Pessoas carregam cartazes, fotografias e bandeiras cubanas e do Movimento 26 de Julho durante uma manifestação em Havana, Cuba, em 17 de julho de 2021. REUTERS/Alexandre Meneghini.
TRADUÇÃO: ROLANDO PRATS
A situação em Cuba deteriorou-se significativamente após o ataque à Venezuela em 3 de janeiro e o subsequente sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores. A interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano a Cuba foi parcialmente compensada pelo México, mas a determinação e a capacidade desse país de continuar enviando petróleo para Cuba estão agora ameaçadas. Trump aposta que o aperto no cerco econômico da ilha irá alimentar as chamas da agitação social e já previu o iminente colapso do governo cubano. A imprensa americana divulgou declarações não oficiais de funcionários do governo Washington indicando um plano para derrubar o governo cubano até o final de 2026, no máximo. Em suas provocações, Trump chegou ao ponto de declarar que Marco Rubio, o atual Secretário de Estado e de ascendência cubana, poderia ser um bom candidato à presidência de Cuba. Esse ataque dramático representa um desafio estratégico para a esquerda global, especialmente na América Latina. Defender Cuba contra o imperialismo é uma questão de princípio. O projeto para derrubar o governo cubano é de natureza contrarrevolucionária. A queda desse governo seria uma derrota histórica, cujo impacto só poderia ser comparado ao colapso da URSS em 1991. A restauração do capitalismo em Cuba seria implacável, e o país se tornaria novamente uma semicolônia; ou pior, um protetorado dos EUA, semelhante ao de Porto Rico, um resultado devastador para toda a América Latina.
A situação interna em Cuba é de imensa dificuldade, infelizmente tornando-se cada vez mais semelhante à da década de 1990, durante o chamado "Período Especial" que se seguiu ao colapso da URSS. Apagões que duram várias horas por dia assolam a população da ilha, e nem mesmo as grandes cidades são poupadas. A escassez é generalizada, afetando tanto alimentos quanto medicamentos. A maioria da população vive em condições de extrema pobreza. Em 2024, Cuba solicitou assistência do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, dada a sua incapacidade de suprir, por conta própria, as necessidades nutricionais críticas das crianças. Estima-se que a pandemia de Covid-19 tenha causado uma contração de mais de 10% do PIB da economia cubana. A crise sanitária praticamente eliminou o turismo e exacerbou a escassez de moeda forte — dólares e euros —, essencial para financiar importações e controlar a inflação. Desde 2020, quase um milhão de cubanos deixaram a ilha em sua luta pela sobrevivência. Por que essa terrível vulnerabilidade? Porque Cuba permanece dramaticamente sitiada pelo bloqueio de Washington, intensificado pelas novas sanções impostas pelo governo Trump desde seu primeiro mandato (e que Biden deixou intocadas). Localizada a apenas 150 km ao sul da Flórida, Cuba foi palco do triunfo da primeira revolução socialista nas Américas, em 1959, e, como Estado independente, resistiu a todos os ataques até hoje. O imperialismo ianque considera inaceitável que essa Cuba prevaleça. A burguesia cubana nos Estados Unidos é hoje muito mais forte do que quando fugiu da ilha para aquele país, tendo se juntado às fileiras da classe dominante ianque, a mais poderosa do mundo. Ao contrário dos capitalistas chineses na diáspora, eles se recusaram a negociar com o governo cubano e mantiveram uma posição irreconciliável de apoio ao bloqueio contra Cuba. Tendo descartado uma estratégia militar que levaria a uma guerra civil, a estratégia de Washington é submeter gradualmente Cuba a um cruel e implacável estrangulamento econômico, a fim de fomentar uma crise social e a subversão interna na ilha.
