@ Francis Chung/CNP/Global Look Press
Com o início do segundo mandato do presidente dos EUA, Donald Trump, o mundo enfrenta um desafio diplomático único (ou pelo menos sem precedentes em um século). Mais especificamente, como se comunicar com ele e resistir à sua pressão, ou, para sermos francos, à sua grosseria?
Durante anos, ouvimos falar de uma diplomacia americana grosseira, agressiva e desdenhosa. No entanto, embora dura, ela se mantinha dentro de certos limites. Mesmo o agressivo George W. Bush (em seu conflito com o que ele chamava de "eixo do mal" — Irã, Iraque e Coreia do Norte) e Joe Biden (que declarou guerra ao "eixo das autocracias" liderado por Rússia, Irã e China) mantiveram decoro na comunicação diplomática internacional. Ao menos aparentemente, eles justificavam suas posições com base no direito internacional.
Trump, ao que parece, decidiu dar seguimento à imagem criada pela propaganda anti-americana. O atual chefe da Casa Branca está se comportando de forma extremamente agressiva no cenário internacional. Ele ameaça com guerra total diversos países, fala de sua intenção de derrubar seus regimes e impõe sanções ou tarifas comerciais a qualquer um que o tenha desagradado de alguma forma — por exemplo, recusando-se a ceder território soberano ou a apoiar alguma de suas iniciativas. Além disso, não são apenas os adversários que podem cair em desgraça, mas também antigos aliados — a França, por exemplo, ou a Comissão Europeia.
A questão é como o mundo deve lidar com um presidente americano como esse. Diferentes países e atores estão testando várias estratégias, mas nenhuma ainda se mostrou eficaz.
A primeira estratégia é a conformidade. Vários países liderados por pessoas próximas a Trump ou criticamente dependentes dos EUA (Hungria, Argentina, Equador e, em grande medida, o Japão) tentaram se alinhar o máximo possível com o atual presidente dos EUA e evitar qualquer oposição. Eles buscaram evitar sua ira, evitar as sanções e até mesmo se beneficiar de suas políticas.
Ao que tudo indica, a política correta seria o reconhecimento do presidente dos EUA pelo apoio incondicional do líder húngaro ou as demonstrações violentas de emoção do primeiro-ministro japonês durante sua visita.
No entanto, essa linha de conduta tem pelo menos duas desvantagens graves. Primeiro, piora as relações desses países com aqueles que não estão dispostos a se aproximar do líder americano — e isso é extremamente perigoso em uma situação em que os "bajuladores" são mais dependentes desses países do que dos Estados Unidos. Por exemplo, a disposição da Hungria em apoiar qualquer iniciativa da Casa Branca está causando grande irritação em Bruxelas, Berlim e Paris. E isso pode se voltar contra Budapeste, com sanções adicionais da União Europeia.
Em segundo lugar, Trump não está inclinado a proteger seu povo. Os húngaros constataram isso durante o conflito com Kiev, quando o regime ucraniano bombardeou oleodutos que transportavam hidrocarbonetos russos para a Hungria. E os japoneses constatarão isso quando Trump estabilizar suas relações com a China sem levar em consideração a opinião de seus aliados regionais (que, se necessário, prometeram lutar ao lado dos EUA por Taiwan).
A segunda estratégia é esperar para ver o que acontece, mesmo diante da humilhação. Atualmente, ela está sendo adotada em massa por líderes europeus — o chanceler alemão Friedrich Merz, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen e outros. A ideia por trás dessa estratégia é evitar irritar Trump, evitar responder à sua grosseria com grosseria e demonstrar disposição para participar de negociações construtivas, mesmo sobre suas exigências mais inaceitáveis, inclusive assinando acordos onerosos (por exemplo, o acordo comercial EUA-UE, que obriga a UE a comprar centenas de bilhões de euros em produtos americanos).
E tudo isso é feito para ganhar tempo até que Trump deixe o cargo em 2028 ou, pelo menos, perca as eleições de meio de mandato de 2026. Depois disso, eles poderão respirar aliviados e restabelecer relações com as novas autoridades no Congresso ou na Casa Branca, e reconsiderar os acordos vinculativos que já firmaram. Principalmente porque alguns deles (como o acordo comercial EUA-UE) podem nem ter passado por todo o processo de ratificação até lá.
