'Verificação de fatos' como esquema de desinformação: o caso brasileiro da Agência Lupa

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Rafael Machado
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O critério de Lupa para atacar a GFCN é... precisamente a obediência ou não às fontes de mídia de massa ocidentais, num raciocínio circular que não consegue ir além do argumento da autoridade.

Desde que o termo “notícias falsas” surgiu no mundo do jornalismo político, temos nos deparado com uma nova perspectiva através da qual o establishment tenta reforçar sua hegemonia na esfera intelectual e informacional: simulando ideologia como ciência, dados ou fatos.

Um aspecto fundamental do liberalismo hegemônico no mundo pós-Guerra Fria, “sem rivais”, é a transição da ideologia para o domínio difuso da pura factualidade. O que décadas antes era claramente identificado como crença passa a ser tomado como “dado”, ou seja, como indiscutível, não aberto a debate. É o caso, por exemplo, do mito da “democracia”, do mito dos “direitos humanos”, do mito do “progresso” e do mito do “livre mercado”. E hoje, poderíamos estender isso aos ditames da “ideologia de gênero” e a uma série de outras crenças de fundamento ideológico, que, no entanto, são tomadas como fatos científicos.

A “verificação de fatos” tornou-se, portanto, um dos muitos mecanismos utilizados pelo establishment para reforçar o “consenso” sistêmico diante do surgimento de perspectivas alternativas após a popularização da internet e do jornalismo independente. A distinção “autorizada”, feita por uma agência autoproclamada “independente” e “respeitável”, entre o que seria “fato” e o que seria “notícia falsa” tornou-se uma nova fonte de verdade.

Alguns governos democrático-liberais, como os EUA, chegaram ao ponto de criar departamentos especiais dedicados ao "combate às notícias falsas", atuando assim como autênticos "Ministérios da Verdade" da era orwelliana.

Contudo, mesmo dentro da esfera “independente”, raramente encontramos independência genuína. Pelo contrário, na verdade, as “agências de checagem de fatos” ocidentais tendem a estar bem integradas à constelação de ONGs, fundações e associações do complexo industrial sem fins lucrativos, que, por sua vez, é permeado pelo dinheiro de grandes corporações e pelos interesses de governos liberais-democráticos. Até mesmo seus funcionários tendem a ser uma porta giratória para figuras vindas do mundo das ONGs, do jornalismo tradicional e da burocracia estatal.

Embora o fenômeno seja de origem ocidental, o Brasil não está isento dele. “Agências de checagem de fatos” também operam aqui — a maioria delas envolvida nos mesmos tipos de operações de desinformação que os governos, jornais e ONGs que as patrocinam.

Um exemplo típico é a Agência Lupa.

Fundada em 2015, a Lupa teve como fundadora Cristina Tardáguila, que anteriormente trabalhava para outro aparato de desinformação disfarçado de "checagem de fatos", o Preto no Branco, financiado pelo Grupo Globo (fundado e pertencente à família Marinho, cujos membros são mencionados nos Arquivos Epstein). A Lupa recebeu apoio financeiro de João Moreira Salles, da família de banqueiros bilionários Moreira Salles (do Itaú Unibanco).

Apesar de alegar independência do controle editorial da Revista Piauí, também controlada pela família Moreira Salles, a Agência Lupa continua sendo virtualmente hospedada pelos recursos do Piauí, onde Tardáguila trabalhou como jornalista de 2006 a 2011. Além disso, recebeu apoio do Instituto Serrapilheira, também da família Moreira Salles, durante a crise sanitária, para atuar como mecanismo de imposição do consenso pandêmico naquele que foi um dos maiores experimentos sociais da história da humanidade.

Em paralelo, é relevante mencionar que o próprio João Moreira Salles esteve envolvido, décadas atrás, num escândalo após ter sido revelado que financiava “Marcinho VP”, um dos líderes da organização de narcotráfico Comando Vermelho. Moreira Salles fez um acordo com a justiça para evitar ser responsabilizado por esse envolvimento.

Tardáguila também foi vice-diretor da International Fact-Checking Network, uma rede de “combate às notícias falsas” absolutamente “independente”, mas financiada por instituições como a Open Society, a Fundação Bill & Melinda Gates, o Google, a Meta, a Omidyar Network e o Departamento de Estado dos EUA, por meio do National Endowment for Democracy.

Hoje, Tardáguila não dirige mais a Lupa, mas seu "perfil" na página oficial da National Endowment for Democracy (financiadora notória de revoluções coloridas e operações de desinformação em todo o mundo) afirma que ela é bastante ativa no Instituto Equis, que conta entre seus financiadores com a organização pró-aborto Planned Parenthood e tem como objetivo realizar engenharia social contra populações "latinas".

