Crédito: Guilherme Santos/Sul21
Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, o que se rompe não é apenas uma vida individual, mas o pacto mínimo de convivência que sustenta o próprio conceito de civilização
Domenico Corcione
Há crimes que chocam. Outros, mais inquietantes, repetem-se com tamanha frequência que passam a compor o pano de fundo da vida social. O feminicídio pertence a essa segunda categoria. Não porque tenha perdido sua brutalidade – ao contrário –, mas porque sua recorrência expõe algo ainda mais grave: a existência de um sistema que normaliza a violência contra mulheres como resposta última à sua autonomia.
No Brasil, essa recorrência não é abstrata. Ano após ano, milhares de mulheres são assassinadas em contextos marcados por vínculos afetivos, relações de dependência e histórico de violência prévia. Os dados oficiais indicam que essas mortes atingem de forma desproporcional mulheres negras, pobres e periféricas, revelando que o feminicídio não se distribui ao acaso, mas segue a lógica das desigualdades estruturais que organizam a sociedade brasileira.
A cada novo caso, a sociedade parece oscilar entre indignação momentânea e retorno rápido à rotina. Essa oscilação não é neutra. Ela revela a dificuldade coletiva de reconhecer que o feminicídio não é um desvio isolado, fruto de indivíduos “monstruosos”, mas a expressão extrema de um sistema social profundamente articulado, que entrelaça patriarcado, desigualdade, racismo, colonialidade e crise das masculinidades.
A violência como linguagem social
O feminicídio não nasce no momento do crime. Ele é gestado lentamente, no cotidiano, em relações marcadas pelo controle, pelo ciúme naturalizado, pela posse travestida de amor e pela tolerância social à agressividade masculina. Trata-se de uma violência pedagógica, aprendida e reproduzida, que encontra respaldo em tradições culturais, discursos religiosos, narrativas midiáticas e silêncios institucionais.
Nesse sentido, a morte não é um acidente. Ela é o ponto final de uma escalada previsível, muitas vezes anunciada, ignorada ou minimizada. Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, o que se rompe não é apenas uma vida individual, mas o pacto mínimo de convivência que sustenta o próprio conceito de civilização.
Patriarcado, colonialidade e desigualdade: uma engrenagem comum
Essa violência incide de forma desigual sobre os corpos. No Brasil, mulheres negras, pobres e periféricas figuram como as principais vítimas, evidenciando que gênero, raça e classe não são camadas adicionais do problema, mas seu eixo estruturante.
O patriarcado, longe de ser uma herança cultural abstrata, opera concretamente na organização do poder, do trabalho, da renda e do valor social atribuído às vidas. A colonialidade reforça essa lógica ao hierarquizar corpos, territórios e existências, enquanto a desigualdade econômica aprofunda relações de dependência que dificultam a ruptura de vínculos abusivos.
O feminicídio, assim, não pode ser compreendido como um problema restrito à segurança pública. Trata-se de um fenômeno social total, que atravessa saúde, assistência social, educação, cultura, trabalho e justiça, exigindo respostas que ultrapassem compartimentos institucionais e abordagens fragmentadas.
Reconhecer essas múltiplas dimensões ajuda a compreender não apenas a persistência do feminicídio, mas também os limites das respostas que vêm sendo construídas para enfrentá-lo.
Os limites da resposta exclusivamente punitiva
O avanço legal representado pela Lei Maria da Penha e pela tipificação do feminicídio foi – e segue sendo – fundamental. No entanto, a centralidade quase exclusiva da resposta penal revela seus limites. A punição, por mais necessária que seja, chega tarde: quando a violência já se consumou.
Sem políticas robustas de prevenção, cuidado e transformação cultural, o sistema jurídico atua como contenção posterior, não como mudança estrutural. Apostar apenas no endurecimento penal é tratar o sintoma, não a causa.
Para além das mulheres: uma abordagem sistêmica do enfrentamento
Reconhecer as mulheres como sujeito central da luta contra o feminicídio é indispensável. Fortalecer sua autonomia econômica, garantir redes de apoio comunitário e assegurar acesso a serviços públicos integrados são medidas inegociáveis. Mas isso não basta.
Romper o ciclo da violência exige deslocar o enfrentamento de uma lógica exclusivamente reativa para uma abordagem sistêmica. Isso implica, entre outros aspectos, trabalhar diretamente com homens e masculinidades, criando programas de reeducação e responsabilização, espaços de escuta e reconstrução simbólica, capazes de romper o pacto do silêncio masculino que associa poder, virilidade e dominação.
Implica também investir em políticas intersetoriais, articulando saúde mental, assistência social, educação e segurança pública, e disputar narrativas culturais que naturalizam o controle, o ciúme, a posse e a superioridade masculina nos meios de comunicação, na religião, na tradição e na vida cotidiana.
O que está em jogo: uma disputa civilizatória
Combater o feminicídio não é apenas proteger mulheres em situação de risco, embora isso seja urgente e vital. É confrontar um modelo de sociedade que ainda autoriza — explícita ou implicitamente – a morte como resposta à autonomia feminina.
Enquanto a violência contra mulheres for tratada como tragédia privada, desvio individual ou problema secundário, ela continuará a se reproduzir. Reconhecê-la como questão estrutural é condição para interromper esse ciclo.
O feminicídio não é exceção. É método. Enfrentá-lo requer mais do que indignação episódica: exige uma transformação profunda das bases simbólicas, políticas e sociais que ainda sustentam a violência como linguagem legítima do poder – e a construção consciente de outra forma de convivência, na qual a vida das mulheres não seja tolerada, mas afirmada como fundamento civilizatório.
Domenico Corcione é ex-professor de filosofia, pedagogia e teologia do ITER, UNIFAFIRE e UNICAP-PE. Foi assessor de Dom Helder Câmara na área de juventudes. É consultor em desenvolvimento social e institucional junto a OSCs e na esfera governamental. Também integra a Equipe Técnica do CAIS (Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais, em Brasília), focando na formação em incidência política.
Referências de apoio
SEGATO, Rita Laura. As estruturas elementares da violência. SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, patriarcado, violência. GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. BENTO, Berenice. O que é transexualidade? CONNELL, Raewyn. Masculinidades. SANTOS, Boaventura de Sousa. A difícil democracia.
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