Campeonatos da desigualdade


Nonato Menezes

São antigos e parecem triviais demais para que possam ser levados a sério. Aqui falo dos campeonatos estaduais de futebol, eventos que escondem o fator mais cruel da vida brasileira, a histórica e crônica desigualdade social. Desigualdade que é tão normal entre nós que mais parece algo que vem da natureza, que nasce, cresce e, “naturalmente”, se perpetua.

Cinco dos campeonatos estaduais representam muito bem esse fenômeno prosaico do nosso cotidiano. Vale a pena uma espiada descomprometida para tentar entender.

O Campeonato Gaúcho foi criado em 1919. De todas as edições realizadas, o Internacional foi campeão 46 vezes e o Grêmio levantou a taça em 43 oportunidades. O único time do interior que a conquistou por mais de uma vez, foi o Guarani de Bagé em 1920 e 1938.

Nas Minas Gerais o campeonato vem desde 1915. De todos os títulos disputados, o Atlético levantou a taça 49 vezes, o Cruzeiro 38, o América 16 e o Vila Nova 5. O último título do Vila Nova foi em 1951.

Na Cidade Maravilhosa, a peleja começou em 1906. O Flamengo é o time que mais conquistou títulos, 39 ao todo. O Fluminense ficou com 33, o Vasco com 24 e o Botafogo com 21. O América foi campeão por 7 vezes, o Bangu por 2 e o São Cristóvão também por 2. O último título do São Cristóvão foi em 1937.

No Estado mais rico do país, a peleja ocorre de maneira semelhante a fluminense. O campeonato teve início em 1902. O Corinthians é o maior campeão, com 31 títulos, seguido pelo Palmeiras, com 26, o São Paulo com 22 e o Santos empata com o tricolor e já levantou 22 canecos. O Clube Paulistano ganhou o título 11 vezes, mas deixou de existir profissionalmente em 1929.

Na Bahia, “Painho” quis que a disputa do Campeonato Estadual, que começou em 1905, se mantivesse no modelo igual às acima citadas. O Bahia conquistou 51 títulos, o Vitória levantou a taça 30 vezes e o Esporte Clube Ypiranga os segue de longe com 10 títulos. Ficou inativo por 9 anos e voltou a atuar em 2025. O Botafogo Sport Club, fundado em Salvador em 1914, já conquistou 7 títulos. Sendo o último em 1938. Hoje, sua sede é na cidade de Senhor do Bomfim. Em 2012 foi campeão da série B do campeonato baiano.

Os números acima são autoexplicativos e trazem consigo uma leitura muito fora do alcance analítico do torcedor. Eles escondem a verticalização dos campeonatos estaduais e, como padrão, favorecem poucos e sufocam a maioria. O desequilíbrio é brutal, e creio ser assim em todo país, afinal, o modelo segue a dinâmica social da desigualdade brasileira.

Os demais campeonatos estaduais do país não podem ser diferentes, já que seguem a lógica do mercado como princípio norteador de suas atividades como o é em todos os ramos da economia capitalista, aqui e alhures.

Do ponto de vista econômico, os grandes times citados não participam porque as planilhas são atraentes, mas, talvez, pelo desejo de manterem uma tradição de décadas. Logo parece inimaginável abdicarem dos tradicionais clássicos estaduais, como o Fla-Flu, Colorado-Grêmio, Ba-Vi, Sansão etc. Sendo assim, o prejuízo econômico passa a ser menos importante do que a manutenção da tradição. Não sabemos quem, qual empresa ou quais instituições ganham com esse modelo, mas é ingênuo pensar que todos perdem.

A participação por si, como mostram os dados acima, não sugere a valorização dos clubes, pois o modelo não permite sequer, acesso às competições de ponta, mesmo ao campeão, exceto, neste caso, à Copa do Brasil, o mais populista campeonato do país.

Como o modelo não esconde ser equivocado, à luz dos dados apresentados, razoável seria horizontalizar as competições, deixando de fora os grandes times, sobretudo, aqueles que participam de duas ou mais disputas. Assim, esses times teriam melhores condições para se planejarem e mais tempo para recuperação e preparação física dos atletas. 

Num eventual nivelamento dos campeonatos estaduais, a formação das bases teria reforço inestimável, tanto para os competidores, quanto para os times ricos nacionais e internacionais. Isso, certamente, levaria ao fim as escolinhas caça níqueis de “formação” de jogadores.

Como não paira dúvida alguma de que o futebol é um dos maiores símbolos culturais do povo brasileiro, talvez a sua maior paixão, podemos afirmar que suas injustas contradições são também o retrato mais acabado das injustiças que o modelo socioeconômico perpetrado pelas elites impõe a nosso povo.

Por fim, já que vivemos na época das bets, vale apostarmos nos eventuais campeões estaduais deste ano de 2026. É só fazer a fezinha em um dos dois times grandes de MG, BA e RS. No RJ e em SP é só seguir o padrão e apostar em um dos quatro grandes. Não tem erro.

E aguardar para conferir.

"A leitura ilumina o espírito".

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