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Entre o PowerPoint que omite nomes da direita e o público do BBB que rejeita os favoritos da produção, a emissora ensaia um reposicionamento comercial que ameaça o que ainda lhe resta de credibilidade jornalística
Em 20 de março de 2026, o programa Estúdio I da GloboNews exibiu uma arte gráfica intitulada “Conexões de Daniel Vorcaro”. O material colocava o presidente Lula e o PT no centro de uma teia de supostas ligações com o banqueiro preso por fraudes bilionárias. A estrutura visual lembrava o PowerPoint que Deltan Dallagnol usou em 2016 para tentar incriminar o mesmo Lula durante a Operação Lava Jato.
Três dias depois, a jornalista Andréia Sadi leu um pedido de desculpas ao vivo, reconhecendo que “o material estava errado e incompleto e não deixou claro o critério que foi usado para a seleção das informações”.
A arte omitia nomes como Jair Bolsonaro, que recebeu R$ 3 milhões do operador de Daniel Vorcaro, Tarcísio de Freitas, que recebeu R$ 2 milhões, e Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central durante todo o período das fraudes e hoje diretor do Nubank, banco que tem na sociedade a própria família Marinho. Em contrapartida, incluía Gabriel Galípolo, a autoridade que agiu para liquidar o esquema, gerando muita repercussão negativa pelas redes.
A ex-repórter Neide Duarte, com mais de 40 anos de Globo, classificou o episódio como “dia de vergonha” e comparou o material a um “jornalzinho de culto pentecostal”. Há boatos de demissões na equipe de produção. A coisa foi tão feia, mas tão feia que a emissora apagou 19 minutos do programa no Globoplay.
O episódio do PowerPoint pode parecer um acidente isolado, um erro de edição cometido sob pressão. Parece-me que não é. Trata-se do sintoma mais visível de uma guinada editorial que o grupo Globo vem implementando desde pelo menos meados de 2024, de forma deliberada e com base em dados de pesquisa de opinião pública.
A tese deste texto é que essa guinada tem uma lógica comercial compreensível, um diagnóstico parcialmente correto sobre o perfil do público brasileiro, mas uma estratégia de execução que ameaça corroer o que resta de credibilidade jornalística da emissora, sem conseguir, em troca, conquistar o público conservador que almeja.
O diagnóstico e a pesquisa
Antes, porém, vale desfazer um mal-entendido que persiste em parte da esquerda. A Globo pode ter todo seu histórico de conexão com a ditadura, a manipulação da eleição de 1989 e um forte viés contra Lula e o PT ao longo das últimas décadas, entretanto um ponto relevante que o site Pipoca Moderna levantou é que “bolsonaristas e a maior parte da direita define o jornalismo da empresa como ‘Globolixo’, independente de quem esteja à frente das notícias”. A percepção de que a Globo é de esquerda não depende do conteúdo real da programação. É uma categoria identitária construída durante o embate Jair Bolsonaro-rede Globo na pandemia e cristalizada desde então.
O ponto de inflexão da estratégia da Globo pode ser rastreado a pesquisas que a Quaest, instituto fundado pelo cientista político Felipe Nunes, realizou para a emissora. Os dados mais completos foram publicados no livro O Brasil no espelho, lançado pela Globo Livros em dezembro de 2025, mas os resultados da pesquisa, que ouviu quase 10 mil pessoas em 340 municípios, circulavam internamente desde ao menos o início de 2024.
O livro divide o Brasil em nove identidades políticas, nomeadamente conservadores cristãos (27%), dependentes do Estado (23%), agro (13%), progressistas (11%), militantes de esquerda (7%), empresários (6%), liberais sociais (5%), empreendedores individuais (5%), extrema-direita (3%). “Na média, somos um país conservador”, concluiu Nunes. “Prevalecem os valores tradicionais da religião, a valorização da família acima de tudo”. A obra revela um Brasil de fé e família, conservador, empreendedor, orgulhoso de sua cultura, mas inseguro e ressentido, que vê no punitivismo ao outro uma solução
Vale observar que Felipe Nunes, além de autor da pesquisa, é conselheiro da Fundação Roberto Marinho e comentarista da TV Globo e da GloboNews. A pesquisa foi encomendada e publicada pela própria Globo Livros. Essas e outras pesquisas então evidenciaram algumas questões duras à empresa. Boa parte do público brasileiro rejeita seus produtos por a considerarem aliada à esquerda ou, no mínimo, forte oposição ao bolsonarismo. Na prática, ela não dialoga e não ganha dinheiro com a maior parte dos brasileiros. Tudo isso tem levado à guinada que agora reconstruo aqui.
