Streeck: “O alvo do Trump é a China”

Créditos: Lazaro Gamio/Axios

Um grande analista da geopolítica global sustenta: EUA veem na América Latina um alvo fácil e humilham a Europa, mas sabem que disputa pelo poder global não será decidida aí. Como pretendem derrotar Beijing e superar o “Paradoxo de Tulcídides”?

Wolfgang Streeck, entrevistado por Michael Hasse, no Sidecar | Tradução: Antonio Martins

Será Trump um governante (neo)fascista? O que há de novo, em seu comportamento brutal – e em quê ele apenas reproduz a atitude adotada pelos governantes norte-americanos desde que se candidataram a potência hegemônica, no início do século XX? Quais as particularidades de seu governo e projeto geopolítico?

Vale conhecer, em meio a esta polêmica incessante, as opiniões do analista político alemão Wolfgang Streeck. Ele reconhece a novidade dos ataques da Casa Branca e o fato de destruírem a ordem internacional que Washington construiu, por décadas, em seu próprio proveito. Tem dúvidas sobre o prognóstico: poderá a força bruta alcançar o que o soft power já não é capaz de obter? O que isso significaria, em termos de regressão política?

Ainda que não haja elementos para responder a estas questões, Streeck parece estar certo de algo. A elevação do orçamento militar dos EUA a US$ 1,5 trilhão, em 2026 (um valor equivalente ao PIB da Coréia do Sul) expõe seu desejo de resolver o “paradoxo de Tulcídides” investindo contra a China antes que ela seja capaz de se defender. Será possível? Este pode ser o ponto central do debate geopolítico em nossa época. A entrevista de Streeck ajuda a iluminá-lo. (A.M)

Durante seu primeiro mandato como presidente, Trump prometeu se concentrar principalmente nas agruras do povo americano. Estaríamos agora testemunhando, ao contrário uma espécie de neoimperialismo estadunidense?

O programa MAGA de Trump para “Tornar a América Grande Novamente” sempre teve dois lados: reparar a sociedade norte-americana em crise e restaurar a dominação mundial dos EUA. Qual deles predominaria? Continua obscuro até hoje. Às vezes temos isolacionismo, às vezes intervencionismo; atualmente, ambos se alternam ou até mesmo ocorrem simultaneamente. A “Doutrina Donroe” de Trump é uma versão particular dessa mistura: intervencionismo, mas limitado à América Central e do Sul; nada de novo aí. Globalmente, isso equivaleria a uma divisão do mundo em “esferas de influência” regionais mutuamente respeitadas, nas quais uma grande potência governaria mais ou menos como bem entendesse. O que não se encaixa nesse cenário é o apoio incondicional a Israel em sua guerra de aniquilação em Gaza e na Cisjordânia, nem as ameaças de bombardear o Irã.

Por que há tão pouca resistência às políticas de Trump na democracia mais antiga do mundo?

À primeira vista, isso surpreende. Mas não à segunda. A Constituição americana tem quase dois séculos e meio e nunca foi adaptada às realidades de um Estado moderno e centralizado (até 1945, os EUA sequer possuíam um exército federal permanente). Por um tempo, o antigo sistema de freios e contrapesos se manteve, mas apenas enquanto o país manteve-se em uma situação razoavelmente boa. Na profunda crise social em que os EUA estão mergulhados há algum tempo, as lacunas e fraturas na estrutura constitucional estão se tornando visíveis, facilitando que uma figura inescrupulosa e ávida por poder como Trump – ele próprio um produto da crise – as explore brutalmente (com cinco juízes nomeados vitaliciamente para a Suprema Corte, praticamente tudo é possível), enquanto ilude seus eleitores, fazendo-os acreditar que a “miséria” da qual Carter falava na década de 1970 está finalmente sendo superada.

Trump representa um novo tipo de fascismo?

Para ser franco: não há praticamente nada de novo, exceto que a máscara caiu. E nem toda violência é “fascista”; não vamos desperdiçar o conceito. Os EUA sempre foram surpreendentemente propensos à violência, tanto interna quanto internacionalmente. Para eles, o período pós-guerra começou com Hiroshima e Nagasaki, depois Coreia, Vietnã (ninguém mais sabe por que milhões de pessoas foram dizimadas com napalm lá). Desde 1990, não houve um único dia em que os EUA não estivessem em guerra em algum lugar do mundo. Atualmente, mantêm aproximadamente 750 bases militares espalhadas pelo globo. É verdade que Trump liberou o potencial violento da sociedade americana internamente, incitando metade da população contra a outra metade. Mas o seu tipo de guerra civil está muito aquém das guerras contra a escravidão e os indígenas do século XIX, e ele também não é responsável pelo sistema prisional extraordinariamente vasto e cruel. Isso é obra de seus antecessores.

