O estrangeiro indesejável

 O Brasil e António Aniceto Monteiro (Excertos de um artigo)

Jorge Rezende [*]
resistir.info/
António Aniceto Monteiro.

[O matemático português] António Aniceto Monteiro chega ao Rio de Janeiro para ocupar uma cátedra de Análise Superior na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) em Março de 1945. Nesse mesmo ano é nomeado membro do Comité de Redacção da Revista «Summa Brasiliensis Mathematicae» que a Fundação Getúlio Vargas edita. Em 1945 e 1946, Monteiro é investigador do Núcleo Técnico Científico da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro), dirigido por Lélio Gama. Em 1948, inicia a série de publicações intituladas «Notas de Matemática». Nos anos 1948-1949 são editados seis fascículos. Em 1949 António Aniceto Monteiro participa activamente na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, do qual é membro fundador e para o qual é contratado como investigador de Matemática. Nesse mesmo ano lecciona um curso de Introdução à Matemática para os investigadores do Instituto de Biofísica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro por convite do seu Director Carlos Chagas. No dia 5 de Dezembro de 1949, ido do Brasil, chega a Buenos Aires, dando início ao seu segundo exílio.

[António Aniceto Monteiro viu-se obrigado a sair do Brasil porque, por razões políticas, o seu contrato não foi renovado no final de 1948.]

Alienígena indesejável

Carta de António Aniceto Monteiro a Hugo Ribeiro de 22 de Fevereiro de 1950:

«Pouco tempo depois de receber a sua carta deixava o trabalho na companhia. Em Outubro e Novembro trabalhei no centro do Lattes. (…) Em fins de Outubro chegou o visto da Argentina. Em 30 de Nov. deixei o Brasil. Em 20 de Dez. fui buscar a Lídia a Buenos Aires que ficara no Rio para que os garotos terminassem os exames. Em 25 de Dez. viajámos todos para San Juan. (…) Estou agora em Calingasta a descansar uma semana para iniciar as minhas aulas no dia 1 e aproveito a oportunidade para reiniciar a minha correspondência.»

O «centro do Lattes» é o CBPF.

Um ofício acusatório da Divisão de Polícia Política e Social

Ao escrever esta carta no princípio de 1950, Monteiro não sabia que em 9 de Dezembro de 1949, o Director da Divisão de Polícia Política e Social, major Adauto Esmeraldo, tinha dirigido «ao Sr. Diretor da Seção Consular do Min. das Relações Exteriores» o seguinte ofício («Ref. Prot. Nº 17.834/49») que pode ser consultado no arquivo do Itamaraty:

«ANTÔNIO ANICETO RIBEIRO MONTEIRO, português, comunista militante conforme resultado de sindicâncias que em seguida transcreverei, solicitou e obteve em 30 de novembro último verificação de antecedentes para fins de viagem à Argentina. Por se tratar de elemento que professa ideologia contrária ao regime brasileiro, esta Divisão sugere a conveniência de ser evitado o seu regresso ao Brasil.

O estrangeiro em causa, lente contratado da Faculdade Nacional de Filosofia, cadeira de matemática, mantém as mais estreitas ligações com os seguintes agitadores, membros do extinto Partido Comunista do Brasil: ex-Comandante da Marinha de Guerra ROBERTO SISSON, ex-Major do Exército CARLOS COSTA LEITE, escritor ANÍBAL MACHADO, SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA, JORGE AMADO e outros da plêiade denominada de “Intelectuais Comunistas”. O lusitano em questão é, ainda, um dos fundadores e principais membros da “Associação dos Amigos da Democracia Portuguesa” que funciona intimamente ligada à “Associação Brasileira dos Amigos do Povo Espanhol”, entidades de caráter comunista, ambas sediadas à Av. Rio Branco, 257 – 7º andar.

Mantém correspondência com elementos comunistas no estrangeiro, desenvolvendo, ainda, intensa campanha vermelha intelectual no seio da Colônia Portuguesa nesta Capital. Ao que se apurou, suas principais atividades, tanto demagógicas como doutrinárias, se processam na própria Faculdade em que pontifica como um dos catedráticos, alimentando o mais chegado contato com discípulos reconhecidamente comunistas, sendo de não menor gravidade as reuniões secretas de que o mesmo participa juntamente com alunos da referida Faculdade e com a conivência do professor daquela Instituição JOÃO CRISTÓVÃO CARDOSO.»