A guinada no jornalismo
O levantamento qualitativo encomendado pela própria GloboNews ao instituto Quaest, realizado no segundo trimestre de 2025, é o dado mais direto. Assinantes do canal afirmaram que consideram a emissora um “canal de esquerda”, com linha editorial “alinhada à narrativa de partidos como PT e PSOL”. Telespectadores reclamavam do “tom irônico” de alguns apresentadores e da falta de equilíbrio nas coberturas políticas. A pesquisa foi feita com telespectadores que “não assistem” habitualmente a GloboNews, incluindo empresários e autônomos de perfil conservador.
A pesquisa levou diretamente à demissão de Daniela Lima, vista pelos respondentes como “personificação” do viés progressista do canal. Junto com Daniela Lima, foram demitidos o comentarista Mauro Paulino e a colunista Eliane Cantanhêde. Em junho de 2024, a emissora já havia contratado Joel Pinheiro da Fonseca, economista liberal egresso do grupo Jovem Pan e da CNN Brasil, para ampliar a “pluralidade” de vozes no canal.
Em setembro de 2025, William Bonner anunciou sua saída do Jornal Nacional após 29 anos na bancada. O jornalista afirmou que a decisão vinha sendo negociada há cinco anos, motivada por razões pessoais, incluindo o desejo de estar mais próximo dos filhos que vivem no exterior. Na opinião deste autor, a narrativa pessoal de William Bonner é plausível e não há evidências públicas de que tenha sido forçado a sair. Mas o fato de que a TV Globo não fez esforço para retê-lo diz algo.
William Bonner era o principal alvo do bolsonarismo na emissora, tendo sido ameaçado de morte durante coberturas eleitorais. Nos bastidores, circulava a informação de que o jornalista não desejava passar por mais uma cobertura eleitoral sendo hostilizado. Sua substituição por César Tralli, percebido como menos combativo, convinha ao reposicionamento em curso.
O caso do carnaval oferece outro exemplo. Em fevereiro de 2026, a Acadêmicos de Niterói estreou no Grupo Especial do Rio com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. ATV Globo estabeleceu um protocolo interno para a cobertura. As orientações incluíam evitar entrevistas com foliões que expressassem posicionamento político, cortar para planos gerais caso se percebesse propaganda de campanha, e pedir aos apresentadores que mantivessem tom sóbrio ao comentar o enredo, evitando qualquer expressão que pudesse soar como empolgação ou apoio.
A sequência de fatos no jornalismo demonstra a guinada. Houve demissão de jornalistas percebidos como de esquerda, contratação de vozes liberais, cautela extrema na cobertura de eventos ligados ao governo, e um PowerPoint que, ao omitir seletivamente nomes da direita e do Centrão envolvidos no caso Master, reproduzia a mesma lógica de construção de narrativa que a própria rede Globo havia criticado durante a Lava Jato. A contradição é evidente.
A guinada no entretenimento
A reorientação não se limitou ao jornalismo. Na grade de entretenimento, a TV Globo ampliou a presença do sertanejo e do gospel em programas diários como o Encontro com Patrícia Poeta. Aos domingos, após o Globo Rural, o Viver Sertanejo consolidou a presença do agronegócio no horário nobre dominical.
Na teledramaturgia, o movimento é mais revelador. A novela das nove, Três Graças, de Aguinaldo Silva, estreou em outubro de 2025 com um arco que inclui o personagem Jorginho Ninja (Juliano Cazarré), um ex-traficante que se converte ao evangelismo na prisão sob influência do Pastor Albérico (Enrique Diaz). A trama inclui um núcleo evangélico com personagens construídos de forma simpática e protagonista.
Três Graças estava prevista para estrear apenas no primeiro semestre de 2026, substituindo Rosa dos Ventos, de Gloria Perez, que, originalmente, substituiria o reboot de Vale Tudo (2025). No entanto, em 10 de fevereiro de 2025, a TV Globo decide adiar a novela de Gloria Perez e inverte a ordem com Três Graças, que passa para outubro de 2025 e sendo confirmada como a sucessora de Vale Tudo.
