Omar dos santos
Se a Organização das Nações Unidas – ONU deixasse de existir hoje, é possível que os xenofióforos** organizariam grandes manifestações para o seu reestabelecimento.
A Organização das Nações Unidas (ONU) foi fundada em 1945, logo após o fim da 2ª Guerra Mundial para substituir a Liga das Nações (LN), que foi criada em 1920, após a 1ª Guerra Mundial com a missão de manter a paz e a segurança internacionais, cuja atuação resultou no mais completo fiasco.
Como predecessora da LN, a ONU foi concebida com a missão principal de garantir à humanidade, entre outros objetivos, a tão almejada paz e a sonhada segurança internacional, devendo para isto mediar conflitos litigiosos e evitar guerras, contudo, o balanço de seus quase 96 anos demonstra que ela seguiu o mesmo “rosário doloroso” de fracassos de sua antecessora.
Sob sua regência como órgão mundial supremo de defesa e manutenção da paz mundial, da justiça internacional e dos direitos humanos, o mundo vem experimentando com amargor invasões de nações soberanas, despojos de territórios, expulsões de moradores de sua terra, desrespeitos aos direitos básicos da pessoa e dos animais, genocídios horrendos, crimes contra o planeta etc. E o que faz a ONU? Emite notas de repúdio e resoluções condenatórias, convoca assembleias gerais e, de acordo com o poder de influência dos envolvidos, envia contingentes militares em missão de paz para os conflitos e como “drástica”, convoca o Conselho de Segurança para votar proposta de solução da crise. Ação, que na maioria das vezes chega a lugar nenhum e termina com um veto de um ou mais de seus cinco membros.
Em face da sua grande e nobre missão institucional, quando olho para os resultados práticos do trabalho da ONU nesses 96 anos de existência, afirmo com toda segurança que ela foi e continua sendo uma tribuna de debates absolutamente inócuos e ineficazes. Se alguém duvida, basta olhar para o momento de aflição e perigo em que vivemos. Parece-me que estamos no limiar da 3ª Guerra Mundial. E a ONU continua fazendo o que sempre fez. Nada.
Mas como todo fenômeno social tem explicações, a inércia da ONU também as tem e as tem em quantidade, mas me contento com a abordagem do qual julgo o mais grave: a realidade de que ela, ONU, tem um dono. Senão vejamos.
Para cultura ocidental não há nenhuma dúvida de que os Estados Unidos da América EUA venceram, e muitos acham que sozinhos, a 2ª Guerra Mundial, mesmo que a História nos forneça provas inconteste de que isto não é verdade. Como um dos vencedores, eles adquiriram um poder econômico e bélico que jamais tiveram antes do conflito e os usaram para conquistar um poder político internacional que também não tinham, estabelecendo-se então como nação hegemônica mundial. É nesse contexto que se dá todo o processo de criação da ONU e que explica os porquês de ela ter um dono, os EUA.
Assim, não só em seu “doloroso parto”, mas nas 2ª e 3ª idade, como também na fase atual da vida, a “criatura” foi moldada e adestrada segundo os interesses e a doutrina do “criador”, que para isso usou muito bem sua hegemonia política, econômica e bélica.
Isto esclarece o intransponível paradoxo que vinca a natureza da ONU; “uma instituição criada para manter a paz, mas filha de um ente belicoso”. Sim, não só o Estado, mas a maioria dos governantes americanos e a maior parte do povo americano amam a guerra, somente pela guerra. Vejam os leitores alguns exemplos que confirmam o que falo.
Vejam de que os EUA são capazes em termos de terrorismo de Estado: Já assassinaram vários presidentes de outras nações como Salvador Allende, João Gulart, Cesar Sandino, Muamar Kadafi, Saddam Hussein entre outros tantos. Por mais de vinte vezes tentaram assassinar Fidel Casto e agora, Ali khamenei, além de raptarem Nicolás Maduro na Venezuela.
Se existe uma coisa em que eles se especializaram como ninguém, é na capacidade de organizar golpes em todo mundo para remover governantes eleitos. Para não me alongar cito só alguns exemplos: México, Nicarágua, Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai e Brasil, na América Latina. Angola, Mali, Burkina Faso, Níger, Guiné, na África. Irã, Iraque, Indonésia, Vietnã do Sul, Filipinas, na Ásia. Itália, Grécia, Ucrânia, na Europa.
Tenho defendido diante dos americanófilos que conheço, alguns parentes e amigos, a seguinte verdade: O povo americano vai bem porque o resto do mundo vai mal. Para isto, os Estados Unidos, o governo e o povo americano se veem como a nação tutora de todos os povos da Terra, quiçá do universo. Eles acreditam que possuem o direito de cuidar da ordem mundial segundo suas crenças e seus princípios. Acreditam que o resto do mundo só existe para servir a “América” e isto explica o maior traço da sociedade americana, a mania de ingerência no que não lhes diz respeito. Compartilho da corrente dos que acreditam que o mundo pós 2ª Guerra Mundial seria um lugar muito mais generoso, solidário e pacífico sem a existência dos Estados Unidos da América.
Pois bem, aqui volto à questão da ONU. Com um “Dono e Senhor” desta estirpe, há que se perguntar: Qual a serventia da instituição? Para mim, não havendo possibilidade de mudança radical dela, e parece que por hora não há, ela continuará sendo um engodo, uma falácia.
Neste momento em que o mundo assiste tantas guerras regionais como nunca, momento em que estamos à beira de uma guerra total, que em se confirmando levará certamente a humanidade e parte da vida ao fim, o que de concreto e útil faz a ONU? Talvez por estarmos na “quaresma”, ela cumpre seus fervorosos votos de silêncio e reclusão.
Dictum et apertum* - Curto e grosso em latim.
Xenofióforos** - Animais unicelulares habitantes das profundezas escuras das Fossas das Marianas.
Omar dos santos, professor aposentado. Mora em Brasília
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