Sudão em disputa: guerra, corredores estratégicos e a nova cartografia do Mar Vermelho.

Fontes: Jornalismo internacional alternativo [Foto: EMOL]


O Sudão está sofrendo as consequências de uma guerra prolongada e tornou-se um ator central na disputa por corredores estratégicos no Mar Vermelho e no Golfo de Aden. A fragmentação do Estado, o controle dos portos, as rivalidades no Golfo e as projeções externas estão moldando uma nova ordem regional.

Neste contexto, o Sudão não está simplesmente vivenciando uma guerra civil — já analisamos isso em diversos artigos publicados em nosso site — nem se trata meramente de uma questão de quem ficará com o que resta do Estado sudanês. Este conflito está sendo remodelado. O que  começou em abril de 2023 como um confronto aberto entre dois grupos armados disputando o controle do Estado  evoluiu para um processo muito mais profundo e duradouro. Podemos, portanto, afirmar que o conflito não se explica mais unicamente por uma disputa entre generais e está inserido em uma lógica mais ampla, onde território, rotas e portos têm tanto peso — ou até mais — do que a legitimidade política.

À medida que o Estado sudanês se fragmenta, seu valor geopolítico não diminui; pelo contrário, multiplica-se. O Sudão ocupa uma posição estratégica no Mar Vermelho, uma das artérias marítimas mais vitais do planeta e um elo fundamental entre a África, o Oriente Médio e o Oceano Índico. Essa localização torna o país um prêmio cobiçado em um momento em que as rivalidades no Golfo se tornam explícitas, o Chifre da África se militariza e o controle dos corredores marítimos adquire centralidade global. Longe de isolar o Sudão, a guerra o lançou diretamente nessa disputa geoestratégica e profundamente política.

Esta análise, sem pretender ser definitiva, convida o leitor a ver o conflito sudanês não como um episódio periférico ou uma tragédia desconectada do resto do mundo, mas como parte de uma reconfiguração regional mais ampla. Aqui podemos observar como a economia de guerra, consolidando-se internamente, projeta interesses externos sobre o Mar Vermelho e o Golfo de Aden, abrangendo o Iêmen, a Somalilândia e a Somália. O Sudão emerge como uma fronteira avançada da ordem que está sendo construída — uma ordem onde a fragmentação do Estado, a soberania fragmentada e a administração da violência deixam de ser anomalias e se tornam o método.

A guerra como regime: quando o Estado se fragmenta e a soberania se torna negociável.

Se há algo que define a fase atual do conflito sudanês, é que a guerra deixou de ser um episódio excepcional e se tornou uma forma estável de organização do poder. O ponto de ruptura foi 15 de abril de 2023, quando eclodiram confrontos abertos entre o Exército Sudanês, comandado por Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido, lideradas por Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti. O que começou como uma disputa pelo controle do Estado rapidamente se transformou em algo mais profundo: uma guerra que cria suas próprias instituições, sua própria economia e sua própria lógica de legitimação armada.

Com o passar dos meses, a luta deixou de ser pelo controle estatal e passou a ser uma questão central: quem controlaria as cobiçadas redes econômicas que permitem às pessoas viver, comercializar, se locomover e extrair riqueza em um país cortado por rotas estratégicas. Nesse processo, a soberania deixou de ser indivisível e começou a se fragmentar em microssoberanias armadas. Cada território controlado implica autoridade parcial: a capacidade de cobrar taxas, regulamentar, autorizar ou bloquear o trânsito.

Essa tendência se acelerou quando o centro político e administrativo se deslocou para o litoral. Com Cartum transformada em campo de batalha, o comando do exército e sua estrutura estatal associada realocaram suas operações para Porto Sudão, que se tornou a capital da guerra: o centro administrativo, diplomático e logístico, enquanto o interior do país sofria com o deslocamento massivo de pessoas e mergulhava em uma fome colossal. Essa mudança não foi circunstancial; marcou uma reorientação do Estado em direção ao litoral, deixando vastas regiões do interior sob controle militar descentralizado.