Um dos fatores que gerou esta decisão foi o fato da trama de Gloria Perez de abordar temas sensíveis como aborto e corrupção. A emissora teria optado por evitar tratar de temas políticos em ano eleitoral.
O Big Brother Brasil 26 oferece uma demonstração em tempo real dessa contradição. A produção escalou como participantes Jonas Sulzbach e Alberto Cowboy, perfis que se encaixam no modelo do homem conservador brasileiro. Ambos entraram no programa com contratos assinados com a ViU, agência da Globo responsável por gerenciar carreiras e oportunidades comerciais de talentos da emissora. Ana Paula Renault, a única veterana fora desse esquema comercial, não é agenciada pela ViU.
O resultado subverteu o planejamento. Jonas foi eliminado no décimo paredão, com 53,48% dos votos e Cowboy neste domingo com quase 68% dos votos. Tadeu Schmidt chamou a ambos de “protagonista” ao anunciar a eliminação, o que gerou reação imediata nas redes, mas a verdade do público é que Ana Paula Renault consolidou favoritismo com mais de 70% nas enquetes de portais como Votalhada e UOL.
A equipe de Alberto Cowboy chegou a publicar uma nota acusando a produção do programa de favorecer Ana Paula, argumentando que “o favoritismo estaria definido previamente pela organização”. A ironia é que exatamente o oposto parece mais próximo da verdade. A produção investiu em perfis conservadores com potencial comercial para a própria emissora e foi o público, mais progressista e mais engajado, que rejeitou a imposição. Desenhar um reality show para agradar conservadores quando a audiência ativa e votante do programa tem perfil diferente é uma aposta de mercado que ignora quem de fato consome e interage com o produto.
A dimensão financeira é indispensável para entender a racionalidade por trás da guinada. O lucro da Globo caiu 25% em 2025, de R$ 1,99 bilhão para R$ 1,49 bilhão. Os custos operacionais subiram para R$ 12,4 bilhões. A receita com canais por assinatura, streaming e vendas de conteúdo ao exterior caiu R$ 100 milhões no quarto trimestre, uma queda de 4%.
O Globoplay ampliou sua base de assinantes em 33%, mas grande parte desse crescimento veio de uma parceria com a Claro, ou seja, de um público que não escolheu a rede Globo, chegou a ela por tabela.
Por que a estratégia tende a falhar
Mas aqui exponho a contradição central. A guinada é muito forte e muito rápida e não é bem aceita nem por parte das pessoas que trabalham na empresa, nem pelo público. Ou seja, a direção pode encomendar novelas com personagens evangélicos e traficantes convertidos, mas não pode impedir que os mesmos autores e diretores incluam, na mesma trama, beijos homoafetivos e pautas de diversidade.
Roteiristas, produtores, atores e diretores de televisão são, em sua ampla maioria, progressistas em termos de costumes. A imposição de uma agenda conservadora de cima para baixo esbarra na visão de mundo da base produtiva que cria o conteúdo. Sem substituir toda essa cadeia, o conteúdo conservador encomendado pela direção será permanentemente contaminado por valores que os criadores carregam.
O segundo é que o público conservador mais radicalizado já tem o YouTube, a TV Record e a TV Jovem Pan. Não precisa da rede Globo e não confia nela. A emissora pode até conquistar uma fatia do conservadorismo moderado, mas ao custo de perder a audiência progressista que sustenta o streaming, os anunciantes de maior valor e o prestígio internacional que novelas como Vale Tudo, indicada ao Rose D’Or em 2025, ainda proporcionam. O resultado é um produto que não satisfaz nem conservadores, nem a audiência cativa da emissora.
Diferentemente de outras emissoras (e do pensamento padrão da esquerda), a rede Globo tem no jornalismo seu principal ativo de marca, afinal é que mantém a credibilidade da emissora. E é justamente o que a diferencia da Record, do SBT e do YouTube. Quando a Globo News abdica do contraditório mínimo para produzir um PowerPoint que omite seletivamente nomes da direita, quando o jornalismo é impedido de cobrir um desfile de escola de samba, a emissora perde o que a diferenciava.
Sem credibilidade jornalística, a rede Globo é apenas mais uma emissora de TV aberta disputando audiência com plataformas digitais que oferecem conteúdo sob demanda, sem intervalo comercial e com algoritmos muito mais eficientes para entregar o que cada indivíduo quer assistir.
