Como Irã e China deram forma ao tabuleiro da guerra

China-Irã (Foto: Xinhua/Zhai Jianlan)


Os fatos no campo de batalha mostram que a China também alterou as regras da guerra no Irã

Pepe Escobar
brasil247.com/

A resposta de dupla-via da China à guerra dos Estados Unidos-Israel contra o Irã reflete uma estratégia geopolítica e econômica mais ampla, que vai do campo de batalha ao sistema financeiro global.

A resposta oficial da China ao Sindicato Epstein – ou Estados Unidos e Israel – sobre a guerra contra o Irã vem se dando por duas vias paralelas – um porta-voz diplomático e outro militar.

Tradução: a China vê a guerra tanto como uma tensão político-diplomática extrema e como uma ameaça militar.

O porta-voz militar da China, um coronel do Exército de Libertação Popular (ELP), fala por meio de metáforas. Foi ele quem disse explicitamente que os Estados Unidos são “viciados em guerra”, com apenas 250 anos de história e apenas 16 de paz.

Ele, com toda a clareza, coloca os Estados Unidos como uma ameaça global. E, claramente, também como uma ameaça moral (itálicos meus).

O Presidente chinês Xi Jinping está firmemente focado em estabelecer uma conexão duradoura entre o marxismo e o confucionismo.

A grande contribuição de Confúcio para o pensamento político foi o uso preciso da linguagem. Apenas aquele que fala com metáforas precisas e peso moral é capaz de governar uma nação.

A China, portanto, vem desenvolvendo com máximo cuidado uma firme crítica moral e ética da guerra eletiva desencadeada pelos Estados Unidos contra o Irã. Enfatizando o fato de que esse é o ataque de uma nação que perdeu sua bússola moral.

O Sul Global entende perfeitamente a mensagem.

Além disso, os fatos no campo de batalha mostram que a China também alterou as regras da guerra no Irã.

A rede iraniana está agora totalmente conectada ao sistema de satélite BeiDou. Isso explica por que o Irã agora ataca com precisão, e que cada movimento do combo Estados Unidos-Israel se depara com um Muro Digital da tecnologia chinesa (mais de 40 satélites BeiDou em órbita). E explica também a excelente precisão dos mísseis iranianos e sua crescente resistência a interferências.

Como parte de sua Parceria Estratégica Ampla de 25 anos, a China também forneceu ao Irã radares de longo alcance, integrados a sistemas de satélite. O principal resultado é a resposta muito mais rápida do Irã, se comparada à da guerra de doze dias.

A Rússia ajudou em uma linha paralela, permitindo que o Irã aplicasse o muito que a Rússia aprendeu na Ucrânia sobre sistemas ocidentais como o Patriot e o IRIS-T. Não se trata de táticas de saturação de drones em massa, mas sim de aprender o modo russo de coordenar enxames de drones com saraivadas de mísseis balísticos. É exatamente isso que está operndo de forma devastadora nos estágios mais recentes da Operação True Promise IV.

Jogando Go: é tudo uma questão de petroyuan

Foquemos agora a questão do Estreito de Hormuz. A principal jogada é o Irã só permitir o trânsito de navios-petroleiros cuja carga tenha sido negociada em petroyuan. Nada de dólares. Nada de euros. Só yuans.

A China, de fato, já começou a eliminar o sistema Bretton Woods/petrodólar em dezembro de 2022, quando Pequim convidou as petromonarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) a negociar petróleo e gás na Bolsa de Valores de Xangai.

Agora, acoplemos tudo o que foi dito acima ao 15º Plano Quinquenal chinês, que acaba de ser discutido e aprovado em Pequim.

É isso que se chama visão sistêmica profunda.

De maneira bastante holística, os planejadores de Pequim fixaram um crescimento do PIB de quatro por cento; a economia digital avançando para 12,5 por cento do PIB; soluções de energia verde para 25 por cento; qualidade de água de superfície para 85 por cento; uma avalanche de patentes de alto valor, tudo isso e ainda mais, igualmente tabulado, com metas difíceis de serem atingidas e indicadores obrigatórios até 2030.

O que significa que os chineses estão tratando economia, segurança energética, ecologia, educação e saúde como se fossem órgãos de um mesmo corpo saudável. É assim que a urbanização alimenta a produtividade: um grande volume de investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento alimenta um número cada vez maior de patentes, as patentes alimentam a economia digital e as soluções de energia verde alimentam a independência estratégica.

