O que aconteceu com os outros três milhões de arquivos de Epstein?

© Dasha Zaitseva/Gazeta.Ru

Onde estão os documentos desaparecidos e qual a sua importância?

Por Vitaly Ryumshin

Quase duas semanas se passaram desde a publicação de materiais relacionados ao caso Jeffrey Epstein, mas o interesse público não dá sinais de diminuir. Pelo contrário, a controvérsia em torno do arquivo de Epstein parece estar se intensificando. O que foi divulgado se mostrou escandaloso o suficiente para dominar as manchetes, mas insuficiente para satisfazer as expectativas. O resultado é uma mistura já conhecida de indignação, suspeita e teorias da conspiração.

A chamada "biblioteca" de Epstein foi imediatamente apresentada como um tesouro de segredos obscuros. A julgar pela reação na mídia e nas redes sociais, Epstein foi transformado em uma personificação quase mítica do mal: um homem que supostamente penetrava em todas as esferas da vida da elite, conhecia todas as pessoas importantes e era, de alguma forma, responsável por tudo, desde a decadência política global até o mal-estar cultural moderno. Nessa narrativa, Epstein tornou-se não apenas um criminoso, mas um símbolo de tudo o que há de podre no Ocidente.

E, no entanto, apesar de todo o alvoroço, as revelações não levaram a praticamente nada.

O único país onde os arquivos produziram repercussão política significativa foi a Grã-Bretanha. Mesmo lá, a reação se deveu menos ao próprio Epstein do que às condições internas: uma grave crise econômica, frustração social generalizada e profunda desconfiança no governo de Keir Starmer. A história de Epstein encontrou terreno fértil, já propício ao escândalo.

Nos Estados Unidos, onde a divulgação dos fatos era mais aguardada, a reação foi surpreendentemente discreta. Houve insinuações sobre um culto pedófilo obscuro entre as elites americanas, mas nenhuma prova concreta para sustentar as alegações. Nenhum novo cúmplice foi nomeado. Nenhuma lista de clientes surgiu. Nenhuma confirmação impactante se seguiu. Nem mesmo os oponentes de Donald Trump conseguiram extrair nada de útil; contentaram-se com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, que foi flagrado mentindo sobre seu contato com Epstein. E foi só isso.

Disso, podemos tirar duas conclusões básicas. Ou a verdadeira dimensão dos crimes de Epstein foi enormemente exagerada, ou as autoridades americanas ainda estão ocultando as provas mais incriminatórias. Pessoalmente, inclino-me para a primeira explicação.

Muitos americanos, no entanto, chegaram à conclusão oposta. Como os documentos divulgados não revelaram os horrores esperados, eles acreditam ter sido deliberadamente enganados. Esse sentimento de traição reacendeu a máquina das teorias da conspiração. Os rumores se multiplicam. A especulação se transforma em certeza. Os políticos, como sempre, estão dispostos a ajudar.

Duas linhas distintas de críticas se formaram contra o Departamento de Justiça dos EUA e o governo Trump. A primeira vem principalmente de parlamentares democratas, que acusam as autoridades de censura excessiva. A queixa é específica: durante o processo de redação, nomes de indivíduos influentes associados a Epstein foram removidos, mesmo que esses indivíduos não fossem vítimas e pudessem ter sido clientes ou cúmplices. A revisão, pelo Congresso, de materiais não redigidos teria identificado pelo menos 20 nomes censurados.

A segunda crítica diz respeito ao enorme volume de material não publicado. Inicialmente, as autoridades americanas alegaram que o arquivo de Epstein continha cerca de 6 milhões de arquivos. Destes, aproximadamente 3,5 milhões foram divulgados. Isso representa pouco mais da metade. Depois disso, o processo foi interrompido.

A explicação oferecida pelo vice-procurador-geral dos EUA foi previsível: os arquivos restantes supostamente contêm dados pessoais das vítimas, materiais relacionados a outras investigações ou documentos duplicados já divulgados. Para uma parcela significativa do público americano, essa explicação foi totalmente insatisfatória. Muitos estão convencidos de que os 2,5 a 3 milhões de arquivos desaparecidos escondem informações extremamente explosivas: figuras importantes, provas irrefutáveis ​​e evidências de uma extensa rede criminosa. Agora, exigem a divulgação completa dos arquivos.

Será que eles vão conseguir? Quase certamente não.

O debate sobre Epstein continua em grande parte porque atende a necessidades políticas imediatas. Com as eleições para o Congresso se aproximando, o escândalo – mais precisamente, a forma como a Casa Branca o lidou – oferece uma ferramenta conveniente para atacar o governo. Some-se a isso a longa tradição americana de pensamento conspiratório, que dificulta a aceitação de explicações banais por muitos cidadãos, e o resultado é inevitável. Deve haver uma agenda oculta. Deve haver algo mais. Mesmo que não haja.

Qual é, afinal, a realidade do caso Epstein?

Se deixarmos de lado a histeria, o quadro perde o seu encanto cinematográfico. Epstein era um indivíduo profundamente imoral, com um talento notável para cultivar conexões sociais e explorá-las. Seus crimes foram reais e repreensíveis. Mas sua influência nos assuntos mundiais foi grosseiramente exagerada.

Os arquivos disponíveis sugerem que a atividade criminosa de Epstein consistia em um esquema específico e relativamente contido: recrutar garotas menores de idade para satisfazer seus próprios desejos pervertidos, com o envolvimento de um pequeno círculo de associados e facilitadores. A maioria dessas pessoas é obscura, até mesmo para os americanos. Quanto mais para os russos. Se uma vasta e poderosa rede realmente existisse, testemunhas confiáveis ​​ou provas decisivas certamente já teriam surgido, sem a necessidade de novas divulgações de documentos.

Se os arquivos restantes forem divulgados, é improvável que tragam revelações genuínas. Na melhor das hipóteses, poderão adicionar novos nomes famosos à lista de pessoas com quem Epstein se correspondia ou convivia socialmente. Isso gerará novos rumores, vazamentos seletivos e um pânico moral renovado – mas não clareza. O objetivo não será a verdade, mas a tensão: manter um nível de indignação pública útil a todos os lados na luta política americana.

Resumindo, Epstein era um criminoso, não o manipulador do mundo moderno. O mito que se criou em torno dele diz mais sobre a cultura política americana do que sobre o próprio homem.


Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal online Gazeta.ru e foi traduzido e editado pela equipe da RT.


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