
Crédito da foto: The Cradle
O Líbano tornou-se o palco improvável para uma lenta guinada da Arábia Saudita em direção ao pragmatismo, à medida que as divergências regionais com aliados e inimigos obrigam Riade a recalcular suas linhas intransigentes.
O Líbano, mais uma vez, reflete as fraturas que atravessam o mundo árabe. Mas desta vez, o cenário é instável. A era dos bloqueios e do isolamento está cedendo lugar a uma política mais fria e calculada – e em seu âmago reside um diálogo improvável: entre o Hezbollah e o Reino da Arábia Saudita.
Como observou o The Cradle no mês passado em "A tensa distensão entre o Hezbollah e a Arábia Saudita", a comunicação nos bastidores entre os dois lados preparou o terreno para um degelo discreto. Os acontecimentos recentes aceleraram essa mudança, obrigando o reino a reavaliar tanto as ameaças quanto as alianças. Os sinais já não se limitam a canais informais.
Elas estão se tornando visíveis nas frentes política, econômica e midiática do Líbano. Isso sugere que a reaproximação não é mais uma discussão teórica, mas um processo em andamento que está remodelando o cenário libanês e regional.
Tremores econômicos, sinais políticos
O reposicionamento da Arábia Saudita em relação ao Líbano e ao Hezbollah tem se concretizado em múltiplas frentes. As pressões econômicas estão diminuindo, o discurso político está se suavizando e a discussão sobre o desarmamento do movimento de resistência está se adaptando às novas realidades. Essas mudanças acompanham as negociações entre a Arábia Saudita e o Hezbollah e refletem fatores mais amplos, como as demandas internas no Líbano, os urgentes recalcular as relações regionais e a estratégia de aproximação calculada do Hezbollah.
Fontes informaram ao The Cradle que as negociações já produziram resultados, com Riade abandonando o bloqueio econômico anterior. Essa mudança está se tornando palpável em todo o Líbano.
A frente econômica oferece a evidência mais clara. Durante uma visita a Beirute do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, acompanhado por uma equipe econômica de alto escalão, o presidente libanês, Josef Aoun, sinalizou a disposição de estreitar os laços entre Beirute e Teerã. No Líbano, tais iniciativas geralmente exigem a aprovação de Riad ou Washington.
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, conhecido por seus laços com a Arábia Saudita, anunciou o início da reconstrução do sul do Líbano em duas semanas, com planos para acelerar os esforços de reconstrução. Isso ocorre após a aprovação parlamentar de um empréstimo do Banco Mundial – uma indicação da intenção de aproveitar o impulso regional. Salam também mencionou futuros acordos com Riad.
Simultaneamente, o processo há muito inativo dos depositantes libaneses foi reativado no gabinete por meio de uma proposta de lei de reorganização financeira e recuperação de depósitos. Essa legislação estabelece as bases para sanar o déficit financeiro e reembolsar gradualmente os depósitos.
A reabertura deste processo, após anos de estagnação, reflete não apenas a pressão interna, mas também um novo ambiente político e financeiro moldado pela diminuição da pressão externa e pelo recuo da política de sufocamento econômico anteriormente imposta ao Líbano.
Mudanças de tom em Beirute
A retórica política e midiática no Líbano também está se ajustando, particularmente entre as facções com inclinações sauditas. As Forças Libanesas (FL) oferecem um exemplo notável. O tom do Ministro das Relações Exteriores do Líbano, Youssef Raji, durante a visita de Araghchi, foi consideravelmente mais moderado em comparação com delegações iranianas anteriores. Embora sua posição geral ainda possa refletir linhas internas do partido, é importante observar que as FL não são totalmente alinhadas à Arábia Saudita e têm pontos de convergência com a política externa de Washington.
Igualmente notável é a quase ausência das usuais campanhas midiáticas ligadas à Arábia Saudita. Veículos de comunicação e figuras normalmente expressivas durante essas visitas permaneceram em silêncio. Esse silêncio reflete um reposicionamento mais amplo.
Fontes da mídia também afirmam que o embaixador saudita no Líbano, Waleed Bukhari, transmitiu em privado o interesse de Riad em dialogar com os líderes xiitas libaneses, indo além da imagem de um boicote sectário.
O dossiê sobre armas: uma mudança de vocabulário
Uma recalibração também é visível no discurso oficial em torno do armamento do Hezbollah. Enquanto a retórica anterior se concentrava no “desarmamento” ou no controle exclusivo ao sul do rio Litani, uma nova expressão surgiu: armas. "contenção” de armas ao norte do Litani. Essa mudança lexical reflete uma abordagem mais moderada e estratégica.
Por um lado, indica uma coordenação mais estreita – tanto interna quanto com as partes interessadas externas – e um afastamento das exigências maximalistas. Por outro, alinha-se a uma postura política mais ampla de Riade para reduzir o atrito e evitar a escalada do conflito.
Durante uma visita recente a Beirute, o enviado saudita Yazid bin Farhan disse a autoridades libanesas que, embora Riade apoie a presença de armas sob autoridade estatal, o processo deve prosseguir com racionalidade e evitar perturbações internas. Essa declaração foi amplamente interpretada como uma mensagem direcionada ao Hezbollah.
Sua declaração de que a Arábia Saudita “não tem problema algum… com nenhum dos componentes libaneses” refletia a forma como o Hezbollah enquadrava um diálogo sobre defesa nacional. Mais especificamente, seu apelo à calma no processo ecoava a insistência do grupo de que a mudança deve vir por meio do consenso, e não da coerção.
Cautela em relação à guerra, novos sinais parlamentares
Outro sinal claro da recalibração saudita é sua crescente resistência à escalada militar no Líbano. Antes expressa de forma indireta, essa posição agora vem à tona tanto em reuniões privadas quanto em declarações públicas de figuras alinhadas à Arábia Saudita.
