
Donald Trump (Foto: Reuters/Nathan Howard)
Trump transforma a liderança global dos EUA em instrumento de coerção, submissão e ganhos unilaterais de curto prazo
brasil247.com/
Em bom artigo publicado na Foreign Affairs, Stephen M. Walt, professor titular da Cátedra Robert e Renee Belfer de Relações Internacionais na Escola Kennedy de Harvard, afirmou que Trump já foi chamado de realista, nacionalista, mercantilista antiquado, imperialista e isolacionista. Cada um desses termos captura alguns aspectos de sua abordagem, mas a grande estratégia de seu segundo mandato presidencial talvez seja melhor descrita como “hegemonia predatória”.
Correto. Considero, entretanto, que o adjetivo “predatória” seja talvez um tanto eufemístico. Hegemonia mafiosa me parece retratar melhor a natureza brutal do governo Trump.
O objetivo central dessa hegemonia predatória é usar a posição privilegiada de Washington para extrair concessões, tributos e demonstrações de deferência tanto de aliados quanto de adversários, buscando ganhos de curto prazo, sob o prisma de uma visão de mundo que considera as relações entre os países como um jogo de soma zero.
De fato, essa é a visão de mundo do governo Trump, sobre a qual já havia escrito anteriormente.
Segundo Trump e seu séquito de oligofrênicos, para que os EUA obtenham algum ganho ou vantagem, é necessário que os outros países, inclusive aliados, sofram perdas.
A ideia de que as relações possam ser mutuamente benéficas, com os países lucrando com uma cooperação pacífica, não passa pelo cérebro torpe e primitivo de Trump, que se vê como herdeiro político de McKinley, o “Tariff Man”, e de Theodore Roosevelt, o homem do Big Stick.
Pode-se argumentar, é claro, que os EUA sempre foram implacáveis, especialmente quando se viam desafiados.
Mas o paroxismo da hegemonia predatória ou mafiosa é algo novo.
Na época da antiga Guerra Fria, com sua clara bipolaridade, os EUA, de acordo com Waltz, tinham um comportamento mais benevolente e racional, notadamente com aliados.
Com efeito, no mundo bipolar da Guerra Fria, os Estados Unidos atuavam como uma potência hegemônica benevolente em relação a seus aliados próximos na Europa e na Ásia, pois os líderes americanos acreditavam que o bem-estar desses aliados era essencial para conter a União Soviética.
Washington ajudou seus aliados a se recuperarem economicamente após a Segunda Guerra Mundial e criou e respeitou regras destinadas a promover a prosperidade mútua no mundo capitalista.
Isso não impediu, é claro, que Nixon implodisse o padrão-ouro, em 1971, para impor, em definitivo, a implacável hegemonia financeira do dólar. Também não impediu as inúmeras intervenções políticas e militares, especialmente na América Latina, para derrubar governos que não se alinhavam a seus interesses.
Não obstante, os “aliados” raramente eram maltratados ou enfraquecidos.
Já durante a era unipolar, que se seguiu à queda da União Soviética, os EUA, segundo Waltz, sucumbiram à arrogância e se tornaram uma potência hegemônica bastante negligente e obstinada. Sem enfrentar oponentes poderosos e convencidos de que a maioria dos Estados estava ansiosa para aceitar a liderança americana e abraçar seus valores liberais, as autoridades americanas deram pouca atenção às preocupações de outros Estados; embarcaram em cruzadas dispendiosas e equivocadas no Afeganistão, Iraque e diversos outros países; adotaram políticas de confronto que aproximaram a China e a Rússia; e pressionaram pela abertura dos mercados globais de formas que aceleraram a ascensão da China, aumentaram a instabilidade financeira global e, por fim, provocaram uma reação interna que ajudou a impulsionar Trump à Casa Branca.
Porém, mesmo assim, tanto autoridades democratas quanto republicanas acreditavam que usar o poder americano para criar uma ordem liberal global seria bom para os Estados Unidos e para o mundo, e que a oposição séria se limitaria a um punhado de pequenos Estados rebeldes. Os EUA não se opunham a usar o poder à sua disposição para coagir, cooptar ou mesmo derrubar outros governos, mas sua violência era dirigida a adversários declarados e não a parceiros dos EUA.
Com a hegemonia predatória ou mafiosa, essa distinção entre aliados e adversários borrôu-se. Todos são tratados a pontapés tarifários, financeiros e militares.