João Christovão Cardoso (1903–1980) formou-se em medicina, doutorou-se em Química e em Ciências Físicas. Teve cargos importantes na Universidade do Brasil. Foi membro fundador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e presidiu ao Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) entre 1957 e 1961. Foi um dos aposentados compulsivamente em 1969 aquando do caso Eremildo Vianna, como já vimos.

A não concessão de vistos a Monteiro

Circular do Ministério das Relações Exteriores.

Também não sabia Monteiro que em 30 de Dezembro de 1949, no seguimento do ofício da polícia, o Ministério das Relações Exteriores enviou «às missões diplomáticas encarregadas do serviço consular e aos consulados de carreira e privativos», pedindo para manter o assunto «reservado», a «Circular nº 896» sobre a «não concessão de visto a Antônio Aniceto Ribeiro Monteiro», documento que pode ser consultado no arquivo do Itamaraty ou no Relatório do Ministério das Relações Exteriores correspondente ao ano de 1949, pág. 396, acessível através da Hemeroteca Digital do Brasil:

«A Secretaria de Estado das Relações Exteriores cumprimenta as Missões diplomáticas encarregadas do serviço consular e os Consulados de carreira e privativos e, à vista das informações prestadas pela Divisão de Polícia Política e Social, do Departamento Federal de Segurança Publica, sobre os antecedentes do cidadão português Antônio Aniceto Ribeiro Monteiro, ex-professor da Faculdade Nacional de Filosofia desta Capital, recomenda-lhes não conceder ao alienígena em causa visto de qualquer espécie para o Brasil.»

Após dois anos de pressões económicas que levaram ao segundo exílio de Monteiro, as autoridades brasileiras, com esta «recomendação» da não concessão de vistos, impedem, de facto, o seu regresso ao Brasil.

No dia 12 de Setembro de 1951 a Secretaria de Estado das Relações Exteriores envia para a embaixada em Lisboa a seguinte «carta-telegrama nº 63», consultável no arquivo do Itamaraty, sobre as «facilidades para a concessão de vistos a imigrantes»:

«Estando o Governo brasileiro vivamente empenhado em incrementar a imigração de elementos que interessam a plena realização da política de desenvolvimento agrícola e Industrial, que se traçou, foram instruídas nessa data, as Repartições Consulares nesse país no sentido de facilitarem a concessão de vistos a Imigrantes. Assim, deverão ser simplificadas, na medida do possível, as exigências quanto à documentação legal; satisfazendo, nessa ordem, a apresentação de passaporte válido, certificado de saúde e de bons antecedentes penais e, a critério do Consulado, quando as circunstâncias exigirem, atestado de bons antecedentes políticos.»

Carta de Hugo Ribeiro, que nesta altura estava na Universidade de Nebraska, em Lincoln, a António Aniceto Monteiro, de 29 de Setembro de 1951:

«Disse-me um amigo que passou aqui de S. Francisco para o leste que o seu nome apareceu, há uns 10 meses, numa lista que o Brasil enviou para os seus consulados, com a indicação de que lhe recusassem visto para entrada no Brasil. Esta informação, que é recente, é de fonte perfeitamente segura (não é boato); e tive-a, por acaso, ao falar de si e da matemática em Portugal.»

Carta de António Aniceto Monteiro a Hugo Ribeiro de 16 de Outubro de 1951:

«Achei muito curiosa a notícia que me dá a respeito do Brasil. Não sabia que me atribuíam tanta importância. Realmente no Rio fiz o possível por esclarecer a opinião da colónia e do público em geral sobre a situação política do nosso país. Dada a minha falta de preparação para estas coisas tive aborrecimentos e perdi muito tempo que poderia ter dedicado ao estudo. Os mandões da colónia, salvo raras excepções, são salazaristas. Muitos pensavam que atacar o governo de Portugal era atacar o país, fazendo uma confusão enorme sobre tudo. O emigrante é analfabeto e muitos só pensam nas patacas. Em 1945 quando o fascismo ruía por todos os lados havia um ambiente propício para esclarecer a opinião pública sobre a miséria da nossa vida; mas passado pouco tempo a situação mudou. Hoje faz-se a corte a Franco, a Salazar e outros ditadores de uma forma aberta.»

