Trump está dando um golpe nos EUA

Trump está dando um golpe nos EUA (Foto: Official White House Photo by Molly Riley)

Manipulação do voto, captura das eleições e guerra psicológica: o arsenal usado pelo regime Trump para destruir a democracia por dentro

Reynaldo José Aragon Gonçalves
brasil247.com/

Não é crise institucional. Não é polarização. Não é excesso retórico. Os Estados Unidos vivem, em 2026, um golpe de Estado em andamento conduzido sem tanques, mas com mapas eleitorais manipulados, instituições capturadas e uma população submetida a operações psicológicas permanentes.

O golpe em curso: suspensão prática da democracia

Não é crise institucional. Não é polarização. Não é excesso retórico. Os Estados Unidos vivem, em 2026, um golpe de Estado em andamento conduzido sem tanques, mas com a manipulação sistemática das regras políticas, o uso seletivo da coerção estatal e a normalização da violência como método de governo. O erro recorrente das leituras convencionais é tratar o processo como instabilidade episódica quando, na realidade, o que está em curso é a suspensão prática da democracia. As eleições continuam existindo, o Congresso permanece aberto e os tribunais seguem funcionando, mas o princípio central da alternância de poder já não orienta o sistema.

O golpe contemporâneo não se anuncia porque não precisa. Ele se instala pela administração do cotidiano político. Regras eleitorais são reescritas fora de seus ciclos, instituições são pressionadas até perder autonomia real e a força do Estado passa a ser empregada de maneira assimétrica contra territórios e populações politicamente adversas. A legalidade deixa de operar como limite e passa a funcionar como instrumento. O que define o golpe não é a ruptura formal da Constituição, mas a conversão das instituições em engrenagens de um projeto que já não admite a possibilidade de derrota.

Esse novo limiar histórico se consolida quando um projeto de poder, liderado por Donald Trump, passa a tratar a vitória eleitoral como condição inegociável e a derrota como ameaça existencial. A partir desse ponto, a democracia deixa de ser um meio legítimo de disputa e se transforma em obstáculo a ser contornado. Quando o Estado reorganiza suas normas, seus aparatos e sua força para impedir a própria contingência do resultado político, o regime já não pode ser descrito como democrático. Ele passa a operar, na prática, como um sistema autoritário em consolidação.

A racionalidade autoritária: quando perder não é opção

O autoritarismo que avança hoje nos Estados Unidos não nasce de impulsos irracionais ou de colapsos súbitos. Ele emerge de um cálculo político preciso. Transformações demográficas profundas, concentração urbana, mudança no perfil do trabalho e reorganização cultural produziram uma maioria social estruturalmente desfavorável ao projeto político que sustenta o atual regime. Esse dado não é conjuntural nem reversível no curto prazo. Diante dele, a disputa eleitoral tradicional deixa de ser um caminho confiável para a manutenção do poder.

Quando vencer se torna improvável, a lógica da política se desloca. O problema já não é construir consenso, mas neutralizar adversários. A arena do debate público perde centralidade e cede lugar à engenharia institucional. O poder passa a ser preservado não pela adesão da maioria, mas pela manipulação das condições que definem quem conta, quem decide e quem pode participar do processo político. O autoritarismo, nesse contexto, não é um desvio ideológico, mas uma solução funcional para um projeto que já não consegue se reproduzir dentro das regras.

Essa racionalidade explica a coerência das ações em curso. Ataques a instituições, reconfiguração das regras eleitorais, uso seletivo da força do Estado e deslegitimação preventiva de resultados não são excessos desordenados. São peças de um mesmo tabuleiro. Quando um regime passa a operar com a premissa de que perder eleições não é aceitável, ele abandona a democracia antes mesmo de precisar suprimi-la formalmente. O autoritarismo contemporâneo começa exatamente aí, no momento em que a contingência do resultado político deixa de ser tolerável.

