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Diante da crise do neoliberalismo e da polarização política, o desafio é combinar vitória eleitoral, mobilização social e estratégia de longo prazo
Convém iniciar distinguindo dois planos os quais frequentemente se misturam no debate público: o plano institucional e o plano da luta de classes.
Não que o primeiro seja irrelevante – longe disto – mas ele não se esgota em si mesmo: o institucional não é a totalidade, mas apenas uma de suas expressões – e, como tal, comporta determinações que o ultrapassam.
Diante de um dramático “equilíbrio catastrófico”, a disputa que aparece na eleição presidencial representa essencialmente a luta entre duas visões de mundo antagônicas – o projeto democrático e popular versus o projeto fascista e neoliberal – com consequências significativas sobre o futuro do país.
As eleições presidenciais de 2026
Desde 1989, a crise internacional nunca jogou papel tão determinante nas eleições presidenciais como agora. Além de suas consequências econômicas, no contexto da guerra de longa duração contra a China, Donald Trump e as big techs querem subordinar a todo custo a América Latina aos seus interesses geopolíticos por meio de instrumentos militares, financeiros, comerciais e políticos.
No Brasil, ele conta com o apoio do campo bolsonarista, que responderá à crise do neoliberalismo com seu aprofundamento: subordinação ao imperialismo norte-americano, ataque às instituições democráticas, centralidade do capital financeiro e da austeridade fiscal, supressão dos direitos sociais e esmagamento da luta das classes trabalhadoras.
Do outro lado, resiste a possibilidade histórica de afirmação do projeto democrático e popular. Dirigido hoje pelo PT no Estado, mais como aspiração do que como vontade consciente, dada uma correlação de forças desafiadora, não conseguiu ainda ampliar as bases sociais, políticas e ideológicas, que sustentariam sua própria legitimidade.
Fica claro assim que uma nova vitória de Lula exigirá a construção de uma base social organizada e mobilizada, bem como uma estratégia de longo prazo, que tensione os limites estabelecidos, superando ao menos o cerco construído pelos fascistas e neoliberais, desde o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff.
O horizonte das reformas estruturais
A experiência recente do país é, nesse sentido, ilustrativa. Ela evidencia as fragilidades de um “reformismo fraco”, que atua tão somente nos contornos estabelecidos pelo neoliberalismo, sem tensionar seus fundamentos. Em vez de estabilizar conflitos, tais processos podem abrir espaço para retrocessos.
Uma lição importante a ser tirada é a seguinte: sem horizonte estratégico, certas mediações operadas dentro dos marcos existentes podem agir de forma mais adaptativa do que transformadora (“hegemonia às avessas”).
A superação dessa práxis não implica recusar o reformismo. O que se coloca é a necessidade de redefinir seu caráter, de pensar – dialeticamente – um reformismo que não se limite à adaptação, mas que, mediado pela correlação de forças, viabilize a cada instante o processo de construção da hegemonia democrática e popular em sentido socialista.
É verdade que reformas de maior alcance dificilmente emergem de consensos sem conflito: tendem a depender da ascensão do movimento de massas, da unidade do campo democrático e popular e da contestação permanente dos privilégios das classes dominantes.
Sem isso, o risco é que a própria ideia de reforma se reduza à gestão do possível – isto é, à administração das restrições estruturais persistentes, herança de um passado colonial escravista e de um capitalismo subdesenvolvido, dependente e autocrático.
Dado o quadro eleitoral brasileiro, Lula teria melhores condições de disputa na campanha apresentando um programa mínimo?
Considerando o cenário de polarização contra os fascistas e os neoliberais é um erro estratégico não atrair setores do centrismo. Além do mais, para avançar em direção às reformas estruturais defendidas pelo PT, é decisivo acumular forças, em um cenário de tensões e contradições crescentes na sociedade brasileira.
Não se trata de fazer uma concessão ao pragmatismo, mas é fundamental ganhar as eleições para consolidar a hegemonia democrático e popular dentro do Estado, criando meios e elos para viabilizar mudanças sociais mais profundas.
Daí a justeza de defender pela esquerda um programa mínimo que seja, ao mesmo tempo, mediado, viável e ousado para vencer o bolsonarismo e bloquear o condomínio golpista: (i) mediado, dada a correlação de forças atual e dada a ampla coalizão que gira em torno de Lula e do PT; (ii) viável, dada a urgência de melhorar as condições concretas de vida das classes populares e médias, como a proposta pelo fim da jornada 6×1, especialmente da juventude das periferias; (iii) ousado, dada sua natureza democrática e popular, pressupondo o reformismo petista.
A defesa da paz, da integração latino-americana, da soberania nacional, do desenvolvimento econômico sustentável, do fortalecimento do Estado e do mercado interno, da reindustrialização e da inovação tecnológica, da redução das desigualdades – tudo isso deve compor o programa.
Em tempos de incertezas radicais não há garantias quanto ao êxito da aplicação deste programa, mas as contradições da crise abrem igualmente possibilidades, que podem mesmo permitir ao campo democrático e popular acelerar o passo ou dar “saltos” na sua implementação.
O desafio estratégico do PT
O desafio do PT não é escolher entre ruptura ou imobilismo, mas, caso ganhemos as eleições, o caminho é construir um projeto de desenvolvimento nacional para transformar o país, constituindo uma base social de apoio para alterar a correlação de forças. Sem isso, o partido tende a repetir ciclos de avanços restritos seguidos de bloqueios estruturais.
Superar esse impasse por meio de um projeto desenvolvimentista exige uma estratégia de longo prazo baseada em três eixos: articulação entre mobilização social e disputa institucional; afirmação de um projeto reformista pela esquerda; e a constituição de uma ampla força política e ideológica duradoura. Sem essas precondições serão menores as possibilidades de encaminhar as reformas estruturais.
Trazendo esse quadro a “valor presente”, é problemático manter hoje uma postura defensiva diante da oposição bolsonarista, especialmente em um contexto internacional de grandes transformações – marcado por guerras, disputas geopolíticas, mudanças produtivas e tecnológicas, crise ambiental – que anunciam a morte da globalização neoliberal.
O advento de um mundo multipolar, assim como a consolidação dos BRICS e a diversificação das alianças internacionais, abre, sem dúvida, a possibilidade de retomada desse projeto desenvolvimentista. Mas essa perspectiva permanece apenas como tal se for posta em movimento por um programa democrático-popular que recoloque em termos efetivos, a questão nacional e da soberania – não como enunciado abstrato, mas como capacidade real de decisão e dissuasão.
Pois é precisamente essa capacidade que o imperialismo norte-americano tende a negar, seja influenciando as eleições presidenciais para nos derrotar, seja, no limite, aplicando a força militar como vimos na Venezuela e no Irã, ameaçando com o poder das armas a soberania da nação e do povo brasileiro.
*Carlos Ocké é economista e pesquisador do Ipea.
"A leitura ilumina o espírito".
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