Adauto Esmeraldo e os seus amigos

Quem era o major Adauto Esmeraldo, director da Divisão de Polícia Política e Social, que, em 9 Dezembro de 1949, escreveu o ofício acusatório contra António Aniceto Monteiro? Quem faz uma simples busca na rede, com os métodos habituais, fica a saber que nasceu em 1903 e faleceu em 1992 e poucas mais informações obtém, e as que obtém não parecem seguras. Procurando depois nos jornais brasileiros, através da Hemeroteca Digital do Brasil, embora não seja possível ler todos e tudo, o que se encontra dá para escrever um livro.

Este militar de artilharia tomou posse como director da Divisão de Policia Politica e Social (DPS), substituindo o coronel Augusto Imbassahy, em 30 de Janeiro de 1947, numa cerimónia presidida pelo general Antônio José de Lima Câmara (1895–1973), Chefe de Polícia (Diário de Notícias do dia seguinte).

Diário de Notícias de 30 de Agosto de 1949 dá-nos conta da saída do quinto número da revista Lei e Polícia que se definia como «Órgão técnico de repressão à delinquência e combate ao comunismo». Na lista dos seus colaboradores lá estão Adauto Esmeraldo e um dos seus braços direitos, o sinistro inspector Cecil de Macedo Borer (1913–2003), chefe do Sector Trabalhista da DPS; aqui, «trabalhista» quer dizer que era o grupo encarregado de reprimir os trabalhadores. «Repressão à delinquência e combate ao comunismo» é todo um programa que, naquela época, em particular, foi violentamente aplicado.

Quando, em 7 de Maio de 1947, o Tribunal Superior Eleitoral aprova o cancelamento do Partido Comunista, lá está o director da DPS em «rigorosa prontidão» (Diário de Notícias de 8 de Maio de 1947). Foi ele quem, no dia 9, procedeu ao fechamento de todas as sedes do PCB, «em menos de duas horas» segundo o Diário de Notícias do dia seguinte. E a repressão intensificou-se.

O mesmo jornal do dia 22 de Maio de 1947 informa de que um vereador da Câmara Municipal afirmou que oito operários foram «retirados de um bonde e espancados pela polícia, em plena via pública». O director da DPS declarou «desconhecer por completo tal ocorrência» e intimou o vereador a apresentar o nome desses operários. Informa também o jornal que foram presos pela DPS seis «pixadores» do Partido Comunista.

Diário da Noite, 02/Dez/1947.

Diário da Noite de 2 de Dezembro de 1947, a propósito da convocação de «14 comícios comunistas», tem na sua primeira página o seguinte título: «O Chefe de Polícia e o Dir. da Polícia Política falam ao Diário da Noite. MAJOR ADAUTO ESMERALDO: “Vã tentativa de desrespeito às autoridades constituídas”. GENERAL LIMA CÂMARA: “A Polícia está apta para manter a ordem em toda a sua plenitude”». Ao lado a imagem de um cartaz apreendido com os seguintes dizeres: «O POVO BRAZILEIRO E CONTRA A CASSAÇÃO DOS MANDATO DE CEUS LEGITIMO REPREZENTANTE EILEITO PELLO POUVO».

Diário de Notícias de 25 de Abril de 1948 traz declarações «do major Adauto Esmeraldo, a propósito das últimas prisões de elementos comunistas»: «Afirma o diretor da Polícia Política que nenhum preso foi espancado». Mais informa o major que também nenhum preso foi torturado. E acrescenta: «Os comunistas e os cripto-comunistas podem chamar-nos de fascistas, podem inventar que estamos espancando os detidos para averiguações. Todos os que conhecem o general Lima Câmara e a mim, sabem que a minha formação moral não permite tais barbaridades.» Cecil Borer, chefe do Sector Trabalhista da polícia, acusa os detidos de organizarem uma greve e, sem apresentar provas, de visarem a prática de actos de sabotagem e diz que foram feitas 73 buscas domiciliárias e 85 detenções. Para além destas, foram detidas mais 150 pessoas para evitar os festejos do 1º de Maio. Entre os presos estão a irmã e o primo de Luís Carlos Prestes. O mesmo jornal de 29 de Abril tem no título de uma notícia: «Veemente e unânime repulsa da Câmara dos Deputados aos métodos de repressão usados pela Polícia». Nessa sessão da Câmara «o sr. Osmar de Aquino classifica o major Adauto Esmeraldo de “um homem de bem” e o sr. Cecil Borer, de “torturador profissional”». O deputado Hermes Lima declara, na mesma sessão: «Nada justifica (…) essa onda de brutalidade, contra a qual a Nação se levanta pelos seus representantes.»