Em paralelo, a guerra remodelou as alianças internas. O conflito deixou de se limitar ao confronto entre o Exército e as Forças de Apoio Rápido (RSF), passando a incorporar múltiplas forças locais absorvidas ou subcontratadas pelos principais lados, mercenários e sudaneses famintos contratados para matar e morrer por um salário pago em ouro manchado com sangue sudanês. Facções armadas de Darfur, antigos movimentos rebeldes parcialmente integrados ao aparato estatal após acordos de paz anteriores, aliaram-se ao Exército com base em interesses territoriais e na sobrevivência política. Essa recomposição demonstra como a guerra redefine hierarquias: atores historicamente periféricos tornam-se centrais para o equilíbrio militar e, por extensão, para o futuro do país.

O salto qualitativo mais revelador desta etapa é a transformação de atores armados em atores econômicos. A captura do enclave petrolífero de Heglig pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) no final de 2025 não deve ser interpretada meramente como uma vitória tática. Heglig é um centro estratégico que se conecta diretamente aos fluxos de energia do Sudão do Sul e ao oleoduto que deságua no Mar Vermelho. Controlá-lo significa pressionar governos vizinhos (o Sudão do Sul depende quase exclusivamente desse petróleo para funcionar como país), condicionar exportações, negociar a segurança de infraestruturas críticas e, sobretudo, inserir-se em redes de negociação regionais. O petróleo deixa de ser apenas uma mercadoria e se torna uma alavanca política.

Além disso, Heglig faz parte de uma economia de guerra mais ampla, centrada em Darfur e Kordofan. Nessas regiões, ouro, gado, combustível, pedágios e passagens de fronteira formam uma rede que permite aos grupos armados se financiarem sem depender do orçamento do Estado. Dentro desse sistema, as Forças de Apoio Rápido (RSF) operam não apenas como uma força militar: administram o território, cobram impostos informais, regulam os mercados e garantem a “segurança” em troca de lealdade ou recursos.

A espinha dorsal financeira desse sistema tem um nome. Durante anos, a rede empresarial ligada à família Dagalo controlou circuitos-chave do comércio de ouro sudanês, especialmente após a apropriação de depósitos estratégicos em Darfur. Essa ligação entre armas, território e negócios explica por que a guerra persiste: porque é financiada. E é financiada porque a fragmentação do Estado gera receita.

O resultado é a consolidação de um regime de guerra. Um poder definido não apenas por vitórias militares, mas pela capacidade de estabilizar um sistema de coleta, circulação e dependência. Nesse ponto, a paz deixa de ser um horizonte natural e se torna um risco para aqueles que aprenderam a governar por meio do conflito. A guerra deixa de ser uma anomalia a ser resolvida e se torna um sistema.

O Mar Vermelho como prêmio: portos, rotas e a lógica do corredor.

Se a guerra no Sudão for entendida internamente como um regime ou sistema de controle, como temos discutido, externamente ela é explicada como um corredor, um ponto de trânsito de e para a África. O Sudão não é apenas um país em conflito: é um litoral estratégico inserido em uma das artérias marítimas mais vitais do planeta. O Mar Vermelho conecta o Mediterrâneo ao Oceano Índico e canaliza uma parcela crucial do comércio global, incluindo hidrocarbonetos, grãos e bens essenciais. Nesse contexto, a estabilidade política interna importa menos do que a funcionalidade do litoral.

O poder contemporâneo, como demonstra este conflito, já não precisa de controlar estados inteiros. Basta assegurar centros estratégicos: portos operacionais, rotas comerciais ininterruptas e autoridades — estatais ou não — capazes de garantir a livre circulação. O Sudão, em guerra, oferece precisamente esse cenário.

O Porto Sudão é responsável pela maior parte das importações e exportações, além do fluxo de petróleo pelo oleoduto que transporta o petróleo bruto do Sudão do Sul. Interromper esse centro estratégico equivale a interromper a economia regional. Por isso, mesmo em meio à guerra, o porto foi tratado como infraestrutura "intocável" pela maioria dos atores externos. O país podia queimar; o porto precisava permanecer operacional.

Esse padrão reflete uma tendência mais ampla: a substituição do Estado territorial pela infraestrutura crítica. Em contextos de guerra prolongada, os portos se tornam enclaves excepcionais onde se aplicam regras diferentes. Eles não precisam de paz generalizada; precisam de segurança localizada. E essa segurança pode ser garantida por acordos parciais, forças locais ou arranjos informais.

O Mar Vermelho também é um espaço cada vez mais militarizado. Bases, missões navais e acordos de “segurança marítima” se sobrepõem ao longo de suas margens. Cada crise na região — Iêmen, Sudão, Somália — aumenta o valor de se ter pontos de apoio estáveis ​​no lado africano. Nesse contexto, o Sudão oferece algo particularmente atraente: um litoral estratégico e um Estado fragilizado, disposto ou forçado a aceitar acordos excepcionais.