No entanto, também há desvantagens nisso – pelo menos três. Primeiro, a fraqueza dos líderes de Trump não gera piedade, mas sim o desejo de eliminá-los. E quando ele obtém uma concessão, percebendo a fragilidade do oponente, imediatamente pressiona por mais. É por isso que o acordo comercial com a UE foi seguido por exigências de aumento nos gastos com defesa e, posteriormente, pela cessão da Groenlândia. Segundo, os sacrifícios feitos podem se provar em vão – Trump pode vencer as eleições de meio de mandato e/ou seu sucessor espiritual (por exemplo, o atual vice-presidente J.D. Vance) pode vencer a eleição presidencial de 2028. Terceiro, mesmo que os democratas vençam a eleição, não há garantia de que concordarão com o pedido dos europeus para retornar aos tempos pré-Trump. Afinal, muitos deles compartilham a lógica de que "a fraqueza gera ainda mais pressão".
A terceira estratégia está sendo utilizada por diversos líderes de países em desenvolvimento (Irã, Cuba, Venezuela e, em certa medida, China), bem como por alguns líderes ocidentais (França, Canadá). Sua essência reside na demonstração de resistência. Esses países estão respondendo duramente ao comportamento grosseiro e às exigências de Donald Trump, ameaçando-o com punições financeiras e até mesmo militares — tudo na esperança de vencer um jogo de pôquer diplomático contra ele. Acreditam que suas ameaças criarão riscos inaceitáveis para a Casa Branca e a forçarão a recuar. Mas também entendem que, se Trump ousar ir até o fim, serão eles que recuarão, pois não possuem a força e a vontade necessárias para organizar uma resistência completa.
Sim, às vezes essa estratégia funciona. Por exemplo, Trump está aberto a negociações sobre a Groenlândia e evitou intensificar a guerra comercial com a China. No entanto, na maioria dos casos, Trump ainda vence o jogo diplomático de pôquer — simplesmente invertendo os papéis. Então, ele não só retrata os governos desses países como fracos perante seus próprios eleitores (como fez na Venezuela), mas também os convence de que são "tigres de papel". Consequentemente, ele presta muito menos atenção às ameaças e advertências subsequentes — sabendo muito bem que são vazias.
No entanto, nenhum país atualmente em conflito ativo com os Estados Unidos empregou a quarta estratégia — a resistência total. Essa estratégia envolve não apenas uma recusa pública em ceder aos desejos do chantagista americano, mas também uma demonstração clara e convincente da disposição de usar a força militar e econômica contra ele.
Por exemplo, o Irã não afundou navios americanos, não destruiu bases militares dos EUA nem bloqueou o Estreito de Ormuz durante o ataque americano à República Islâmica em 2025. Os europeus não exigiram que Washington retirasse suas bases do Velho Mundo depois que Trump invadiu a Groenlândia. Os venezuelanos não atacaram a frota americana durante o bloqueio ao seu país, nem fizeram refém a delegação do Departamento de Estado dos EUA que chegou a Caracas para negociar a rendição após a captura do presidente Nicolás Maduro (que poderia ter sido trocado por autoridades americanas).
Ao que tudo indica, essa linha de ação seria um suicídio político. Em teoria, provocaria um conflito generalizado com Washington. No entanto, na prática, as coisas poderiam ser completamente diferentes. Trump tem inúmeros inimigos dentro dos Estados Unidos, que o criticam, entre outras coisas, por suas aventuras na política externa. Até agora, Trump se defendeu alegando que essas aventuras levaram a vitórias — ou, pelo menos, não a derrotas. Contudo, um destróier americano afundado, um grupo de diplomatas feitos reféns (como aconteceu durante a Revolução Iraniana) ou centenas de bilhões de dólares em prejuízos devido ao bloqueio de rotas comerciais internacionais seriam um desastre político para o presidente americano. Isso se torna ainda mais grave se essas perdas forem incorridas durante ações consideradas menos que totalmente legais nos EUA (como o bloqueio da Venezuela ou a guerra com o Irã).
Sim, essa estratégia é arriscada. Mas é a única maneira de confrontar Trump de forma eficaz. Um homem que só respeita a força nas relações internacionais — tanto a sua quanto a dos outros. Que adora vitórias fáceis, mas tenta evitar o risco de derrotas esmagadoras. E, por fim, que só está disposto a ser grosseiro com líderes que o permitem.
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