«Ruidosa diligência policial na Rua 13 de Maio» é um título do Diário de Notícias do dia 26 de Agosto de 1949. A polícia sitiou «todo um quarteirão do centro da cidade» para impedir uma sessão pública «Pró Paz» e fez dez prisões. Todos foram levados para a sede da polícia, à presença de Adauto Esmeraldo. «Os funcionários que, àquela hora deixavam o trabalho recebiam ordem de circular. Não era permitido parar nem para comprar um jornal. E os que, estranhando a ordem absurda, tentaram reclamar, foram espaldeirados.»

Tribuna da Imprensa, 07/Jul/1957.

Correio da Manhã de 13 de Novembro de 1958 traz uma notícia com o título: «Juiz aceitou denúncia contra policiais da DPS». Os acusados são todos do Sector Trabalhista da DPS, dirigida, na altura da ocorrência constante na denúncia, por Adauto Esmeraldo: Waldemiro Dibo («alcaguete» da polícia), Charles de Macedo Borer, Gerson Azeredo Coutinho, João Batista Januário, Dimas Cordeiro, Carlos Gomes Meneses, Adalberto Sousa Gomes, José Pereira Vasconcelos. O promotor Everardo Moreira Lima acusa-os da morte de Lafaiete Fonseca Santos, ferimentos em João Trindade da Cruz e invasão da casa de Domingos da Conceição Silva, com agressão violenta, no dia 29 de Setembro de 1950. Os acusados «deixaram suas vítimas na estrada que dá para a Ilha do Governador próximo à Avenida Brasil, onde atiraram com seus revólveres contra suas vítimas.» Pelos jornais da época fica-se a saber que as vítimas estavam a colocar cartazes e foram acusados de serem comunistas; ambos eram operários, sendo Lafaiete sapateiro e Domingos pintor. Isento-me de falar das sevícias, descritas pelo Tribuna da Imprensa de 1 de Julho de 1957, a que foi submetido Lafaiete antes de o matarem. Numa crónica do Diário de Notícias de 2 de Julho de 1957, intitulada «Vergonha», o escritor Rubem Braga conta a determinado passo: «Dibo diz que na ocasião [do crime], assustado com o que vira, e temendo complicações, procurou o chefe do Setor Trabalhista, inspetor [Cecil] Borer, que lhe disse – “isso não dá em nada” – e o coronel Adauto Esmeraldo, chefe da Divisão Politica e Social, que disse a mesma coisa. Houve naturalmente um inquérito que muitíssimo naturalmente “não deu em nada”.» Como se pode constatar lendo o jornal Última Hora de 17 de Outubro de 1963, o processo contra Charles Borer e cúmplices, que decorreu na 1ª Vara Criminal, naturalmente «não deu em nada».

Charles Borer (1929–2001) e Cecil Borer eram irmãos, filhos de um inglês, Cecil Brereton Borer (1877–1963), nascido em Bromley, e de sua mulher Maria Dina de Macedo (Correio da Manhã de 11 de Julho de 1963; MyHeritage); ainda voltaremos a falar de Charles Borer.

Diário da Noite, 25/Fev/1954.

Na sequência da intenção do ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, João Goulart, de aumentar o salário mínimo para o dobro, em Fevereiro de 1954 oitenta e dois coronéis e tenentes-coronéis exprimem a sua oposição assinando o manifesto que ficou conhecido por «Memorial dos Coronéis» (Memorial da democracia 1954). Entre os signatários, estão Adauto Esmeraldo e dois militares dos quais ainda falaremos: Amaury Kruel e Sizeno Sarmento (Diário da Noite de 25 de Fevereiro de 1954 ). Deste confronto resultam o adiamento da subida do salário mínimo e a saída do governo de João Goulart.