O isolamento de Cuba, exacerbado pela mudança desfavorável no equilíbrio de poder no sistema global diante da ofensiva de Trump para preservar a supremacia dos EUA, está na base da situação atual. Cuba não é a prova de que o socialismo é inviável; muito pelo contrário. Durante décadas, Cuba inspirou o mundo com conquistas sociais extraordinárias, com resultados em educação, saúde pública e pesquisa médica que superaram em muito os de países com recursos naturais significativamente maiores e um nível anterior de desenvolvimento material e tecnológico. As conquistas científicas de Cuba incluíram recentemente o desenvolvimento autônomo, em tempo recorde, de vacinas contra o coronavírus. A propriedade social e o planejamento econômico demonstraram sua superioridade em comparação com os regimes de propriedade e os sistemas de gestão em estados capitalistas em um estágio semelhante de desenvolvimento econômico e social. Não faz sentido comparar Cuba com a Espanha, mas faz sentido compará-la com países vizinhos da América Central ou do Caribe. Em termos gerais, enquanto a URSS existiu, o desenvolvimento social de Cuba foi um sucesso retumbante. Para citar apenas alguns exemplos, em 2022, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Cuba apresentava um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,762, o que a colocava entre os países com "alto desenvolvimento humano", com uma expectativa de vida de 77,63 anos e uma taxa de mortalidade infantil que, até então, era inferior à dos Estados Unidos há décadas: aproximadamente 4,08 a 5 mortes por 1.000 nascidos vivos em Cuba, em comparação com aproximadamente 5,4 a 5,9 por 1.000 nascidos vivos nos Estados Unidos. Por outro lado, o processo de transição pós-capitalista em Cuba foi interrompido por inúmeros fatores. Mesmo assim, os setores sociais recém-empoderados que surgiram na ilha graças às oportunidades de negócios fomentadas pelo próprio governo para aumentar a capacidade produtiva e atrair investimentos estrangeiros permanecem à margem do governo. Não se pode negar, contudo, que, após tantos anos de sacrifícios devastadores em Cuba, ocorreu uma divisão geracional difícil, senão impossível, de superar.
A estratégia de Trump visa à subversão política e social em Cuba por meio do estrangulamento econômico. A agitação social na ilha aumentou à medida que a vida se tornou cada vez mais difícil. No entanto, as razões que levam as pessoas a irem às ruas — mesmo as legítimas e compreensíveis, como durante os protestos massivos de 11 de julho de 2021 — não são suficientes para caracterizar qualquer mobilização como progressista. Ser de esquerda não nos obriga a apoiar toda mobilização contra o governo. Na tradição marxista, existem quatro critérios para formar uma opinião sobre a natureza de um protesto social: 1) quais são as reivindicações ou o programa; 2) quem é o sujeito social; 3) quem desempenha o papel de sujeito político; e 4) quais são os resultados prováveis. Não basta que as reivindicações sejam justas. Que o sujeito social seja de origem popular é um fator importante, mas também não é suficiente. Se a liderança é reacionária, ignorar o resultado mais provável é imprudente. Uma análise objetiva é essencial para evitar a armadilha de subestimar o papel daqueles que lideram a mobilização e de negligenciar o resultado que essa liderança busca. A luta pelo poder está no cerne da luta de classes. Uma desestabilização do governo cubano para facilitar a entrega do país à burguesia de Miami seria uma tragédia histórica.
Em Cuba, a escolha não é entre ditadura e democracia, mas — como na Venezuela e no Irã — entre independência e recolonização. Defender Cuba contra as pressões imperialistas não significa alinhar-se incondicionalmente a cada ação ou medida do governo de Havana. Pelo contrário, qualquer ato honesto de solidariedade e internacionalismo deve ser de apoio crítico, tanto estratégica quanto taticamente. Isso significa que aqueles que defendem a Revolução devem poder exercer seu direito democrático à liberdade de expressão diante das onerosas pressões burocráticas. Em dezembro de 2025, Alejandro Gil, ex-ministro da Economia de Cuba, foi condenado à prisão perpétua. Entre as acusações contra ele, segundo o Supremo Tribunal Popular de Cuba, estavam acusações de espionagem, corrupção, suborno e crimes econômicos. Aparentemente, Gil abusou de sua posição para obter ganhos pessoais e forneceu informações a entidades estrangeiras. Mesmo assim, a sobrevivência de Cuba é uma prova impressionante das conquistas da Revolução até a década de 1990. A maioria dos estados que conquistaram a independência política na onda de revoluções anti-imperialistas que se seguiu às vitórias das revoluções chinesa e cubana não conseguiu preservar suas conquistas revolucionárias: Argélia e Egito são exemplos dessa regressão histórica pós-1991. Nesse contexto, a responsabilidade do Brasil — e, em outra escala, da China — de demonstrar solidariedade a Cuba é inegável. Cuba está em perigo. Ela precisa ser salva.
Texto originalmente publicado em Communis.
VALERIO ARCARYHistoriador, ativista do PSOL (Resistência) e autor de O Martelo da História. Ensaios sobre a urgência da revolução contemporânea (Sundermann, 2016).
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