Fundado por imigrantes, arruinado por bilionários.

Entrada do estádio Old Trafford do Manchester United (Steven Haslington, via Wikimedia Commons).

TRADUÇÃO: NATALIA LÓPEZ

O discurso anti-imigração do dono do Manchester United, Jim Ratcliffe, revela uma ignorância impressionante sobre o papel que os imigrantes desempenharam na construção do clube e os danos causados ​​por bilionários gananciosos como ele.

A afirmação de Jim Ratcliffe, co-proprietário do Manchester United, de que o Reino Unido foi "colonizado por imigrantes" evidencia uma grande contradição. Poucas instituições se beneficiaram tanto da imigração quanto o Manchester United, um clube construído por pessoas que cruzaram fronteiras em busca de oportunidades. A imigração impulsionou o sucesso da equipe, enquanto falhas de gestão e uma administração focada apenas no lucro o corroeram.

Essa contradição está no cerne do futebol moderno. Antes da final da Liga dos Campeões de 2008 em Moscou, Sir Alex Ferguson proferiu o que vários jogadores descreveram posteriormente como seu melhor discurso motivacional. Patrice Evra lembrou que Ferguson fez o elenco refletir sobre suas origens individuais: países, culturas, religiões e experiências de vida diferentes, unidos por um objetivo comum. O futebol havia transformado estranhos em irmãos.

Aquele vestiário capturou algo fundamental sobre o Manchester United e o futebol moderno em si. O sucesso se baseia na migração: jogadores cruzando fronteiras e trazendo diferentes culturas e experiências para um projeto comum. A história do United não pode ser separada dessa realidade. A difamação de imigrantes por Ratcliffe é, no mínimo, desconfortável. Sua declaração não é apenas inflamatória, mas também imprecisa.

Ele afirmou que a população do Reino Unido havia crescido de 58 milhões em 2020 para 70 milhões atualmente. Estatísticas oficiais mostram que era de cerca de 66,7 milhões em 2020 e a projeção é de que chegue a aproximadamente 69,4 milhões em meados de 2025. Ratcliffe posteriormente se desculpou por "ofender algumas pessoas" com sua "escolha de palavras", sem reconhecer que estava errado. Mas a contradição é ainda mais profunda. O próprio Ratcliffe se mudou para Mônaco em 2020, supostamente evitando o pagamento de mais de £ 4 bilhões em impostos, enquanto culpava os imigrantes pelos problemas econômicos da Grã-Bretanha.

A história colonial britânica desempenhou um papel central no deslocamento global de populações, agora responsabilizadas por problemas contemporâneos. Os migrantes tornaram-se bodes expiatórios convenientes para fracassos que têm origem em outros lugares: má governança, liderança fraca e tomada de decisões ineficaz. O Manchester United reflete cada vez mais essa realidade mais ampla.

A empresa de Ratcliffe, a INEOS, renovou o contrato de Erik ten Hag em 2024 e o apoiou fortemente no mercado de transferências, apenas para demiti-lo meses depois a um custo significativo. Seu sucessor, Ruben Amorim, chegou por uma quantia substancial, mas foi demitido em janeiro de 2026 sem completar uma temporada inteira. Apenas três meses antes, Ratcliffe havia dito que daria a Amorim três anos no cargo para provar seu valor. Outro exemplo é a nomeação de Dan Ashworth como diretor esportivo (a um custo considerável), que saiu depois de apenas alguns meses, mesmo após Ratcliffe declarar publicamente que "Ashworth é um diretor esportivo nota 10".

Esses contratempos sugerem um padrão de tomada de decisão reativo, e não uma estratégia esportiva coerente. No entanto, os problemas estruturais mais profundos do Manchester United são anteriores à chegada de Ratcliffe e da INEOS. Eles decorrem do modelo de propriedade financeirizado introduzido pelos Glazers.

A aquisição do Manchester United pela família Glazer em 2005, por meio de uma operação alavancada, deixou o clube com uma dívida considerável, transformando, na prática, a receita futura em um meio de quitar as obrigações financeiras. Nas duas décadas seguintes, mais de £ 1 bilhão saiu do clube em pagamentos de juros, dividendos e taxas relacionadas. Embora os gastos com transferências permanecessem altos, a estratégia de contratações foi mal administrada, pois estava nas mãos de executivos que não possuíam conhecimento suficiente sobre futebol.

Isto é a financeirização em ação: uma instituição esportiva transformada em um veículo de extração. O clube é tratado como um ativo, os torcedores e jogadores como fontes de renda, e a tomada de decisões está cada vez mais dissociada da lógica esportiva. As consequências são claras: mais de uma década sem conquistar o campeonato, anos de contratações incoerentes e um estádio envelhecido que precisa urgentemente de reformas. Não se tratam apenas de fracassos futebolísticos, mas de problemas estruturais.

Em contraste, há o trabalho que realmente construiu a identidade do clube. Liam "Billy" Whelan (que faleceu tragicamente no desastre aéreo de Munique) deixou Dublin para se juntar ao time de Matt Busby. Eric Cantona transformou uma equipe talentosa em campeã. Roy Keane impulsionou a era de domínio de Ferguson. Ole Gunnar Solskjær marcou o gol da vitória mais memorável do clube. Ao longo das gerações, o sucesso do Manchester United foi moldado por pessoas que vieram de outros lugares e remodelaram o clube.

Essa dinâmica continua no elenco atual. O capitão Bruno Fernandes (Portugal), ao lado de Bryan Mbeumo (Camarões), Casemiro e Cunha (Brasil), Amad Diallo (Costa do Marfim), Lisandro Martínez (Argentina) e Senne Lammens (Bélgica). Um dos poucos pontos positivos sob a gestão da INEOS foi a melhora na contratação de jogadores, liderada por Christopher Vivell, um imigrante alemão. Os elencos modernos são internacionais, assim como a base global de fãs do clube sustenta seu poder comercial. Sem a imigração, o Manchester United como o conhecemos, com sua identidade e público globais, não existiria. A contradição destacada pelas declarações de Ratcliffe transcende qualquer indivíduo.

O futebol, assim como a economia em geral, depende de uma força de trabalho que cruza fronteiras, mesmo que as estruturas de propriedade concentrem os lucros em outros lugares. Os migrantes criam valor, enquanto a propriedade financeirizada o extrai. A história do Manchester United torna essa distinção impossível de ignorar.

NICOLAU O'NEILL
Pesquisadora de pós-doutorado na Dublin City University e torcedora do Manchester United.

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