«Tomou posse ontem o presidente Nereu Ramos» é o grande título da primeira página do Correio da Manhã do dia 12 de Novembro de 1955. O jornal dá conta das movimentações militares e afirma que «é uma vitória da legalidade». Diz o jornal que às 4h da manhã «chegam à Chefatura de Polícia os coronéis Batista Teixeira e Protásio de Oliveira. Ali só se encontram o coronel Adauto Esmeraldo, diretor da Divisão de Polícia Política e Social, e o inspetor Cecil Borer, aos quais dão voz de prisão.» Assim termina a carreira do coronel Adauto Esmeraldo como director da DPS.

Em 14 de Julho de 1958 o Rio de Janeiro é abalado pelo caso Aida Curi (Diário de Notícias de 19 de Janeiro de 1960). Aida Jacob Curi era uma moça de 18 anos que foi levada à força para o terraço do edifício Rio Nobre, um prédio com doze pisos na Avenida Atlântica, por dois rapazes de 19 e 17 anos, auxiliados pelo porteiro do prédio, de 26, numa tentativa de «curra», isto é, violação por uma ou mais pessoas com a cumplicidade de outra ou outras. Aida resistiu valentemente, foi barbaramente sovada, desmaiou e, finalmente, acabou sendo projectada lá do alto para a rua. O «síndico» do prédio era padrasto do jovem mais novo, Cássio Murilo, e tinha sido director da DPS – era o coronel Adauto Esmeraldo. O militar tudo fez para proteger o enteado, a ponto de o promotor ter pensado incluí-lo na denúncia, como conta o jornal Última Hora de 16 de Fevereiro de 1960. Finalmente, e sem entrar em pormenores escusados, todos saíram do caso bem melhor do que mereciam, excepto a moça (Correio da Manhã de 12 de Novembro de 1966). Por ser menor, Cássio Murilo foi enviado para um reformatório, donde saiu para cumprir o serviço militar (Correio da Manhã de 17 de Setembro de 1967). No final do julgamento já Adauto Esmeraldo era general da reserva.

Última Hora, 16/Fev/1960.

O jornal Imprensa Popular de 27 de Julho de 1958, na sua última página, aborda o caso Aida Curi: «Criado Entre Ladrões, Assassinos e Policiais Cassio Murilo Acabou se Integrando no Ambiente Deletério!» O título é sensacionalista, mas não deixa de ser verdadeiro. Pelo jornal ficamos a conhecer muitos dos factos da actividade de Adauto Esmeraldo como director da DPS (no texto com o subtítulo «OS “EDUCADORES” DE CÁSSIO») e ficamos também a saber que o Chefe de Polícia é o general Amaury Kruel, em cujo gabinete trabalha Cacilda Vinagre, a mãe de Cássio Murilo e esposa de Esmeraldo que, por sua vez, é amigo de Kruel. Este e outros jornais informam de que Cacilda assassinou o primeiro marido de uma forma pouco convencional. Quanto a Amaury Kruel: «Durante sua gestão [na chefia do DFSP] foi criada uma unidade especial de polícia, o Esquadrão Motorizado, cujas iniciais (EM) estão associadas ao “Esquadrão da Morte”.» (Caldas et al. 2015, 394-395). Amaury Kruel (1901–1996) ficou conhecido por, tendo prometido lealdade a João Goulart, o ter traído em 31 de Março de 1964, quando era comandante do II Exército e aderiu ao golpe de estado, em troca de um milhão e duzentos mil dólares, dinheiro que «vinha do governo americano», segundo denúncia do então major do exército Erimá Pinheiro Moreira à Comissão da Verdade de São Paulo (CMVVH 2013-2014, 46-58). O leitor interessado poderá ver na rede o pequeno filme Quando Dólares Falam Mais Alto com o depoimento de Erimá perante o filho de João Goulart. Denunciado por Erimá, em 9 de Agosto de 1966, Amaury Kruel pediu a passagem à reserva e foi promovido a marechal… (CMVVH 2013-2014, 56; CPDOC “Kruel, Amauri”)

Anos depois do assassinato de Aida Curi, em 27 de Agosto de 1967, Cássio Murilo matou, a sangue frio, com três tiros, um guarda particular, apenas porque ele não lhe sabia responder a uma pergunta (Correio da Manhã de 17 de Setembro de 1967). Mais uma vez, acorreu a proteger o enteado o general Esmeraldo (Correio da Manhã de 19 de Setembro de 1967), como outrora tinha protegido, segundo o «alcaguete» Waldemiro Dibo, os assassinos do sapateiro Lafaiete (Tribuna da Imprensa de 1 de Julho de 1957). Não há notícia de que Cássio Murilo tenha sido punido por este crime.