É por isso que o Mar Vermelho é o prêmio. Não como um território geográfico, mas como uma infraestrutura de poder. E é por isso que a guerra no Sudão não é vista por muitos atores externos como um problema a ser resolvido, mas como uma variável a ser gerenciada. O conflito redefine quem garante a circulação, quem controla os nós e quem pode oferecer "estabilidade" sem um Estado.

Do Iêmen ao Chifre da África: a disputa sobre o Estreito de Bab el-Mandeb e a projeção do Golfo sobre o Sudão.

Portanto, a guerra no Sudão não pode ser compreendida sem ampliarmos nossa perspectiva para incluir a Península Arábica e o Golfo de Aden, visto que o Mar Vermelho deixou de ser uma linha divisória entre a África e o Oriente Médio e se tornou uma arena contínua de disputa estratégica. O Iêmen é o reflexo mais claro desse processo e, ao mesmo tempo, seu prelúdio. O que está sendo testado lá — fragmentação territorial, administração indireta, controle de portos e o uso de atores locais como intermediários — está agora sendo projetado com força na costa africana.

Durante anos, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos apresentaram sua intervenção no Iêmen como uma aliança sólida. No entanto, o desenrolar do conflito revelou interesses divergentes, especialmente no sul do Iêmen. Ali, o controle de portos, ilhas e rotas marítimas começou a se sobrepor à integridade territorial do país. No início de 2026, essa ruptura tornou-se explícita quando a Arábia Saudita acusou os Emirados Árabes Unidos de facilitar movimentações políticas e logísticas da liderança separatista no sul do Iêmen, em uma operação que incluiu paradas fora do território iemenita.

Este episódio não deve ser interpretado como uma mera anedota diplomática, mas sim como um sinal estrutural. Revela uma forma de exercício do poder que dispensa o controle estatal direto e se baseia em territórios de estatuto ambíguo, autoridades funcionais e plataformas logísticas externas a qualquer consenso regional. O Iémen funciona, assim, como um laboratório para um tipo de dominação que não exige ocupação formal, mas sim a administração de fragmentos úteis de território.

Nesse contexto, surge a Somalilândia, um território sem amplo reconhecimento internacional e sem o apoio da União Africana (além do reconhecimento da Etiópia em troca do arrendamento de terras costeiras), mas que possui uma localização estratégica privilegiada na entrada do Golfo de Aden. O reconhecimento formal da Somalilândia por Israel, em janeiro de 2026, introduz uma mudança significativa no equilíbrio regional. Não se trata de um mero gesto diplomático, mas de uma validação seletiva de um território fundamental para o controle do corredor marítimo que liga o Oceano Índico ao Mar Vermelho.

A reação da União Africana, rejeitando esse reconhecimento e exigindo sua revogação, revela a gravidade do precedente. Se a fragmentação territorial deixar de ser uma consequência indesejável do conflito e se tornar uma ferramenta geopolítica legitimada externamente, o risco para o continente será enorme. Isso abre caminho para que territórios estratégicos sejam validados não por processos políticos internos ou regionais, mas por sua utilidade para atores externos interessados ​​em controlar rotas, portos e espaços marítimos.

A rivalidade entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, evidente no Iémen, encontra um palco mais flexível e menos visível no Sudão. E o reconhecimento seletivo da Somalilândia envia um sinal preocupante: a legitimidade já não depende do consenso africano, mas sim da funcionalidade estratégica. Assim, o Iémen, a Somalilândia e o Sudão deixam de ser teatros de conflito separados e tornam-se parte de uma única luta pelo controlo do corredor do Estreito de Bab el-Mandeb-Golfo de Aden-Mar Vermelho, onde a fragmentação territorial e a guerra prolongada se transformam em ferramentas de realinhamento regional.

Turquia e o eixo Somália-Mar Vermelho: segurança, logística e poder sem ocupação.

A Somália é o ponto central dessa estratégia. Lá, a Turquia consolidou uma forte presença por meio do treinamento de suas forças de segurança e da cooperação militar contínua. Isso não se trata apenas de assistência técnica: é fortalecimento da capacidade estatal. Em uma região marcada por Estados frágeis e territórios disputados, construir forças armadas significa influenciar diretamente quem exerce o controle efetivo sobre o território e por meio de quais alianças.

