Até onde a “Língua que falou Camões” resistirá.


Até onde a “Língua que falou Camões” resistirá.

Omar dos Santos*

Não há dúvida de que a língua com que nós brasileiros, do Chuí ao Caburaí e do Seixas ao Moa, mais longe, os irmãos da longínqua Ilha de Trindade nos entendemos é reconhecida pelo mundo como uma das mais lindas e, certamente, com o léxico mais rico. Tal reconhecimento adventício é comprovado pelo sucesso de nossos poetas, romancistas, músicos e cineastas e pelo reconhecimento do brilhantismo conferidos pelo mundo à nossa diplomacia.

A despeito disto, a Língua Portuguesa do Brasil, desde a sua formação, teve que suportar dois grandes males. Por um lado, o menosprezo e por outro, o doentio hábito do burlesco arremedo de nossas elites. No século XIX, o Francês foi o modelo que inspirava nossa sociedade a embelezar seu discurso.

No início do século XX e com a revolução industrial, o Inglês passou a ocupar este lugar, mas a imitação nunca cessou. O advento da informática trouxe mais problemas e o indescritível processo emitate/copier atingiu níveis que descaracteriza e desfigura a língua.

Hoje, a invasão não é só dois idiomas, mas, e de forma bestial, do ‘informatiquês’, (se todos podem inventar, por que não eu?). É o império do emitate/copier e a invasão não se restringe ao vocabulário, mas corrompe o conjunto de regras gramaticais que definem a fala e a escrita de um grupo social como sua língua materna, sua identidade e pilar de seu patrimônio cultural.

O hábito de ouvir, ler e assistir todas as mídias sociais deu-me a vantagem de poder avaliar as imensas dificuldades que as pessoas e os profissionais de comunicação apresentam no uso da norma culta da língua, elas são de arrepiar. Penso no que Machado de Assis, Guimarães Rosa, entre outros tantos, sentiriam neste cenário. Isto para não falar em mestres da estirpe de um Joaquim Mattoso e Napoleão Mendes.

Aceito justos os argumentos usados para justificar as dificuldades no uso correto do idioma, muitos deles existem, mas a maioria deles só agasta. Hoje, tenta-se justificar verdadeiros disparates cometidos com o argumento do direito democrático da livre expressão. Lembro que o processo de comunicação atribui ao “codificador”, o falante, a responsabilidade de ser entendido.

Outro argumento muito e mal utilizado é o de que a língua é um organismo vivo. E é. Se um idioma não se moderniza, morre, como se deu com o Latim e tantas línguas. Mas o que a ciência entende por modernização de uma língua? Neste campo, muitos aspectos contam, mas uma questão não pode ser olvidada. Quando a modernização descaracteriza e causa a dissolução de seus alicerces, como está ocorrendo com nossa língua, não é avanço, é destruição. Tanto isso é verdade que os brasileiros mais atentos já descobriram que comunicadores e usuários se acham no direito de “inventar” sua própria língua. É a Babel de nossos tempos.

Convido o leitor para um passeio linguístico para vermos alguns dos desregramentos impingidos às normas gramaticais e que ocorrem sob o olhar omisso e complacente dos gramáticos e dicionaristas brasileiros, que só se preocupam com o mercado editorial.

Comecemos pela sintaxe, ramo da gramática que estuda a organização e as relações entre as palavras dentro das frases, orações e períodos. A maioria absoluta dos redatores e falantes da Língua Portuguesa demonstra absoluto desconhecimento da matéria. É comum a inversão indevida de termos da oração, emprego impróprio de figuras de linguagem e outros absurdos. Por exemplo. Agora está na moda o uso de pleonasmos: “Vi com meus olhos”. “O aluno encarou a professora de frente”. Os jovens jornalistas e alguns antigos adoram isto.

Seguindo o “calvário”, quero dizer o passeio, o leitor observador deve se assustar com o uso da ortografia, parte da gramática que define a grafia correta das palavras, acentuação, hífen, uso de letras maiúsculas/minúsculas e pontuação.