Diário de Notícias, 29/Dez/1961.

«Manifesto Anticomunista de Generais» é um título do Diário de Notícias de 29 de Dezembro de 1961. E diz logo no início: «Notícias de Fortaleza dizem que o general Adauto Esmeraldo se encontra naquela capital, “em missão secreta”, com o objetivo de colher assinaturas de autoridades militares para um manifesto anticomunista a ser lançado à nação nos primeiros dias de janeiro próximo. O documento, segundo informações obtidas junto a fonte digna de crédito, abordará “os perigos da infiltração comunista no país”.» Falou com militares e manteve «prolongada conferência com o arcebispo metropolitano, d. Antônio Lustosa.» Desde 8 de Setembro de 1961 que João Goulart era presidente e o general, «em missão secreta», ajudava a movimentar as tropas que o haveriam de derrubar.

«Armas apreendidas ao lado do sítio de Goulart» está no grande título da primeira página do Diário de Notícias de 12 de Outubro de 1963. E, logo a abrir, informa o jornal: «Tinham sido destinadas (…) à polícia carioca as armas de guerra, de fabricação americana, apreendidas, na tarde de anteontem, no sítio do milionário português Alberto Pereira da Silva, em Jacarepaguá, a 500 metros da propriedade onde o presidente João Goulart costuma passar o fim de semana.» Alberto Pereira da Silva «fugiu momentos antes da chegada» dos militares que fizeram a apreensão. Interrogada, a esposa do português informou ter sido Charles Borer, irmão de Cecil Borer, que na altura dirigia o Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara, «quem entregou as armas de guerra ao seu marido.» O jornal Última Hora de 15 de Outubro de 1963 tem o seguinte título «Êle [Alberto Pereira da Silva] tinha as armas para matar Jango [João Goulart]» e acusa o português de ter recebido 120 milhões de cruzeiros do governador da Guanabara, Carlos Lacerda. O Jornal do Brasil do mesmo dia, logo na primeira página, tem uma fotografia com o título «O sorriso como arma» e diz a legenda: «Os Srs. Alberto Pereira da Silva e Charles Borer entraram, sorridentes no Quartel da Polícia do Exército». E, de facto, lá estavam eles os dois, contentes; lá saberiam porquê. O Jornal do mesmo dia diz que o «sítio» do português fica a «uma hora a pé da propriedade do presidente João Goulart» e que «os indiciados estavam desde sexta-feira homiziados na residência do general Adauto Esmeraldo, na rua Djalma Ulrich nº 182 em Copacabana.»

Em Abril de 1964 chega a ditadura militar. E deu-se bem com a ditadura o general. Logo-logo está ele a director-presidente (Correio da Manhã de 17 de Julho de 1964) da «Companhia Brasileira de Armazenamento» («CIBRAZEM»), da qual sai em Novembro do ano seguinte, sendo substituído por… outro general (Correio da Manhã de 1 de Setembro de 1965). Em 19 de Junho de 1970 o Diário de Pernambuco traz uma notícia que o dá como ligado à editora «LTB» («Listas Telefônicas Brasileiras»). Nos anos 70 é director vice-presidente das «Indústrias de Cimento Portland Cantagalo SA» (O Fluminense de 13 de Setembro e de 4 de Outubro de 1971). O Jornal do Brasil de 3 de Julho de 1974 diz que ele é director da «Seagram – Destilaria Continental». O mesmo Jornal do Brasil de 30 de Abril de 1975, publica o relatório da directoria da «Paskin SA, Indústrias Petroquímicas» da qual faz parte o general.