Gerrymandering de exceção: mapas como tecnologia de neutralização

O gerrymandering deixou de ser uma distorção recorrente do sistema para se tornar uma tecnologia de neutralização política permanente. A ruptura decisiva ocorre quando o redesenho de distritos passa a ser imposto fora do ciclo censitário, como resposta direta ao risco eleitoral. O mapa deixa de refletir mudanças demográficas e passa a antecipar resultados. Não se corrige uma imperfeição histórica; fabrica-se uma maioria institucional artificial capaz de sobreviver à perda da maioria social.

Essa mutação é acompanhada por coerção política aberta. Legislativos estaduais são pressionados, ameaçados ou chantageados para aprovar mapas favoráveis, enquanto o debate público é deslocado para disputas técnicas que ocultam o efeito real do processo. Distritos são fracionados para diluir votos adversários ou empacotados para confiná-los em poucas cadeiras. O rito eleitoral permanece intacto, mas o princípio da equivalência do voto é corroído. A violência aqui é estrutural: milhões de eleitores continuam votando, mas seus votos passam a valer menos por desenho deliberado.

Quando o acesso ao poder passa a depender da manipulação contínua das regras, o sistema político deixa de ser competitivo. Ele se transforma em mecanismo de reprodução forçada do poder. O gerrymandering de exceção permite vencer antes da campanha, neutralizando o eleitorado antes do debate. Nesse estágio, o mapa não organiza a representação; organiza a exclusão. Não se trata mais de um problema da democracia, mas da evidência de que ela já foi suspensa na prática.

Violência federal seletiva: o ICE como instrumento de coerção política

A escalada do uso de força federal em estados governados por democratas marca uma inflexão decisiva do regime. A presença intensificada de agentes do Immigration and Customs Enforcement em territórios politicamente sensíveis não pode ser lida como política migratória ordinária. Trata-se de operações ostensivas, concentradas, com aparato armado e impacto direto sobre comunidades civis, realizadas sob justificativas amplas que permitem intervenções territoriais prolongadas. O efeito não é apenas policial. É político. Produz medo, desorganiza a vida cotidiana e cria um clima de exceção permanente em áreas estratégicas do mapa eleitoral.

Em estados como Minnesota, essa presença federal coincide com disputas centrais de redesenho distrital e com resistências institucionais ao projeto do regime. A imigração funciona como cobertura operacional para uma coerção que vai além do enforcement. Ao tensionar autoridades locais, confrontar governos estaduais e intervir de forma ostensiva em comunidades específicas, o poder federal sinaliza que a dissidência territorial terá custo elevado. O objetivo não é apenas aplicar a lei, mas impor um ambiente de instabilidade controlada capaz de influenciar decisões políticas, reconfigurar correlações locais de força e enfraquecer a capacidade de resistência institucional.

Esse uso seletivo da violência estatal rompe um limite histórico fundamental. Pela primeira vez em décadas, agências federais armadas passam a ser mobilizadas como parte de uma estratégia política interna explícita, não apenas como instrumento administrativo. A fronteira entre segurança pública e coerção política é deliberadamente borrada. Quando a força do Estado é empregada para intimidar territórios adversários e condicionar disputas eleitorais, a democracia deixa de operar como espaço de mediação de conflitos e passa a funcionar sob lógica de ocupação. A violência não é um desvio do regime. Ela é parte constitutiva de sua forma de governar.

Supressão seletiva do voto: exclusão política dirigida

A manipulação do mapa e o uso da coerção territorial seriam insuficientes sem um terceiro eixo decisivo: a supressão seletiva do voto. O regime não busca reduzir a participação eleitoral em geral, mas filtrar o eleitorado. Barreiras administrativas, exigências documentais arbitrárias, redução de locais de votação e mudanças procedimentais de última hora operam como mecanismos de exclusão direcionada. O voto permanece formalmente garantido, mas seu exercício passa a depender de obstáculos desigualmente distribuídos no território e na estrutura social.