Porque o objetivo principal de uma potência hegemônica predatória não é construir relações estáveis e mutuamente benéficas que beneficiem todas as partes, mas sim garantir que ela ganhe mais em cada interação do que os outros.
Nessa lógica mafiosa, um acordo que beneficia a potência hegemônica e prejudica seus parceiros é preferível a um acordo em que ambos os lados ganhem, mesmo que esses últimos ganhos sejam maiores.
Conforme Waltz, Trump é tão propenso a coagir aliados tradicionais dos EUA quanto adversários declarados, e a natureza intermitente de suas ameaças ressalta seu desejo de obter o máximo de concessões possível. Trump acredita que a imprevisibilidade é uma poderosa ferramenta de negociação, e seu conjunto de ameaças e exigências em constante mudança visa forçar os outros a buscarem novas maneiras de acomodá-lo.
Ameaçar impor uma tarifa custa muito pouco a Washington se o alvo ceder rapidamente, mas, se o alvo se mantiver firme ou se os mercados se assustarem, Trump pode adiar a ação. Essa abordagem também mantém a atenção voltada para o próprio Trump, ajuda o governo a apresentar qualquer acordo subsequente como uma vitória, independentemente de seus termos precisos, e cria oportunidades óbvias para a corrupção que beneficia Trump e seu círculo íntimo.
Trump, frise-se, já se tornou bilionário.
Além da imprevisibilidade, Trump também usa a tática do desengajamento militar para obter vantagens assimétricas.
Ele insistiu que os aliados deveriam pagar pela proteção americana e sugeriu que os Estados Unidos poderiam deixar a OTAN, recusar-se a ajudar na defesa de Taiwan ou abandonar completamente a Ucrânia. Mas seu objetivo não é tornar as parcerias com os EUA mais eficazes, fazendo com que os aliados se esforcem mais para se defender — e, na verdade, o aumento drástico das tarifas prejudicará as economias dos parceiros e dificultará o cumprimento de metas mais ambiciosas de gastos com defesa.
Em vez disso, Trump está usando a ameaça de desengajamento americano para obter concessões econômicas. Essa estratégia rendeu alguns dividendos de curto prazo, pelo menos no papel. Em julho, os líderes da UE aceitaram um acordo comercial unilateral na esperança de convencer Trump a continuar apoiando a Ucrânia, e o Japão e a Coreia do Sul tiveram suas tarifas reduzidas, em acordos assinados em julho e novembro, respectivamente, mediante a promessa de investir na economia americana. A Austrália, a República Democrática do Congo, o Paquistão e a Ucrânia procuraram consolidar o apoio dos EUA oferecendo aos Estados Unidos acesso ou propriedade parcial de minerais críticos localizados em seus territórios.
Como um mafioso, ou um miliciano, Trump “vende proteção”.
Outra tática para imposição da hegemonia predatória é, como já havia afirmado em artigos anteriores, a da “bilateralização” das relações internacionais.
Não surpreendentemente, Trump demonstrou pouco apreço pelas Nações Unidas; não hesitou em romper acordos negociados por seus antecessores, como o Acordo de Paris sobre o clima e o acordo nuclear com o Irã; e até mesmo descumpriu acordos que ele próprio negociou.
Ele prefere, obviamente, conduzir negociações comerciais bilaterais em vez de lidar com instituições como a União Europeia ou a Organização Mundial do Comércio, baseada em regras, porque negociar diretamente com cada país aumenta ainda mais a influência dos EUA e incrementa, exponencialmente, a probabilidade de extrair vantagens assimétricas.
Divide et impera.
Para Waltz, nenhuma discussão sobre a hegemonia predatória de Washington estaria completa sem mencionar o interesse declarado de Trump em territórios que pertencem a outros Estados e sua disposição em intervir na política interna de outros países, violando o direito internacional. Seu desejo reiterado de anexar a Groenlândia e suas ameaças de impor tarifas punitivas a Estados europeus que se oponham a essa ação são o exemplo mais visível desse impulso.
Da mesma forma, as cogitações de Trump sobre tornar o Canadá o 51º Estado ou reocupar a zona do Canal do Panamá sugerem um grau semelhante de ganância e oportunismo geopolítico.