Reportagens do Canal 12 de Israel, citando membros não identificados da família real saudita, apontaram para a recusa de Riad em aceitar qualquer operação militar contra o Líbano. Essas linhas vermelhas reforçam a mensagem do Hezbollah e complicam a estratégia de ameaças de Tel Aviv.
Essa mudança também ficou evidente na sessão parlamentar de 18 de janeiro, onde disputas por quórum colocaram o Hezbollah e o Movimento Amal – conhecido no Líbano como a Dupla Xiita – contra as Forças Libanesas. Samir Geagea, líder de longa data das Forças Libanesas e defensor declarado do desarmamento do Hezbollah, teria instado o enviado saudita a desencorajar a presença de parlamentares sunitas. A tentativa fracassou. Parlamentares sunitas alinhados a Riad compareceram mesmo assim.
Nesse contexto, Ghaleb Abu Zainab, membro do Conselho Político do Hezbollah, declara ao The Cradle :
“Em princípio, queremos que nossas relações com os estados árabes sejam positivas – construídas sobre o respeito mútuo e interesses compartilhados no Líbano e no mundo árabe. Isso inclui, naturalmente, o Reino da Arábia Saudita, que possui um peso árabe e islâmico significativo na região.”
A situação de Riade no Golfo Pérsico está mudando.
A questão do Hezbollah faz parte de uma reestruturação mais ampla da Arábia Saudita, impulsionada por novas pressões regionais. Iêmen, Sudão, Mar Vermelho e Líbano são áreas onde Riad agora observa crescentes atritos com seu antigo aliado do Golfo, os Emirados Árabes Unidos.
No Iêmen, a Arábia Saudita permanece apreensiva. Embora tenha buscado conter as ações dos Emirados Árabes Unidos no sul, as movimentações de Abu Dhabi – incluindo uma retirada controlada de certas zonas – geraram preocupação. As declarações de Aidarus al-Zubaidi, líder foragido do agora dissolvido Conselho de Transição do Sul (STC), feitas em Abu Dhabi sobre a busca pela independência do sul, juntamente com a tentativa de assassinato do comandante da Brigada Gigantes, Hamdi Shukri al-Subaihi, e os subsequentes protestos, soaram o alarme em Riad.
No Sudão, a Arábia Saudita apoia o governo oficial em Cartum, preparando-se para um possível confronto com as Forças de Apoio Rápido (RSF), apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos. Riade facilitou um acordo de US$ 1,5 bilhão com o Paquistão para o fornecimento de armas, sistemas de defesa aérea e drones ao exército sudanês, sinalizando sua intenção de conter a expansão dos Emirados – parte de uma reestruturação regional mais ampla, descrita como uma resposta à crescente aproximação de Abu Dhabi com Tel Aviv.
Entretanto, o reconhecimento da Somalilândia por Israel e os relatos de uma possível presença militar na região acrescentaram mais uma camada de ansiedade – uma nova presença israelense perto do Mar Vermelho.
Confrontando as ambições dos Emirados Árabes Unidos
O Líbano não é exceção. Autoridades sauditas agora suspeitam que Abu Dhabi esteja manobrando para obter influência em Beirute. As Forças Libanesas, com seu alinhamento ao eixo Emirados Árabes Unidos-Israel, fazem parte dessa preocupação. O escândalo envolvendo “Abu Omar” – um homem que se fazia passar por um príncipe saudita e que supostamente comandava operações políticas libanesas – reforçou as preocupações de que os Emirados Árabes Unidos tenham preenchido o vácuo deixado pela Arábia Saudita durante a ausência de Riad.
Fontes indicam que o Catar também intensificou sua presença no Líbano, financiando figuras como as do Movimento Patriótico Livre. Seja em coordenação com Riad ou não, isso contribui para uma acirrada rivalidade entre os países do Golfo que se desenrola em Beirute.
Em resposta, Riade está reavaliando seus aliados libaneses. O caso “Abu Omar” teria levado o reino a questionar a seriedade de alguns de seus antigos clientes – muitos dos quais não cumpriram suas promessas, seja politicamente ou em termos de segurança. Essa constatação tornou Riade mais cautelosa e menos propensa a repetir erros do passado.
O reino agora se apoia no Ain al-Tineh, do presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, como um canal para o Hezbollah – uma via mais direta e realista. O Hezbollah continua sendo a força decisiva no Líbano, e Riad parece agora disposta a operar dentro dessa realidade.
Até mesmo o futuro do ex-primeiro-ministro libanês Saad Hariri está sendo reavaliado. Uma fonte política destaca que um retorno pelo canal dos Emirados Árabes Unidos levaria a profundas divisões, especialmente dentro da própria família Hariri, já que o projeto emiradense não se alinha com sua personalidade ou legado político. Uma das principais razões para seu afastamento da vida pública foi sua recusa, na época, em acatar o apelo saudita por uma guerra civil – uma exigência que refletia a abordagem dos Emirados. Portanto, a opção saudita permanece o caminho mais realista para Hariri, capaz de reintegrá-lo à cena política e garantir a unidade da comunidade sunita sob a égide de Riad, em vez de fragmentá-la por meio de projetos externos.
Esses acontecimentos representam uma revelação mais ampla da rivalidade latente entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Riade está agora agindo rapidamente para neutralizar disputas administráveis e concentrar-se no que considera, cada vez mais, seu principal desafio: Abu Dhabi.
Em suma, fica claro que a reaproximação entre a Arábia Saudita e o Hezbollah não é um desenvolvimento repentino, mas sim o produto de crescentes pressões regionais e restrições internas que transformaram o pragmatismo não em uma escolha, mas em uma necessidade.
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