AMÉRICA LATINA - Estados Unidos fortalecem sua influência e desafiam a autonomia da América Latina

Crédito: Ricardo Stuckert/PR

O professor de relações internacionais Antonio Mota aponta como a política externa norte-americana, inspirada na Doutrina Monroe, mobiliza sanções, alianças regionais e estratégias para ampliar seu poder na América Latina

Katarine Flor

A atuação recente dos Estados Unidos na América Latina é interpretada como uma retomada de sua tradição histórica de política externa, remontando à Doutrina Monroe (1823), que estabeleceu o hemisfério ocidental como área de influência predominante de Washington.

Ao longo do tempo, essa lógica foi adaptada a diferentes contextos, como a política do “big stick” de Theodore Roosevelt e, mais recentemente, pelo governo de Donald Trump, reforçando a ideia de que a região constitui um espaço estratégico de interesse econômico, político e tecnológico, especialmente na disputa com a China.

Historicamente, a influência norte-americana incluiu intervenções diretas, como o golpe em Guatemala (1954) e a pressão contra a Revolução Cubana, exemplificando estratégias de sanções, bloqueios e ações políticas regionais. No presente, instrumentos contemporâneos incluem sanções econômicas, pressão diplomática, políticas migratórias e alinhamentos com governos de direita ou extrema direita na região, como os de Nayib Bukele (El Salvador) e Javier Milei (Argentina). O Brasil, por seu peso econômico, territorial e diplomático, assume posição estratégica nesse contexto.

Para a esquerda latino-americana, o cenário atual impõe dilemas estratégicos: mesmo governos progressistas moderados, como os liderados por Lula e Chávez, enfrentam pressões externas. A resposta pode passar por moderação institucional ou pela reconstrução de uma tradição anti-imperialista contemporânea, que incorpore questões ecológicas, defesa da democracia e autonomia internacional.

Nesta entrevista, conversamos com Antonio Mota, professor do curso “O Legado Revolucionário de Rosa Luxemburgo”, produzido pelo escritório de São Paulo da Fundação Rosa Luxemburgo. Doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (2022), mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo (2017) e graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Ceará (2012), Mota analisa a continuidade da influência norte-americana na região e os desafios estratégicos para a esquerda latino-americana frente a novas formas de pressão geopolítica.

Como você avalia a atuação do governo dos Estados Unidos em relação à América Latina?

No caso do governo de Donald Trump, há a recuperação de um marco de longa duração da política externa norte-americana para a região. Trata-se de uma tradição que remonta ao século XIX, conhecida como Doutrina Monroe, formulada em 1823 e sintetizada na ideia de que “a América é para os americanos”.

Ao longo do tempo, essa doutrina foi sendo atualizada e consolidou a noção de que os Estados Unidos seriam a principal força política do chamado Hemisfério Ocidental. No início do século XX, essa lógica também se manifestou na chamada política do big stick, associada ao governo de Theodore Roosevelt, especialmente no contexto da construção do Canal do Panamá.

O governo Trump se insere nessa tradição histórica de imperialismo norte-americano, mas o faz de forma ainda mais explícita. O que chama atenção é a brutalidade com que a América Latina aparece em documentos oficiais do governo.

Na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, por exemplo, ficou evidente a retomada dessa tradição. Autoridades norte-americanas chegaram inclusive a se referir à Doutrina Monroe como “Doutrina Donroe”, em alusão direta ao nome de Donald Trump.

Esse posicionamento também aparece em manifestações públicas do governo, que afirmou reiteradamente que “este é o nosso hemisfério”, sinalizando que não aceitaria a presença ou a influência de potências como a China na região.

Essa postura coloca a América Latina no centro da disputa geopolítica contemporânea, marcada pela rivalidade entre Estados Unidos e China – algo que muitos analistas descrevem como uma nova Guerra Fria.

Quais instrumentos os Estados Unidos utilizam para influenciar os países da região?

A política externa dos Estados Unidos para a América Latina possui uma longa tradição de intervenção, que remonta à Doutrina Monroe. O que vemos atualmente é um aprofundamento dessa lógica.

Mas não se trata de um aprofundamento marginal. Há um salto, vinculado à ideia de que os Estados Unidos podem agir conforme sua própria interpretação da realidade internacional.

Diferentemente de outros momentos históricos, em que esse tipo de intervenção era acompanhado por discursos de defesa da democracia ou dos direitos humanos, no contexto atual esse verniz retórico praticamente desaparece.

Esse padrão não é novo. Ao longo do século XX houve inúmeros episódios de ingerência direta na região. Um exemplo clássico foi a derrubada do governo de Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954. Outro marco importante foi a reação dos Estados Unidos à Revolução Cubana.

A existência de Cuba como um projeto político antagônico aos interesses de Washington sempre foi vista como inaceitável pela política externa norte-americana. Por isso, a ilha acabou se tornando uma espécie de laboratório das estratégias de pressão utilizadas pelos Estados Unidos na região.

Isso incluiu tentativas de assassinato de Fidel Castro, a Invasão da Baía dos Porcos e o bloqueio econômico que permanece em vigor até hoje.

No governo Trump, essas pressões foram intensificadas. Um exemplo foi o endurecimento das sanções econômicas que afetam o acesso da ilha a recursos energéticos.