No Jornal do Brasil de 8 de Junho de 1981 pode ler-se que o juiz da 3ª Vara da Justiça Federal recebeu as denúncias de uma procuradora contra o director da «Vitória Minas SA, Crédito Imobiliário» e mais 27 outros, de um total de 49, implicados em diversos crimes relacionados com as empresas do grupo. São acusados de terem «o propósito ostensivo de enriquecer ilicitamente, às custas de recursos repassados pelo Banco Nacional de Habitação» (BNH). E lá está «Adauto Esmeraldo, general da reserva, residente no Rio de Janeiro» denunciado pelo «crime de fraude na administração de sociedade anónima». O Tribuna da Imprensa de 4 de Março de 1985, sob o título «Nélson da Matta riscado do BNH, diretorias entraram em leilão», diz a determinado passo, talvez por piada, «apoiado pelo esquema Humberto Barreto – Geisel, surge o nome de Adauto Esmeraldo, hoje um dos gerentes mais prestigiados pela área de habitação do BNH e que goza da maior confiança do diretor Arnaldo Prieto.» Humberto Barreto era o braço-direito de Ernesto Geisel.

Em 16 de Janeiro de 1974, a propósito da escolha do general Ernesto Geisel para presidente, feita no dia anterior, o Jornal do Brasil publica uma foto com a seguinte legenda: «Em março de 1945 um grupo de oficiais do Exército Brasileiro visitou, no Estado norte-americano de Geórgia, o Fort Benning. Entre eles estava o Major Ernesto Geisel (o segundo a partir da esquerda) e os demais são: o Tenente-Coronel Inácio de Freitas Rolin, Tenente-coronel Hoche Pulcherio, Major Salm de Miranda, Major Adauto Esmeraldo, Major João Gualberto Gomes de Sá, Capitão Geraldo de Meneses Cortes, Capitão Hugo Manhães Bethlem e Tenente Richard O. Weber, do Exército dos Estados Unidos.» Pelo Jornal do Brasil de 17 de Julho de 1977 ficamos a saber que Adauto Esmeraldo e Ernesto Geisel são «velhos amigos» e que se visitavam antes do segundo assumir a presidência.

Portanto, tanto Adauto Esmeraldo como Ernesto Geisel, que viria a ser presidente do Brasil, estiveram em Fort Benning em 1945. Falar em Fort Benning é falar na «Escola das Américas», que começou a funcionar um ano mais tarde, primeiro no Panamá e depois lá, e onde foram preparados muitos dos militares que haveriam de fazer sangrar as veias da América Latina (Sanches 2014).

Ao procurar mais informações sobre a ligação de Ernesto Geisel a Fort Benning vamos dar com Paul Aussaresses (1918–2013), o militar que, durante a guerra da Argélia, o general Jacques Massu encarregou de chefiar o serviço de informações e desmantelar a resistência argelina. Segundo as suas próprias palavras viu-se à frente de um esquadrão da morte («à la tête d'un “escadron de la mort”») e torturou ou deixou que torturassem sem arrependimentos nem remorsos («il reconnaît avoir torturé ou laissé torturer des hommes “sans regrets ni remords”») (Dehimi 2013). Aussaresses aplicava então o seu método habitual, que depois passaria a ensinar: torturar e em seguida matar.

Aussaresses foi adido militar no Brasil junto à embaixada francesa nos anos 1970. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (Duarte-Plon 2008), que se pode ler na rede, a jornalista pergunta-lhe «quais eram suas atribuições» nos «cursos de interrogatório e informação a oficiais no Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus», ao que ele responde: «Eu dava aulas nessa escola militar porque tinha sido instrutor das Forças Especiais do Exército Americano no Fort Bragg. Fui nomeado instrutor dos pára-quedistas da infantaria americana em Fort Benning, na Geórgia, e me pediram para ser também instrutor em Fort Bragg, na Carolina do Norte. Isso foi nos anos 60. Nessa escola, encontrei oficiais estagiários das forças especiais de vários países da América do Sul.» E o que ensinaria ele em Fort Bragg, Fort Benning ou Manaus? Ensinou o que praticou na Argélia e que depois foi replicado no Vietnam, na América do Sul e noutros lugares, claro. Mais adiante, nessa entrevista, elogia largamente os «muito amigos» presidentes Ernesto Geisel («de uma profunda moralidade»), João Figueiredo («adorável, sedutor») e Garrastazu Médici.

Na entrevista à Folha de S. Paulo diz Aussaresses: «Penso que, se a tortura pode evitar a morte de inocentes, ela se justifica.» Pelo seu lado, segundo a Comissão Nacional da Verdade, disse Geisel (Sanches 2014): «Não justifico a tortura, mas reconheço que há circunstâncias em que o indivíduo é impelido a praticar a tortura, para obter determinadas confissões e, assim, evitar um mal maior».