O impulso predatório de Trump estende-se até mesmo, segundo Waltz, a questões culturais, com a Estratégia de Segurança Nacional do governo declarando que a Europa enfrenta um “apagamento civilizacional” e que a política dos EUA em relação ao continente deve incluir “cultivar a resistência à trajetória atual da Europa dentro das nações europeias”. Em outras palavras, os Estados europeus serão pressionados a abraçar o compromisso do governo Trump com o nacionalismo de sangue e solo e sua hostilidade a culturas ou religiões não brancas e não cristãs.
Assim, a hegemonia predatória visa impor a hegemonia dos valores “brancos e cristãos” ao resto da humanidade.
Outra característica da atual hegemonia predatória é a exigência de demonstrações humilhantes de submissão e bajulação.
De fato, tal como um chefe da máfia ou um potentado imperial, Trump espera que os líderes estrangeiros que buscam seu favor se envolvam em demonstrações humilhantes de deferência e formas grotescas de bajulação, tal como fazem os membros de seu gabinete.
Essa exigência de demonstrações de lealdade e de submissão não é apenas produto da necessidade aparentemente ilimitada de Trump por atenção e elogios. Ela tem uma função dentro da hegemonia predatória ou mafiosa: reforçar a submissão e desencorajar até mesmo pequenos atos de resistência.
Mas isso pode enfraquecer os EUA no longo prazo.
A esse respeito, assinala Waltz, ninguém gosta de ser forçado a se envolver em atos humilhantes de subserviência. Líderes que compartilham a visão de mundo de Trump podem se deleitar com a oportunidade de elogiá-lo publicamente, mas outros, sem dúvida, acham a experiência irritante. Nunca saberemos o que os líderes estrangeiros forçados a bajular Trump estavam pensando enquanto proferiam clichês floridos, mas alguns deles, sem dúvida, ressentiram-se da experiência e saíram esperando uma oportunidade de se vingar no futuro. Líderes estrangeiros também precisam levar em conta a reação pública em seus países, e o orgulho nacional pode ser uma força poderosa. Vale lembrar que a vitória eleitoral de Carney, em abril de 2025, deveu-se em grande parte à sua campanha anti-Trump e à percepção dos eleitores de que seu rival do Partido Conservador era uma versão mais branda de Trump. Outros chefes de Estado, como o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, viram sua popularidade disparar quando desafiaram as ameaças de Trump. À medida que a humilhação aumenta, outros líderes mundiais podem descobrir que reagir pode torná-los mais populares entre seus eleitores.
De um modo geral, pode-se afirmar que, considerando os recursos ainda consideráveis e as vantagens geográficas dos Estados Unidos, a hegemonia predatória pode funcionar por algum tempo.
No longo prazo, porém, como enfatiza Waltz, está fadada ao fracasso.
Ela é inadequada para um mundo com várias grandes potências concorrentes — especialmente um em que a China é um par econômico e militar — porque a multipolaridade oferece a outros Estados maneiras de reduzir sua dependência dos Estados Unidos. Se continuar a definir a estratégia americana nos próximos anos, a hegemonia predatória enfraquecerá os Estados Unidos e seus aliados, gerará crescente ressentimento global, criará oportunidades tentadoras para os principais rivais de Washington e deixará os americanos menos seguros, menos prósperos e menos influentes.
Concordo.
Entretanto, acrescento: talvez já seja tarde demais para que o processo de enfraquecimento dos EUA seja reversível.
Em primeiro lugar, porque o mundo caminha, irreversivelmente, para a multipolaridade, independentemente da hegemonia predatória imposta por Trump.
Em segundo lugar, porque a hegemonia predatória de Trump criou uma incerteza e uma insegurança entre os antigos aliados dos EUA que, muito provavelmente, não serão revertidas, mesmo com a eventual substituição de Trump.
Os EUA não serão mais vistos com os mesmos olhos benevolentes e confiantes, talvez ingênuos, por seus aliados.
Trump desnudou o Império.
A anomia hobbesiana por ele criada é profundamente traumática e produzirá efeitos geopolíticos de longo prazo.
Reconstruir a confiança perdida será algo extremamente difícil de se conseguir. O vaso delicado e hipócrita “da ordem mundial baseada em regras” espatifou-se. Não será colado de volta.
Será necessário que outros países, como Brasil e China, por exemplo, reconstruam o multilateralismo e criem uma ordem mundial baseada em regras sólidas, justas e adequadas para o Sul Global, para a maioria da humanidade.
Mafiosos, individuais ou coletivos, têm vida curta. E todos os impérios caem. E, quanto mais brutais, mais rápida é a queda.
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