Crítica da humanidade europeia: um diálogo com Fanon


Por Érico Andrade
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“O ocidente quis ser uma aventura do Espírito. Foi em nome do Espírito – do espírito europeu, entende-se – que a Europa justificou seus crimes e legitimou a escravidão na qual mantinha quatro quintos da humanidade” 
“O intelectual colonizado vai tentar tornar sua a cultura europeia”
— Frantz Fanon, em Os condenados da terra 

A ideia de que a promoção da modernidade passa por um processo de modernização implicou historicamente no Brasil a destruição e exploração do que representa o antimoderno, o primitivo ou o selvagem. Assim, onde se dizia que não havia nada, no vasto território nacional, havia uma vida pulsante e cuja organização política era diferente dos modelos civilizatórios europeus. É precisamente essa ideia de modernização associada à noção de progresso que é objeto da crítica contundente de parte significativa do pensamento indígena e negro. Afinal, esses povos foram e ainda são as maiores vítimas dos projetos de modernização no Brasil. 

Nesse contexto, para o debate nacional importa menos a decolonização, inscrita no chamado giro decolonial, do que aquilo que se retém no Brasil de uma posição contracolonial ou anticolonial. Isto é, uma posição contra a modernidade colonial. O significado da palavra, sabemos, depende do contexto. Por isso, não há anacronismo em se reconhecer que as lutas contracoloniais antecedem a própria formulação do giro decolonial, porque o que está no centro é uma crítica à modernidade europeia no que ela produziu de exclusão ou, nas palavras de Paulo Arantes: “A modernidade pode ser resumida, assim, em uma guerra civil dos cidadãos contra os não cidadãos: o preço do progresso é o sacrifício de pobres, negros, indígenas, camponeses e mulheres, necessários ao enriquecimento de poucos” (Arantes, 2024). Essa crítica, que tem uma vasta história no nosso território, encontra também bases sólidas no pensamento de Fanon. 

O esforço de parte do pensamento brasileiro crítico, sobretudo negro e indígena, foi de denunciar o apagamento, na instância máxima de regulamentação do conhecimento científico — a universidade —, de várias tradições gestadas no Brasil, em nome de uma modernização, que tal qual a modernidade europeia, é marcada por uma imposição da cultura europeia como centro de referência, especialmente na filosofia. 

É nesse sentido que textos como o de Vladimir Safatle, “O FMI universitário”, colidem com a realidade. Os currículos de filosofia e os autores estudados nos programas de pós-graduação em filosofia são massivamente europeus, homens e brancos. Todos os estudos feitos na área de filosofia que mapeiam a produção filosófica no Brasil refutam empiricamente a existência de qualquer agenda universitária que não seja a mesma a partir da qual a filosofia foi institucionalizada no Brasil. O pensamento europeu reina soberano. 

Assim, ainda que haja, claro, pensadores europeus críticos da modernidade europeia, é notável que a maioria deles não está disposta a relativizar a centralidade da Europa, e a menção a culturas não europeias, quando não é marginal, é para simplesmente marginalizar o que não é expressão da cultura europeia. Ou seja, mesmo uma crítica da modernidade europeia feita por filósofos europeus é uma conversa, como afirma Ailton Krenak, de branco para branco, na qual as demais culturas não participam e no máximo podem ser objeto de estudo. 

Talvez seja neste sentido que, certa vez, em conversa com Krenak, ele me dizia que a academia e mais especificamente a filosofia era uma “merda” e que, para ele, a maioria dos filósofos comporia o que ele chama de “clubinho da humanidade”, visto que parte dos filósofos foram os responsáveis por traçarem uma hierarquia racial e espiritual entre os povos, reputando os indígenas juntamente com os negros ao mais abaixo dos subterrâneos. É por essa razão que, para Krenak: “A história da filosofia e toda essa imensa construção, desde os gregos, não me interessa. Me interessa a cosmovisão, me interessa a insurgência de um pensamento que, ao longo do tempo histórico, foi desprezado, marginalizado, estigmatizado”. A história da filosofia foi construída pelos europeus para a consolidação do próprio pensamento europeu, de sorte que todo pensamento que não está enquadrado nessa matriz europeia ficou longe dos currículos de filosofia e das produções filosóficas de forma geral (artigos, dissertações, doutorados etc.).