Esse modelo produz um efeito preciso. Populações urbanas, pobres, racializadas e politicamente adversas enfrentam custos crescentes para votar, enquanto setores alinhados ao regime encontram um caminho desimpedido. A desigualdade política deixa de ser um subproduto do sistema e passa a ser política pública. A eleição não é cancelada; ela é calibrada. O direito universal se transforma em privilégio condicionado à capacidade de atravessar uma burocracia hostil.

Ao integrar supressão do voto, gerrymandering de exceção e coerção federal, o regime constrói um sistema fechado. O mapa define onde o voto vale menos, a burocracia define quem consegue votar e a força define quem pode resistir. Nesse arranjo, a exclusão não precisa ser explícita para ser eficaz. Basta que seja sistemática. Quando parcelas inteiras da sociedade são afastadas do processo decisório por desenho institucional deliberado, a democracia deixa de ser mecanismo de escolha coletiva e passa a funcionar como dispositivo de triagem política.

Blindagem jurídica e legalização da exceção

Nenhum golpe contemporâneo se sustenta sem blindagem jurídica. Nos Estados Unidos, essa blindagem opera pela captura progressiva de cortes estaduais e pela reinterpretação estratégica da Constituição, que passa a legitimar distorções em vez de contê-las. Decisões judiciais transformam exceções em precedentes, e precedentes em normalidade. O efeito não é a suspensão aberta do direito, mas sua reprogramação para tolerar aquilo que antes era considerado inadmissível no núcleo democrático.

A separação entre legalidade e legitimidade se aprofunda. Medidas que violam a equivalência do voto, fragilizam a autonomia eleitoral local ou autorizam coerção estatal seletiva tornam-se defensáveis porque encontram respaldo formal em interpretações estreitas, tecnicistas ou abertamente deferentes ao poder. O Judiciário deixa de atuar como freio sistêmico e passa a funcionar como homologador do novo arranjo. A Constituição não é revogada; ela é esvaziada por leitura.

Esse movimento fecha o circuito institucional do regime. A engenharia eleitoral produz o resultado, a coerção garante a obediência e o Judiciário confere aparência de normalidade. Quando a exceção passa a ser legalizada, o conflito político deixa de encontrar limites internos. A democracia, ainda reconhecível em sua forma, perde a capacidade de se corrigir a partir de dentro. O golpe não precisa avançar por ruptura. Ele se consolida por jurisprudência.

Guerra psicológica e fechamento do ciclo autoritário

A consolidação do regime não depende apenas de regras, força e tribunais. Ela exige a conformação subjetiva da sociedade. É nesse ponto que a guerra psicológica interna cumpre sua função decisiva. Narrativas de ameaça permanente, fraude onipresente e inimigos internos produzem um estado emocional contínuo de alerta e medo. A política deixa de ser espaço de deliberação e se converte em campo de reação. A população é mobilizada não para decidir, mas para aceitar. O autoritarismo se normaliza quando passa a parecer necessário.

Essa engenharia emocional fragmenta a resistência e anestesia o conflito social. Comunidades são isoladas, identidades são radicalizadas e qualquer defesa de regras comuns passa a ser tratada como traição. A violência institucional deixa de causar choque e passa a ser absorvida como ruído de fundo. Quando o medo organiza a percepção da realidade, a suspensão de direitos deixa de ser percebida como ruptura e passa a ser vivida como proteção. O consentimento não é fabricado pela persuasão, mas pela saturação.

Com isso, o ciclo se fecha. O mapa neutraliza a maioria, a burocracia filtra o eleitorado, a força impõe a obediência, os tribunais legalizam a exceção e a guerra psicológica garante a aceitação social do arranjo. A democracia não cai em um dia porque já não precisa cair. Ela permanece de pé como forma vazia, enquanto o poder passa a operar por coerção, exclusão e medo. Quando o sistema já não aceita perder e a sociedade aprende a tolerar essa condição, o golpe deixa de ser evento e se torna regime.

Artigo publicado originalmente me <código aberto>


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