Vejamos exemplos. A norma estabelece que no uso de siglas e abreviaturas se deve, necessariamente, informar seu significado, do contrário, o leitor ou o ouvinte poderão não saber seu significado. Tenho certeza de que você já teve que recorrer a pesquisa para saber o significado de uma sopa de letrinhas que cientistas, jornalistas, empresários e, sobretudo os economistas de televisão adoram usar, pensando que o ouvinte seja bruxo. Do uso das abreviaturas não é bom nem falar, já que hoje cada um faz a que achar mais fácil. Já li até uma mensagem onde o escritor abreviou o nome de Jesus com um J. Na pontuação, a desordem chegou a tal nível que é impossível compreender a mensagem. Nas redes sociais, seguramente 90% são ininteligíveis por falta ou por uso incorreto do recurso, mas tenho encontrado texto escritos por profissionais de diversas áreas que são verdadeiras aberrações do ponto de vista da pontuação. Por ser matéria elementar, um exemplo doloroso são hábitos como o de separar o sujeito do predicado com vírgula, quando a oração está na ordem direta, não separar o adjunto adverbial deslocado por vírgula etc. Aliás, vale lembrar que uso da palavra etc. não pode ser precedido de virgula, mas a maioria a coloca.

A prosódia regulamenta o conjunto de características melódicas, rítmicas e de entonação da linguagem oral. É ela que dá elegância e sonoridade agradável à fala. Mas me parece que a maioria dos falantes comuns e dos locutores profissionais das mídias nem sabem o que é isto.

Por estabelecer a relação de dependência entre duas palavras numa oração, frase ou período, a regência é a matéria mais vigiada e cobrada nos concursos.

Considero-a uma das mais difíceis da língua. Para não me alongar, vou dar alguns exemplos de seu deplorável no cotidiano do povo e de profissionais. Os locutores de toda a mídia adoram construções como estas: “A vítima foi socorrida ao hospital”, “Você deve cuidar muito para aceitar aquela proposta até se decidir”.

Neste cenário de degradação de nossa língua, destacamos suas três características mais atingidas. Primeiro é o caso do emprego do subjuntivo, uso que foi completamente banido. O outro caso é o abandono completo do uso do pronome átono. Se antes se tinha dúvidas quanto ao uso da próclise ou da ênclise, posto que a mesóclise já tinha sido expulsa mais cedo, este problema acabou. Agora, profissionais da comunicação, cientistas políticos e até alguns professores dizem, sem a menor cerimônia “O automóvel pegou ela”, “Me deixa fazer isto para você”, “Ninguém vai visitar ela”, “Alguns funcionários mantém ele informado”.

Sobre o uso de pronomes não se pode deixar de falar da “invenção” dos jornalistas esportivos, que resolveram dar um uso “muito especial” para o pronome demonstrativo “esta ou essa”, que virou substituto do artigo definido “o” Olhem que beleza. O juiz dá início ao jogo e o narrador já me sai com esta: Pedro recua “esta bola” para traz. E mais. Será que não seria para frente o recuo. O uso errado do pronome acomete todos os profissionais do jornalismo esportivo.

O último caso é a absurda, abusiva, desrespeitosa, nociva, e haja qualificativos, importação de termos e expressões do inglês, uma língua paupérrima. Chegamos a um nível em que a fala e a escrita produzidas por grande parte dos ditos analistas econômicos, administrativos e políticos; tecnólogos da informática; advogados e militantes desta nova profissão, os “influencers”, como ele gostam de serem chamados, exige um dicionário para que se possa entender a mensagem.

Vinguemo-nos e nos deleitemos dessa macaqueação, lendo algumas estrofes do fantástico Samba do Approach do grande Zeca Baleiro
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(...) Venha provar meu brunch/Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch/eu ando de ferryboat

Eu tenho savoir-faire (É mesmo compadre)/meu temperamento é light
Minha casa é high-tec

Minha casa é high-tec/Toda hora rola um insight

Já fui fã do Jethro Tull/Hoje me amarro no Slash
Minha vida agora é cool/Meu passado é que foi trash

Eu tirei o meu green card/E fui pra Miami Beach
Posso não ser pop star/Mas já sou um noveau riche

Eu tenho sex-appeal/Saca só meu background
Veloz como Damon Hill/Tenaz como Fittipaldi

Não dispenso um happy end/Quero jogar no dream team
De dia um macho man/E de noite um drag queen (...)

Mesmo estando diante de um horizonte escuro como este, vale ainda uma previsão.

(...) “Não morrerá sem poetas nem soldados / A língua em que cantaste rudemente / As armas e os barões assinalados.

Manoel Bandeira.


Omar dos Santos
Professor aposentado. Mora em Brasília.


"A leitura ilumina o espírito".

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