O que isso significa para 2026
Diante desse cenário, a tentação da esquerda é concluir que a rede Globo “virou inimiga novamente” e seguir em frente. Parece-me que essa conclusão é equivocada. Os próprios casos analisados neste texto demonstram algo que merece atenção. O PowerPoint sobre Daniel Vorcaro gerou retratação pública em 72 horas, demissões internas e apagamento do material no Globoplay.
No BBB, o favoritismo construído pela produção para perfis conservadores com contrato comercial foi derrotado pelo engajamento real da audiência. A aposta em Jonas e Cowboy não resistiu ao voto do público. A rede Globo tentou, nos dois casos, e nos dois casos foi forçada a recuar. Isso significa que a pressão funciona.
A rede Globo depende de profissionais que pensam diferente da direção. Foram jornalistas da própria emissora que vazaram o protocolo do carnaval. Foi uma ex-repórter com 40 anos de casa que chamou o PowerPoint de “jornalzinho de culto pentecostal”. São roteiristas e diretores progressistas que incluem casais homoafetivos nas novelas mesmo quando a diretriz é agradar evangélicos.
O cancelamento da novela de Gloria Perez por abordar aborto e corrupção virou debate público sobre censura interna. Cada contradição que vaza para a imprensa expõe os limites da guinada. Essa porosidade institucional é uma brecha permanente que a esquerda pode e deve ativar.
O segundo ponto importante é reconhecer que ainda estamos falando do principal grupo de comunicação do país com muita vantagem. O Jornal Nacional alcança 20 milhões de pessoas por edição e continua sendo o horário publicitário mais caro da programação televisiva brasileira.
Em ano eleitoral, nenhum outro veículo brasileiro tem essa capacidade de distribuição. O público que assiste a rede Globo e vota com base em informação televisiva não é o mesmo que consome Jovem Pan ou YouTube de direita. É um público menos radicalizado, mais permeável a dados e argumentos. A existência de um veículo de massa que não é inteiramente controlado pela extrema direita é, em si, um fator que favorece a disputa democrática.
Não porque a rede Globo vá defender a esquerda. Mas porque a obrigação de debate, a pressão competitiva de outros veículos e a presença de profissionais comprometidos com o jornalismo criam limites para a distorção. Limites imperfeitos, mas reais.
Na opinião deste autor, a esquerda precisa abandonar a postura é a indiferença. Tratar a rede Globo como irrelevante ou irrecuperável é ceder o maior campo de disputa de narrativa do país sem combate. O caminho mais razoável é o pragmatismo.
Pressionar erros concretos e documentáveis, como o PowerPoint, exigindo retratação e isonomia. Exigir cobertura equilibrada na campanha eleitoral, com base em fatos verificáveis. Valorizar publicamente os profissionais dentro da emissora que resistem à guinada, porque eles existem e precisam de respaldo externo para manter suas posições. Ocupar os espaços que a própria porosidade da TV Globo oferece, sabendo que novelas com pautas progressistas, jornalistas comprometidos com o contraditório e um público de streaming mais jovem e urbano continuam dentro da mesma instituição que produziu o PowerPoint.
Esses limites são tão verdadeiros que precisamos admitir que Geraldo Alckmin aparecer ao lado de Ana Maria Braga no “Mais Você” para explicar o tarifaço de Donald Trump tem um efeito absurdamente superior em chegar às camadas populares que quaisquer canais de esquerda. Usar o poder da emissora a nosso favor faz muito mais sentido que perder tempo em desqualificá-la.
Finalmente, é importante nos lembrarmos do cenário das eleições: forte polarização, poucos votos não definidos e alta rejeição a Lula, apesar de vários avanços conquistados pelo governo. Para além disso, continuamos em um cenário com alta circulação de fake news e, no qual, pela primeira vez, vídeos, imagens e sons criados por inteligência artificial poderão minar ainda mais nosso ambiente informacional. Nesses momentos, a credibilidade jornalística será importantíssima para debates e para esclarecimentos da população.
Em suma, em 2026, a rede Globo não será aliada contra o bolsonarismo, mas provavelmente também não será aliada do mesmo. E podemos e devemos usar isso a nosso favor na luta pela democracia.
*Rafael Cardoso Sampaio é professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
"A leitura ilumina o espírito".
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