Quem, por exemplo?

Bem, em política externa, principalmente Bush e Cheney, que semearam o caos no Iraque, Afeganistão e Síria – países que não fizeram nada contra os EUA e jamais poderiam ter feito. Admito que a enorme quantidade de mortes infligidas graças à tecnologia avançada, com quase nenhuma perda do próprio lado, tem, fenomenologicamente falando, algo de fascista. Em 15 anos de guerra, aproximadamente três milhões de vietnamitas morreram, em comparação com 50 mil soldados americanos, número que, na década de 1960, correspondia ao de mortes em acidentes de trânsito nos EUA a cada ano.

Como os europeus devem se comportar em relação aos EUA e a Trump? Alguns falam da relativa força da UE como área econômica, enquanto outros enfatizam a desunião e a fragilidade.

Ambas as afirmações estão corretas. Os norte-americanos continuarão a adotar uma postura intransigente com os europeus por um bom tempo. Elon Musk e seus colegas oligarcas garantirão isso. Como conseguem fazer isso? O mais importante é que os europeus não podem declarar guerra, direta ou indireta, contra a Rússia sem se exporem às imposições dos EUA. E no que diz respeito à “unidade”, acredito que a Alemanha não poderá concordar para sempre com a política de sanções dos EUA contra a Rússia, e especialmente contra a China, por razões econômicas. Tampouco pode se comprometer com uma política báltica ou polonesa que acarrete o risco de ter que enviar tropas soldados para combater a Rússia sem possuir armas nucleares.

O chanceler Merz aposta em seu “bom relacionamento” com Trump e adota uma abordagem “amigável”. Será essa a estratégia correta?

Ninguém sabe. Mas o que Merz deveria fazer? Enviar a marinha alemã para a Baía de Chesapeake e exigir a extradição de Trump para o Tribunal Penal Internacional? Por outro lado, ele não pode se mostrar tão amistoso quanto María Corina Machado, já que não tem um Prêmio Nobel para oferecer. (Não que isso tenha servido a ela de algo.) Você se lembra de como [o chanceler alemão Helmut] Scholz se mostrou publicamente amistoso com Biden, mesmo quando este declarou à imprensa que os americanos sabiam muito bem como bloquar o gasoduto Nord Stream 2, caso os alemães não o fizessem? Para isso, Trump também não foi necessário.

Você acha que a Groenlândia deveria ser deixada sob o controle dos norte-americanos para evitar um grande conflito?

Você e eu não temos nenhuma capacidade de influir sobre esta questão e, portanto, não precisamos necessariamente ter uma opinião. Os americanos estão profundamente envolvidos na Groenlândia há muito tempo – desde a Segunda Guerra Mundial e, depois, permanentemente desde a Guerra Fria. Se você tivesse sobrevoado o norte da Groenlândia em um dia ensolarado antes de 1990, como tive a sorte de fazer, teria visto uma base militar norte-americana atrás da outra. Se quiser uma previsão: dada a russofobia da Dinamarca, presumo que, com o apoio de uma OTAN, ela concederá aos norte-americanos algo como soberania de fato, com pequenos ajustes cosméticos para manter as aparências.

Quão perigoso se tornará o conflito entre os EUA e a China?

Muito perigoso. Os EUA vêm discutindo a China há muito tempo, desde Obama, sob a perspectiva da chamada “armadilha de Tucídides”. Em resumo, o historiador grego, ele próprio um general muito admirado, explicou a derrota dos atenienses para os espartanos na Guerra do Peloponeso pelo fato de terem demorado demais, enquanto Esparta crescia e se fortalecia, em vez de atacarem logo – num momento em que poderiam tê-los derrotado facilmente.

O que isso significa?

Como você sabe, a estratégia militar oficial dos EUA visa impedir o surgimento de qualquer potência no mundo que possa rivalizar com eles. A discussão entre especialistas gira em torno de saber se o momento certo para atacar já passou ou não. Há alguns dias, Trump anunciou que o orçamento de defesa dos EUA aumentará 50%, chegando a 1,5 trilhão de dólares até 2027. Para quê, afinal?