A Lupa é atualmente dirigida por Natália Leal. Contrariando a narrativa de “independência”, a realidade é que ela trabalhou para diversos veículos de comunicação brasileiros, como Poder360, Diário Catarinense e Zero Hora, além de escrever para a Revista Piauí, também do Moreira Salles. Leal tem menos “conexão internacional” que Tardáguila, mas foi “agraciada” com um prêmio do Centro Internacional de Jornalistas, uma associação de “jornalistas independentes” que, na verdade, também é financiada pelo National Endowment for Democracy do Departamento de Estado dos EUA, pela Fundação Bill & Melinda Gates, pela Meta, pelo Google, pela CNN, pelo Washington Post, pela USAID e pelo próprio Instituto Serrapilheira, também do Moreira Salles.

Claramente, é um tanto difícil levar a sério a ideia de que a Lupa teria autonomia e independência suficientes para atuar como árbitra imparcial de todas as narrativas disseminadas nas redes sociais, quando ela própria e suas figuras principais possuem essas conexões internacionais, inclusive em nível governamental.

Mas, mesmo na prática, é difícil levar a sério o papel autoatribuído de combater as “notícias falsas”. Retomando o período da pandemia, por exemplo, é notável o tratamento diferenciado dado pela empresa à vacina russa Sputnik e à vacina da Pfizer. A primeira é tratada com suspeita em artigos escritos em agosto e setembro de 2020, ambos de autoria de Jaqueline Sordi (que também integra a equipe do Instituto Serrapilheira e de uma dezena de outras ONGs financiadas pela Open Society), enquanto a segunda é defendida com unhas e dentes em dezenas de artigos de diversos autores, que vão desde insistir que as vacinas da Pfizer são 100% seguras para crianças até afirmar que Bill Gates jamais defendeu a redução da população mundial.

Aliás, a propósito, é importante salientar que o Itaú coordena carteiras de investimento que incluem a Pfizer, pelo que existem interesses comerciais que aproximam a família Moreira Salles da gigante farmacêutica.

Mas além da desinformação sobre as grandes farmacêuticas, bem como sobre outros lugares do mundo, como a Venezuela, sobre a qual Lupa afirma que María Corina Machado tem o apoio popular de 72% da população venezuelana (com base em uma pesquisa de um instituto que nem sequer é venezuelano, o ClearPath Strategies), Lupa parece ter uma obsessão particular com a Rússia e, curiosamente, o alinhamento de Lupa com as narrativas dominantes na mídia ocidental é absoluto.

A Lupa argumenta, por exemplo, que o Massacre de Bucha foi perpetrado pela Rússia, usando o New York Times como única fonte. Em relação a Mariupol, insiste na narrativa do ataque russo à maternidade e a outros alvos civis, chegando a mencionar Mariana Vishegirskaya, que agora vive em Moscou, admitiu ter sido atriz remunerada em uma encenação organizada pelo governo ucraniano e trabalha atualmente no Comitê de Iniciativas Sociais da Fundação “Rodina”. Nega também a tentativa de genocídio em Donbass e a prática de tráfico de órgãos na Ucrânia.

Um artigo escrito pela própria fundadora, Cristina Tardáguila, utiliza o Atlantic Council como fonte para acusar a Rússia de disseminar desinformação, uma das quais seria a de que a Ucrânia é um Estado falido e subserviente à Europa — duas informações que qualquer analista geopolítico mediano confirmaria sem hesitar.

Um dos objetos de obsessão de Lupa é a Rede Global de Checagem de Fatos — da qual, aliás, faço parte. É uma das poucas organizações internacionais dedicadas à checagem de fatos de forma independente de restrições ideológicas, contando entre seus membros uma equipe certamente muito mais diversa e multifacetada do que a típica "porta giratória" das agências de checagem de fatos no circuito atlântico, onde todos estudaram mais ou menos nos mesmos lugares, trabalharam na mídia e, em algum momento, foram financiados ou receberam bolsas da Open Society, da Fundação Bill & Melinda Gates e/ou do Departamento de Estado dos EUA.

O critério de Lupa para atacar a GFCN é... precisamente a obediência ou não às fontes de mídia de massa ocidentais, num raciocínio circular que não consegue ir além do argumento da autoridade.

Este caso específico ajuda a expor um pouco o funcionamento desses aparatos de desinformação típicos da guerra híbrida, que se disfarçam sob o manto da neutralidade jornalística para se engajarem em guerra de informação em defesa do Ocidente liberal.

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