Essa posição estratégica na Somália permite à Turquia projetar influência sobre o Golfo de Aden. Mas a jogada decisiva é que Ancara não está limitando sua estratégia a essa extremidade do corredor. Ela busca completar o arco, projetando também influência sobre o Mar Vermelho africano, onde o Sudão ocupa novamente uma posição central.

O memorando de cooperação portuária assinado no final de 2025 entre o porto sudanês de Port Sudan e o porto turco de Mersin deve ser lido neste contexto. Apresentado como um acordo técnico, ele envolve a transferência de conhecimento, modelos de gestão e esquemas de operação portuária.

A estratégia turca evita o custo político da ocupação direta e o ruído das bases militares ostensivas. Seu método é mais eficaz em contextos de fragmentação estatal: segurança, logística e cooperação institucional. Essa abordagem tríplice permite que o país exerça influência sem administração formal, projete poder sem assumir o controle territorial total e se torne indispensável para a "estabilidade" de áreas específicas.

Assim, o eixo Somália-Mar Vermelho se consolida como uma estrutura de projeção contínua, com a Turquia articulando ambas as extremidades do corredor. Não precisa controlar todo o território nem impor governos aliados: basta garantir que os pontos-chave permaneçam operacionais, conectados e alinhados aos seus interesses estratégicos. Em uma ordem regional onde a soberania é fragmentada e a guerra é normalizada, essa forma de poder — discreta, persistente e técnica — é particularmente eficaz.

Sudão como fronteira da ordem vindoura

A guerra no Sudão não é uma relíquia do passado, nem uma anomalia africana que o mundo "esqueceu". De muitas maneiras, ela prenuncia a ordem que se consolida nas periferias estratégicas do sistema global. Uma ordem onde os Estados se fragmentam, mas os corredores se fortalecem; onde a soberania enfraquece, mas a logística se torna intocável; onde a guerra não interrompe o funcionamento do poder, mas sim o reorganiza.

Nesse contexto, o Sudão surge como uma fronteira avançada: um território atravessado por atores armados que não apenas lutam, mas também administram, recebem subornos, negociam e garantem a liberdade de movimento. Um país onde o Estado perde coesão, mas não valor. Pelo contrário: seu valor cresce justamente por estar fragmentado. Porque um Estado frágil permite acordos parciais, concessões obscuras e controle indireto sem assumir plena responsabilidade política.

O Mar Vermelho e o Golfo de Aden servem como fio condutor que conecta todos esses cenários: o Iêmen como laboratório para disputas intra-Golfo; a Somalilândia como plataforma seletivamente legitimada; a Somália como espaço para o desenvolvimento de capacidades militares externas; o Sudão como peça central de um litoral estratégico carente de autoridade unificada. Esses não são conflitos isolados: são capítulos da mesma reconfiguração, onde o controle de rotas, portos e centros logísticos se sobrepõe à estabilidade social ou à vida de milhões.

A questão crucial é que essa ordem não precisa ocupar ou colonizar formalmente como no século XX. Ela opera com mais eficiência: terceiriza a violência, externaliza a soberania, fragmenta a autoridade e transforma a guerra em um ambiente administrável. Nesse mundo, a paz não é prioridade, contanto que os lucros continuem fluindo e as rotas comerciais permaneçam abertas.

A questão fundamental não é quando a guerra terminará, mas quais interesses precisam que ela continue e quais estruturas devem ser desmanteladas para que a paz não seja meramente uma pausa entre dois ciclos de violência. Porque enquanto as rotas, os portos, as receitas e os mecanismos externos que se beneficiam da fragmentação permanecerem intactos, qualquer acordo será frágil, reversível e, sobretudo, insuficiente.

O Sudão não está à margem do cenário mundial. Tragicamente, encontra-se no centro de uma disputa que define como as periferias estratégicas são governadas no século XXI.

Beto Cremonte, professor de Comunicação Social e Jornalismo, graduado pela UNLP, bacharel em Comunicação Social pela UNLP, aluno avançado do Curso Superior Técnico em Comunicação Pública e Política (FPyCS) da UNLP.

Fonte: https://noticiaspia.com/sudan-en-disputa-guerra-corredores-estratégicos-y-la-nueva-cartografia-del-mar-rojo/

Chave: 61993185299



Comentários