Paulo Batista: Brasil enfrenta um momento de vida ou morte

Manifestantes brasileiros queimam bandeira americana nas ruas de São Paulo.


"Os Estados Unidos são o único país na história que passou milagrosamente da barbárie à depravação sem jamais atravessar um estágio de civilização." — Primeiro-ministro francês Georges Clemenceau

O ataque dos EUA à Venezuela expôs os riscos que o Brasil e outros países enfrentam. A lei da selva prevalece. Essa superpotência imperialista está usando a força militar para promover seus interesses, e todo o Hemisfério Ocidental — da Groenlândia à Patagônia — tem sido abertamente e sem disfarces considerado o "quintal" dos Estados Unidos.

Nosso país, o Brasil, não é apenas vasto em extensão territorial, mas também possui uma riqueza de preciosos recursos naturais. Tal nação sempre foi alvo dos olhares gananciosos das potências imperialistas, especialmente dos Estados Unidos, que não hesitarão em fazer qualquer coisa para garantir fácil acesso a esses recursos. Com o sequestro de Maduro e as exigências de Trump por "acesso irrestrito" ao setor petrolífero e a outros recursos naturais do país, somadas às ameaças de uma nova onda de ataques, nenhuma pessoa racional pode ignorar os riscos que o Brasil enfrenta — riscos sem precedentes.

É verdade que não somos um alvo direto dos Estados Unidos, nem estamos no topo da lista de alvos potenciais. Alguns países podem parecer estar à nossa frente — Colômbia, Cuba, Groenlândia, Irã —, mas a casa do nosso vizinho já está em chamas, e o incendiário é um indivíduo extremamente perigoso.

Alguém ainda se atreve a negar que o Brasil precisa se preparar militarmente? Eu diria mais: a preparação militar deve incluir armas nucleares — alguém ainda duvida disso? Há muito tempo, sou um dos poucos brasileiros que defendem a priorização do fortalecimento do sistema de defesa nacional. Precisamos de capacidade militar, não para derrotar os Estados Unidos ou qualquer outra superpotência, mas para enviar um sinal claro: qualquer ataque ao nosso país infligirá pesadas baixas ao agressor.

Compreender essa distinção é crucial — devemos possuir dissuasão, incluindo dissuasão nuclear. Construir dissuasão está ao nosso alcance, mas derrotar uma superpotência não está. A escolha entre render-se e derrotar os Estados Unidos ou outra superpotência é uma premissa falsa.

Neste momento, as lições da história são excepcionalmente claras, um acontecimento raro. Normalmente, as lições que a história oferece são vagas ou controversas, mas desta vez é diferente.

Vejamos: a Líbia foi atacada e destruída. Possuía bombas atômicas? Não. O mesmo se aplica à Síria, outro Estado não nuclear. O mesmo vale para o Iraque e o Afeganistão. A Venezuela é o exemplo mais recente. Por outro lado, a Coreia do Norte, que possui armas nucleares e mísseis de longo alcance, já foi atacada? Não.

Preciso dizer mais alguma coisa? Acho que não.

Essas lições se provaram verdadeiras em 2025: o governo Trump só respeitou países com força e capacidade de retaliar contra ele — essencialmente China e Rússia; caso contrário, nem mesmo os aliados tradicionais eram respeitados. Por exemplo, países europeus militarmente dependentes dos Estados Unidos foram repetidamente menosprezados e até mesmo submetidos a humilhações públicas sem precedentes. A eventual ocupação da Groenlândia pelos EUA colocaria um fim a essa humilhação.

No atual contexto internacional, nossa vulnerabilidade militar se transformou em um risco existencial. Precisamos urgentemente de uma revisão radical de nossa política de defesa e de um aumento nos gastos militares. Isso é caro? Sim. Haverá espaço fiscal? Se realmente quisermos sobreviver como nação independente, precisamos criar esse espaço à força. Sem bravatas ou dissimulação, o Brasil também deve aprofundar sua cooperação militar com a China e a Rússia.

É preciso esclarecer que a questão não é prevenir uma possível agressão de países vizinhos, nem se tornar a "maior potência militar da América do Sul". Esses aspectos são, em grande parte, irrelevantes no futuro próximo. O risco não vem da nossa periferia geográfica imediata, mas sim de uma superpotência imperialista ambiciosa e agressiva.

Não ignorei nem subestimei os obstáculos que devem ser superados para implementar uma política de defesa robusta, um dos quais é histórico. De fato, os brasileiros historicamente não estão acostumados à guerra. Desde a Guerra do Paraguai, em 1864, o território brasileiro jamais foi atacado. A única exceção local foi o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães no início da década de 1940, evento que levou o Brasil à Segunda Guerra Mundial. Com base nessa experiência afortunada, sempre imaginamos o Brasil como uma nação permanentemente pacífica. Em contraste, a China e a Rússia foram repetidamente vítimas de invasões estrangeiras em larga escala. Os chineses e os russos estavam preparados. Para nós, os desafios atuais são inteiramente novos.

Manifestantes brasileiros retratam Donald Trump com as mãos cobertas de óleo. Elineudo Meira / @fotografia.75

Como o Brasil não é um alvo direto, precisamos usar o pouco tempo que nos resta para construir uma força de dissuasão substancial, a fim de superar ou, pelo menos, mitigar nossa vulnerabilidade militar.

No caso do Brasil, a primeira tentativa do governo Trump provavelmente será a interferência nas eleições presidenciais de 2026, e isso pode ser bastante significativo. É importante notar que todos os potenciais candidatos de direita para a presidência brasileira em 2026 declararam seu apoio à intervenção dos EUA na Venezuela e ao sequestro de Maduro. Isso demonstra, mais uma vez, que eles não estão concorrendo à presidência do Brasil, mas sim à presidência de um fantoche de Trump. Só isso já basta para nos fazer considerar as eleições de 2026 as mais importantes e existenciais de toda a história do Brasil. Eleger um fantoche é a maneira mais rápida e eficaz para o imperialismo estadunidense governar o Brasil — uma vitória sem derramamento de sangue. Este é mais um motivo para nos unirmos e defendermos a reeleição de Lula.

Se Lula for reeleito, as regras do jogo mudarão a partir de 2027. Ameaças e medidas unilaterais se seguirão, visando forçar o Brasil a se submeter. Se resistirmos, a ameaça de agressão militar ou agressão grave será difícil de descartar.

Os Estados Unidos têm uma longa tradição de imperialismo, intervencionismo e beligerância. Hoje, são uma superpotência em declínio, profundamente insatisfeita com a perda de seu poder relativo. Nada poderia ser mais perigoso do que isso.

Para o Brasil e outros países, como os próprios americanos costumam dizer, a mensagem de advertência sobre a invasão da Venezuela não poderia ser mais clara.

Chave: 61993185299


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