Pouco depois da missão no Brasil, Aussaresses reforma-se da tropa, mas, tal como Geisel ou Esmeraldo, continua «activo». O Tribuna da Imprensa de 22 de Janeiro de 1980 informa-nos da «actividade» do general: «Encontra-se em visita ao Brasil o General Paul Aussaresses, antigo Adido Militar junto à Embaixada da França. Reformado agora deixou em Brasília a filha, funcionária do setor cultural de missão diplomática do seu país. No presente, Aussaresses integra importante firma de venda de armamentos, a Thomson-Brandt [no original está “Thompson Brandt”] e, além do amor à Mademoiselle Aussaresses, esta é a forte razão da vinda ao nosso país.» O título da notícia é: «Business».

Foi este «homem de negócios» que, em Junho de 1957, na Argélia, mandou matar à facada, para que os «árabes» levassem com as culpas, o matemático Maurice Audin: «On a tué Audin. On l'a tué au couteau pour faire croire que c'étaient les Arabes qui l'avaient tué» (France Info 2014).

BIBLIOGRAFIA

CALDAS, Álvaro Machado, Eny Raimundo Moreira, Geraldo Cândido da Silva, João Ricardo Wanderley Dornelles, Rosa Maria Cardoso da Cunha e Vera Ligia Huebra Neto Saavedra Durão. 2015. Comissão da Verdade do Rio. Relatório. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial.
https://www.documentosrevelados.com.br/wp-content/uploads/2015/12/cev-rio-relatorio-final.pdf
CMVVH. 2013-2014. Relatório da Comissão Municipal da Verdade – Vladimir Herzog 2013–2014. Câmara Municipal de São Paulo.
http://documentacao.saopaulo.sp.leg.br/iah/fulltext/relatoriocomis/LIVRORELFINCOMISSAOVERDADE-2015.pdf
CPDOC “Kruel, Amauri”
https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/dicionarios/verbete-biografico/kruel-amauri
DEHIMI, Mathilde. 2013. “Mort du général Aussaresses, symbole de la torture en Algérie.” France Inter, le 4 décembre 2013.
https://www.radiofrance.fr/franceinter/mort-du-general-aussaresses-symbole-de-la-torture-en-algerie-7145057
DUARTE-PLON, Leneide. 2008. “Entrevista. Paul Aussaresses: A tortura se justifica quando pode evitar a morte de inocentes.” Folha de S. Paulo, 4 de Maio de 2008.
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0405200809.htm
FRANCE INFO. 2014. “VIDEO. Les aveux posthumes du général Aussaresses: ‘On a tué Audin’.” France Info, le 9 janvier 2014.
https://www.francetvinfo.fr/france/video-les-aveux-posthumes-du-general-aussaresses-on-a-tue-audin_500432.html
MEMORIAL DA DEMOCRACIA. 1954. “Coronéis batem de frente com Getúlio.” Memorial da democracia, 8 de Fevereiro de 1954.
http://memorialdademocracia.com.br/card/coroneis-batem-de-frente-com-getulio
MYHERITAGE. “Cecil Borer.” Árvores genealógicas do MyHeritage.
https://www.myheritage.com.br/names/cecil_borer?tr_id=m_75bfejhvpn_otewzpdgug
SANCHES, Mariana. 2014. “Militares brasileiros tiveram aula em instituto americano sobre como praticar tortura.” O Globo, 10 de Dezembro de 2014.
https://oglobo.globo.com/politica/militares-brasileiros-tiveram-aula-em-instituto-americano-sobre-como-praticar-tortura-14789322

31/Dezembro/2021

Do mesmo autor:
  • Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo
  • Matemática aprisionada
  • "Matar os insubmissos à fome"
  • Breve perfil científico e político de Einstein
  • [*] Membro do Grupo de Física e Matemática.

    O artigo completo encontra-se em Rezende, J. (2021). O estrangeiro indesejável: O Brasil e António Aniceto Monteiro (lutas, tramas, diplomacias e polícias). Cultura. Revista de História e Teoria das Ideias, (39-40), 117–272, https://doi.org/10.34619/vfec-0fz5

    Este artigo encontra-se em resistir.info

    "A leitura ilumina o espírito".

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