Não há progressos nas negociações entre os EUA e a Rússia. Isso não indica que Putin não quer a paz?

Será possível considerar que os EUA, ou a UE também não querem a paz? Ao contrário de Ursula von der Leyen e de outros estrategistas, os norte-americanos não partem do pressuposto de que a Rússia pode ser derrotada. Mas para eles isso não importa; basta aos europeus manter a Rússia ocupada com uma guerra de desgaste por procuração “até o último ucraniano”. Um efeito colateral bem-vindo é que uma guerra prolongada torna impossível qualquer reaproximação entre a Alemanha e a Rússia – o que é o pesadelo tradicional, especialmente da política britânica em relação à Europa continental.

A guerra na Ucrânia foi iniciada pela Rússia, não pelos EUA, certo?

É uma longa história. Não se pode simplesmente planejar o lançamento de mísseis de alcance intermediário a 800 quilômetros da capital de uma potência nuclear rival sem que esta reaja. Mas concordo com você na medida em que a Rússia conseguiu modernizar seu armamento e se converter em uma economia de guerra durante os quatro anos de conflito, apesar de aparentemente ter sofrido pesadas baixas no campo de batalha. Agora, parece estar ganhando terreno a cada dia, contra uma coalizão europeia que jurou aos ucranianos, no início de 2022, que a guerra terminaria até o Natal, com uma derrota retumbante para a Rússia (von der Leyen chegou a anunciar que “nós” iríamos “desmantelar camada por camada” a sociedade industrial russa por meio das sanções milagrosas que ela concebeu).

O que isso significa?

A Rússia pode agora enxergar uma oportunidade de ir muito além das negociações de Minsk e Istambul, e efetivamente eliminar a Ucrânia como um Estado-nação viável num futuro próximo, ao mesmo tempo que humilha a União Europeia. Imagino que Putin acharia isso irresistível. Os “europeus” teriam, então, provocado essa situação.

Macron sugeriu a participação de Putin na cúpula do G7. Puro desespero ou uma boa ideia?

Uma das notórias autopromoções inconsequentes de Macron. Além disso, é espantoso como o bom senso parece tão exótico hoje em dia. Como se pode acabar com uma guerra que não se pode vencer no campo de batalha se se recusa a dialogar com o outro lado?

Estaremos vivendo o fim de um mundo que conhecemos, com sua ordem baseada em regras?

Não sei o quão familiar este mundo lhe era; para mim, tornou-se estranho desde pelo menos o bombardeio de Belgrado, se não antes. E, de qualquer forma, não era realmente “baseado em regras” – talvez com a exceção do regime comercial da OMC, que passou a existir cada vez mais apenas no papel desde a crise financeira de 2008. Proclamada após o chamado fim da história no início da década de 1990, a “ordem baseada em regras” foi administrada pelos EUA como polícia, tribunal e executor do mundo, tudo ao mesmo tempo — e somente por eles, a seu critério. Nunca aplicaram essa ordem a si mesmos: veja a invenção do “dever de proteger” na década de 1990, o estado de emergência permanente sob a “Guerra ao Terror”, que foi continuamente expandido após 2001, Israel e os territórios palestinos ocupados como uma zona experimental sem lei para o despovoamento não nuclear, a cruzada armada pela “democracia” contra o “autoritarismo”. Sob o pretexto de ‘ordem’: um estoque de justificativas para ‘sanções’ de todos os tipos, a serem impostas arbitrariamente pelo único poder punitivo que não pôde ser responsabilizado sequer por sua invenção mortal de ‘armas de destruição em massa’ iraquianas (com uma estimativa de 500 mil civis mortos).

E o que mudou sob o governo Trump?

Ao contrário de seus antecessores, Trump dispensa discursos polidos e eloquentes, repletos de um discurso legalista e persuasivo. Mas o núcleo violento de sua ideia de uma Pax Americana está longe de ser novidade. Aliás, em comparação com Bush II e Obama, a pretensão de Trump ao Prêmio Nobel da Paz não é totalmente absurda – pelo menos não ainda. Lembre-se de que Obama o recebeu de graça, um ano após o início de seu primeiro mandato. E até Kissinger o recebeu, no final.

 

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