Desse modo, pessoas que assistiram à morte dos seus territórios em nome de uma modernização que elas não escolheram e pessoas que foram dizimadas para que a colonização acontecesse não poderiam guardar uma relação com a modernização que não fosse crítica. Em outras palavras, o ponto é que a colonização que roubou a vida de inúmeras pessoas cujos vestígios (Sharpe, 2023) se perderam no mar — pessoas que quando não morreram no caminho para a América foram pela América mortas, por uma violência que só a Europa foi capaz de produzir em larga escala — é agora denunciada nas universidades para que as culturas que formaram o Brasil possam ter protagonismo epistêmico. Estamos falando aqui de sobrevivência dos saberes negros e indígenas no seio da instituição que foi criada, no máximo, para tomar o negro e o indígena como objeto de estudo. Como escrevi em Negritude sem identidade, os nossos corpos entram na universidade inicialmente como cadáveres para as aulas de anatomia e criminologia (Andrade, 2023). E essa denúncia é feita muitas vezes recorrendo-se a uma ancestralidade, no sentido de recuperar epistemologias e histórias que foram sistematicamente apagadas para que pensadores europeus ocupassem toda a grade curricular da filosofia no Brasil. Temos mais o que fazer, como diria Fanon em Os condenados da terra, do que “seguir essa Europa” (Fanon, 2022, p.83).  

É nesse contexto que aquilo que as pessoas negras e indígenas têm entendido no Brasil por descolonial ou anticolonial não é uma negação de que as condições materiais da vida da classe trabalhadora seja deplorável e de que é preciso em algum sentido derrubar o capitalismo, mas consiste em apontar que sem levar em consideração as questões de gênero, de raça e de território uma revolução brasileira corre o risco de não ser radicalmente efetiva para vários grupos sociais — grupo que muitas vezes em nome de certos ideais de modernidade foram dizimados. Longe de estarem paralisados numa espécie de letargia mística, esses grupos têm se organizado para o fomento de políticas públicas e para que a universidade brasileira não seja uma extensão da Europa. Sem o movimento negro não teríamos uma política de cotas, e esse debate sobre a teoria decolonial não teria tido impacto.

É se manter colonizado achar que a decolonização é uma pauta que entrou em vigor por conta do chamado giro decolonial, quando temos uma vasta tradição de pensamento brasileiro que escrevia e colocava em xeque a colonização antes da produção acadêmica de Quijano ou Dussel. O que se tenta a duras penas e no enfrentamento de fortes resistências é quebrar o monopólio institucional do pensamento europeu. É, nesse sentido, que podemos caminhar com Fanon quando ela aponta para a necessidade de que “decidamos não imitar a Europa e orientemos nossos músculos e cérebros numa nova direção” (Fanon, 2022, p.83). 

Referências 

Andrade, Érico. Negritude sem identidade: sobre as narrativas singulares das pessoas negras. São Paulo: N-1, 2023. 

Andrade, Érico. Contra a monocultura brancaRevista Piauí, 2026. 

ANPOF. Alguns dados para pensar o currículo e a excelência na área de filosofia: por uma filosofia pluriversal, 2023.

Arantes, Paulo. Prefácio. In: OLIVEIRA, Pedro Rocha de. Discurso filosófico da acumulação primitiva: estudo sobre as origens do pensamento moderno. São Paulo: Editora Elefante, 2024. 

​​Césaire. Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1978.

Fanon, Frantz. Os condenados da terra. São Paulo: Zahar, 2022. 

Fanton, Marcos; Araújo, Carolina; Canuto, Raquel; Seixas, Mitieli; Mota, Hugo. Pesquisa filosófica no Brasil: uma abordagem por structural topic modeling com focos em tendências temporais e de gênero. Revista o Manguezal, 2026. 

Safatle, Vladimir. Quem pensa abstratamente? Revista Piauí, 2026 

Safatle, Vladimir. O Grande FMI universitárioRevista Piauí, 2026.

Sharpe. Christiana. No vestígio: existência e negritude. São Paulo: Ubu, 2023.  

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Érico Andrade é psicanalista, filósofo e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

"A leitura ilumina o espírito".

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