O Plano Quinquenal mais recente mostra conclusivamente que a China vem planejando meticulosamente assumir a liderança do futuro tecnológico que se avizinha. E isso vai muito além de 2030, até chegar a meados do século.

Não é de admirar que a eliminação do petrodólar seja um elemento importante desse processo de mudança do atual sistema de relações internacionais. O Irã, agora, está oferecendo de bandeja essa possibilidade, ao substituir o petrodólar pelo petroyuan no ponto de estrangulamento mais crítico do planeta, pelo qual passam vinte por cento do petróleo global.

O jogo do Irã não é militar; é financeiramente nuclear (itálicos meus) . O que facilita tudo é que o Irã já vem oferecendo o modelo a ser seguido pelo restante do Sul Global: quase 90 por cento das exportações de petróleo cru de Teerã são em yuan, usando o sistema de pagamento CIPS.

O Sul Global poderá, futuramente, adotar esse modelo de grande simplicidade. Teerã não diz que o Estreito de Ormuz está bloqueado. Ele está bloqueado apenas para o hostil Sindicato Epstein – os Estados Unidos – e seus minions que negociam em petrodólares. Rotas marítimas vêm sendo convertidas em filtros políticos em tempo real. À medida que o Sul Global migra para o petroyuan, o petrodólar hegemônico – desde1974 – vai para o buraco.

A essas alturas, todos os negociantes do planeta sabem como o petrodólar funciona. Após o choque do petróleo de 1973, o Conselho do Golfo (CCG) e a OPEC concordaram, em 1974, que o petróleo só seria negociado em dólares dos Estados Unidos.

Os exportadores terão, necessariamente, que reciclar seus lucros em dólar, convertendo-os de volta a títulos e ações do Tesouro dos Estados Unidos. O que reforça o papel do dólar como moeda de reserva, financia os investimentos estadunidenses em tecnologia e o complexo industrial-militar e suas Guerras Eternas e, acima de tudo, financia de fato a impagável dívida dos Estados Unidos.

China, Rússia e Irã, como membros dos BRICS, estão na linha de frente dos esforços para fazer avançar os sistemas de pagamento alternativos, o que, crucialmente, implica o abandono do petrodólar.

Isso, portanto, significa muito mais do que controlar o petróleo – a razão alegada para a caótica e improvisada “excursão” (terminologia de Trump) ao Irã.

Para todos os fins práticos, os fatos no terreno já indicam um Colossal Fracasso. O que alcançou um outro patamar nunca antes visto foi o contragolpe.

A Guarda Revolucionária Islâmica segue Sun Tzu

Usar o Estreito de Ormuz como arma é puro Sun Tzu revisado pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI). Tanto um corredor de conectividade – o Estreito de Ormuz - quanto uma moeda – o yuan – são agora armas de destruição imperial. Quem precisa de uma bomba nuclear?

O que está em jogo é o controle do sistema financeiro global – muito além de 2030, chegando até meados do século e mais além. O que estamos assistindo em tempo real são os persas jogando xadrez – que eles jogam como ninguém – mas com elementos do weiqi chinês (“Go”, em inglês).

O Go é orgânico. Quando as pedrinhas usadas no jogo se conectam, elas moldam a forma e o controle de longo prazo por todo o tabuleiro. Em nosso caso, o tabuleiro geopolítico/geoeconômico. É tudo é uma questão de posicionamento, paciência, acúmulo de vantagens e estratégia de gerenciamento.

Esse é o “segredo” de por que razão a guerra contra o Irã agora oferece à China a jogada decisiva. Há anos, Pequim, com infinita paciência, vem dando forma ao tabuleiro: criando um conjunto de instituições multilaterais, desempenhando um papel crucial nos BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai (OCX), construindo as Novas Rotas da Seda (ICR), investindo em sistemas de pagamento alternativos e turbinando sua diplomacia.

O Go é extremamente racional. Se você der forma ao tabuleiro da maneira correta, você não perderá. O jogo joga a si mesmo. É aí que estamos agora. E é por isso que o Vociferador Imperial, juntamente com seus puxa-sacos, facilitadores e vassalos, estão pasmos e petrificados: prisioneiros de seu próprio pântano de hubris.

*Tradução de Patricia Zimbres

"A leitura ilumina o espírito".

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários