredito que os fatores primordiais, os mais decisivos, aqueles que ditam o tom dos principais conflitos em todas as sociedades compostas por classes com interesses conflitantes, são sempre de natureza econômica.
Agora, considerando que o progresso socioeconômico dos setores populares sob o atual governo Lula é muito mais significativo do que as adversidades e perdas que caracterizaram o governo Bolsonaro anterior, isso significa que podemos presumir que o atual presidente será inevitavelmente reeleito na próxima eleição? Claro que não há uma resposta afirmativa simples para essa pergunta, embora o princípio da predominância dos fatores econômicos permaneça plenamente válido. Nos parágrafos seguintes, tentaremos esclarecer essa aparente contradição.
De fato, considerando a prevalência de fatores socioeconômicos, é difícil explicar por que, nas eleições presidenciais de 2018, muitas pessoas humildes deixaram de lado reivindicações relacionadas à melhoria de seu padrão de vida e de suas famílias (por exemplo, melhores salários, melhor transporte público, hospitais e escolas de melhor qualidade, etc.) para se concentrarem em questões morais (como protestar contra um certo kit-gay), o que não aliviaria em nada a situação de privação em que se encontravam.
Poderíamos também investigar as motivações que, durante a presidência de Dilma Rousseff, levaram tantas pessoas da classe média a sair às ruas em protestos furiosos contra a corrupção e, impulsionadas por essa raiva, a apoiar as propostas de privatização da Petrobras, a concordar em entregar nossos recursos petrolíferos a grupos estrangeiros, a aceitar o desmantelamento de nossas principais empresas de engenharia e, em suma, a permitir que os alicerces econômicos de nosso país fossem destruídos. Por que não pararam para refletir e perceber que, no fim das contas, isso resultaria em uma grave deterioração de suas próprias condições de vida?
De fato, embora seja evidente que tanto os pobres no primeiro caso citado quanto a classe média no segundo agiram sem levar em consideração seus verdadeiros interesses socioeconômicos, as razões subjacentes que os levaram a se comportar dessa maneira estão inteiramente ligadas a fatores econômicos. Contudo, esses fatores não se originam diretamente nem dos pobres nem da classe média, mas sim das classes dominantes às quais ambos os grupos estão sujeitos.
Isso ocorre porque, em sociedades regidas pelo antagonismo de classes, os valores ideológicos dominantes são os das classes dominantes. Essas classes possuem os meios e a capacidade de manipular parcelas significativas dos setores menos favorecidos, desviando-os das lutas por demandas materialmente relacionadas às suas necessidades reais e induzindo-os a descarregar sua frustração e raiva contra alvos que não afetam os interesses dos mais ricos.
Essa distorção da lógica só ocorre porque as classes dominantes usam todas as ferramentas à sua disposição para induzir muitos trabalhadores a se distanciarem de questões que ameaçam os interesses econômicos dos privilegiados. Sem essa intervenção manipuladora, essas pessoas pobres tenderiam a priorizar a luta por salários mais dignos, um custo de vida mais baixo, melhores moradias e assim por diante, em vez de se preocuparem com questões como o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a existência de banheiros unissex. Assim, ao adotarem essas posições, acabam fortalecendo e preservando os interesses econômicos de banqueiros, magnatas do agronegócio e grandes capitalistas em geral.
Da mesma forma, a religião é outra ferramenta usada no processo de manipulação com o objetivo de excluir do debate público as agendas socioeconômicas que contradizem os interesses das classes dominantes. Não é surpresa que as chamadas igrejas neopentecostais estejam entre as mais veementes opositoras ao programa de auxílio-família e a quase todos os programas estatais destinados a proteger os mais vulneráveis. Portanto, embora se oponham firmemente à tributação de grandes fortunas, buscam impedir que recursos públicos sejam usados para ajudar os necessitados. Seu objetivo é garantir que haja dinheiro disponível para pagar lucros e dividendos àqueles que lucram com aluguéis. Mais uma vez, os interesses econômicos dos ricos estão por trás de algo que, aparentemente, é de natureza diferente.
Portanto, todas as grandes transformações sociais estão ligadas a questões atreladas a interesses econômicos. Em última análise, mesmo que seja possível reconhecer que a busca por reconhecimento social seja um fator desejável para as pessoas, também não deve haver dúvidas de que o principal meio de alcançar esse reconhecimento é, sempre foi e continuará sendo, o poder econômico. Fazer com que nosso povo entenda isso é o grande desafio que enfrentamos.
Precisamos desmantelar as falácias que agentes da extrema-direita disseminam para angariar seguidores entre a classe trabalhadora. Para essa campanha de desinformação, eles contam com o apoio de grandes plataformas de mídia digital, todas pertencentes a financiadores do extremismo de direita em todo o mundo. Aqui no Brasil, esse trabalho está intrinsecamente ligado à extensa rede de igrejas neopentecostais. Essas igrejas são responsáveis por instilar grande parte da distorção originada e disseminada por meio de redes digitais entre os segmentos mais pobres da população.
Nossa tarefa é fazer com que as pessoas entendam o papel desempenhado por essas estruturas que servem aos poderosos locais e ao imperialismo, e revelar os verdadeiros interesses ocultos por trás das falácias propagadas. É um trabalho árduo, sem dúvida, pois dispomos de muito menos recursos do que os grandes capitalistas e seus representantes de extrema-direita. Teremos que aproveitar ao máximo cada brecha nas redes sociais digitais, mas ainda mais importante é o nosso contato direto com as pessoas que pretendemos servir. Portanto, devemos e precisamos aprimorar nossa presença online, mas é essencial estabelecer uma forte presença junto às comunidades locais.
Sabemos que, nas próximas eleições, os grandes conglomerados de mídia colocarão todos os seus algoritmos a serviço das hordas nazistas apoiadoras de Bolsonaro. Para confrontar e derrotar essa máquina avassaladora de distorções e mentiras, é crucial que comecemos agora mesmo a encontrar maneiras de desmascarar a avalanche de manipulação que está prestes a começar. Saber como revelar e expor os inúmeros interesses econômicos das classes dominantes que se camuflam em meio a todos esses truques é o elemento fundamental para alcançarmos a vitória.
Traduzido do português para Rebelião pelo próprio autor. Foi originalmente publicado em:
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