Essa estratégia pode ser descrita como uma espécie de movimento de pinça: de um lado, o aprofundamento do bloqueio econômico; de outro, a pressão política permanente e a presença militar dos Estados Unidos no Caribe.

Além disso, a política migratória também se tornou um instrumento de pressão. O discurso de Washington frequentemente associa países latino-americanos ao narcotráfico e ao crime organizado, reforçando estigmas que sustentam políticas de deportação em massa.

Como os governos de extrema direita da região se relacionam com essa política?

Outra forma pela qual os Estados Unidos atuam na América Latina é tentando influenciar resultados eleitorais e construir uma convergência política de governos alinhados a Washington.

Um exemplo evidente é a relação entre Trump e o governo de Nayib Bukele em El Salvador. Há hoje um alinhamento bastante visível entre os dois governos.

El Salvador, por exemplo, aceitou receber migrantes deportados pelos Estados Unidos em seu sistema penitenciário, algo que evidencia o grau de cooperação política existente.

Outro caso frequentemente citado é o apoio político e financeiro dado ao governo de Javier Milei na Argentina. Sinalizações econômicas vindas de Washington podem influenciar percepções internas e fortalecer determinados projetos políticos.

Se observarmos o mapa político recente da América Latina, veremos que várias eleições resultaram no fortalecimento de forças de direita ou de extrema direita. Entre os exemplos estão o avanço político de José Antonio Kast no Chile e mudanças recentes em países como Equador.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição estratégica. Por seu peso econômico, territorial e diplomático, o resultado das eleições brasileiras tem impacto significativo no equilíbrio político da região.

Como essas ações podem afetar o Brasil?

Por ser a maior economia da América Latina e possuir grande peso diplomático, o Brasil está no centro da política externa norte-americana para a região.

Há indícios de interlocução entre setores da extrema direita brasileira e o governo de Donald Trump. Episódios de tensão comercial, como o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros, foram interpretados por analistas como parte desse ambiente político.

A própria presença diplomática norte-americana no país revela o interesse estratégico de Washington. A construção de um novo complexo da embaixada dos Estados Unidos em Brasília, de grandes proporções, simboliza esse investimento diplomático.

Além disso, o governo Trump tem demonstrado disposição para utilizar diferentes instrumentos para influenciar disputas políticas em outros países – desde declarações públicas até articulações diplomáticas e uso intensivo de redes sociais.

Diante desse histórico, é plausível imaginar que mecanismos semelhantes possam aparecer também no contexto político brasileiro.

Como você avalia a atuação da esquerda latino-americana diante desse cenário?

Primeiro é importante diferenciar as esquerdas existentes na região.

Durante o início do século XXI, diversos governos progressistas chegaram ao poder na América Latina. Muitos deles procuraram se apresentar como uma esquerda moderada e institucional, distinta das experiências revolucionárias representadas por Cuba ou pela Venezuela.

Um exemplo foi a relação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, em que o governo brasileiro frequentemente buscava se apresentar como uma alternativa de esquerda democrática e aberta ao diálogo internacional.

No entanto, o cenário atual cria um impasse para essas forças políticas. Se até mesmo posições moderadas passam a ser alvo de pressão externa, surge a necessidade de repensar estratégias.

Uma possibilidade seria aprofundar ainda mais a moderação política. Outra, mais coerente do ponto de vista estratégico, seria reconstruir uma tradição anti-imperialista adaptada às condições do século XXI.

Esse novo anti-imperialismo precisaria incorporar temas centrais do mundo contemporâneo, como a crise ecológica, a defesa da democracia e a busca por maior autonomia nas relações internacionais.

Como as ideias de Rosa Luxemburgo ajudam a pensar esse cenário?

A obra de Rosa Luxemburgo oferece algumas pistas importantes para compreender essas dinâmicas.

Em textos reunidos em Questão das Nacionalidades e Autonomia, publicados entre 1908 e 1909, ela discute os limites do nacionalismo das elites latino-americanas. Para Luxemburgo, embora essas elites tenham conduzido os processos de independência política, muitas vezes mantiveram estruturas econômicas baseadas na exportação de matérias-primas e na reprodução dos interesses das classes dominantes.

Ao analisar o caso do Brasil, por exemplo, ela menciona o impacto ambiental da expansão da economia cafeeira no Vale do Paraíba, entre Rio de Janeiro e São Paulo, como exemplo das consequências ecológicas de um modelo econômico baseado em monoculturas exportadoras.

Essas reflexões ajudam a entender como a América Latina expressa de forma clara as contradições do capitalismo global.

Hoje, essas contradições aparecem também no chamado neoextrativismo. Empresas transnacionais podem gerar crescimento econômico, mas frequentemente deixam impactos sociais e ambientais significativos.

No Brasil, crimes ambientais como os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho –associados à atuação da mineradora Vale – ilustram bem essas tensões.

Esses exemplos mostram como o avanço do capitalismo pode combinar transformação econômica com diferentes formas de violência social e ambiental.

Nesse sentido, o pensamento de Rosa Luxemburgo continua oferecendo ferramentas relevantes para analisar essas dinâmicas e pensar alternativas para a América Latina – alternativas baseadas em justiça social, autonomia internacional, participação popular e respeito ecológico.

Katarine Flor é jornalista, coordenadora de comunicação da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil e Paraguai.

"A leitura ilumina o espírito".

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários