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Quanto mais os EUA explicitam o mando, menos legitimidade acumulam; o paradoxo é que a pretensão de subordinação acelera a erosão da própria liderança
O novo está na forma descarnada com que os EUA voltaram a enunciar seus objetivos. A agenda inclui conter fluxos migratórios, militarizar o combate ao narcotráfico, bloquear a influência chinesa, condicionar alianças, pressionar governos recalcitrantes e premiar parceiros ideologicamente alinhados.
Mas o antigo está na estrutura profunda dessa conduta, que é a reativação da América Latina e do Caribe como espaço de disciplinamento geopolítico do “quintal estratégico”. Não por acaso, o “laboratório de controle”[i] é formulação precisa para a política internacional MAGA.
Lida à luz de Immanuel Wallerstein,[ii] a inflexão trumpista revela o comportamento típico de um centro hegemônico pressionado por tensões sistêmicas. Em momentos de perda relativa de dinamismo econômico e de crescente competição interestatal, a potência dominante tende a reforçar mecanismos de controle sobre sua zona de influência imediata, buscando compensar, no plano político-militar, aquilo que já não lhe assegura com a mesma facilidade no plano econômico.
É exatamente isso que aparece na Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025, quando o documento afirma explicitamente uma “Trump Corollary to the Monroe Doctrine”, promete “reassert and enforce the Monroe Doctrine” e define como meta “enlist and expand”. Alistar parceiros hemisféricos para conter migração, neutralizar cartéis e reforçar a primazia estadunidense, ao mesmo tempo em que se amplia a pressão para afastar influências extrarregionais sobre portos, infraestrutura, ativos estratégicos e cadeias produtivas.
Os EUA reservam-se o direito de recompensar governos e movimentos “aligned with our principles and strategy” e de usar sua alavancagem financeira e tecnológica para induzir países a rejeitar alternativas externas, num recado claramente imperial.
Fases de declínio
Na leitura de Giovanni Arrighi[iii] dos ciclos sistêmicos de acumulação, fases de declínio hegemônico costumam combinar financeirização, perda de liderança produtiva e maior recurso à coerção. A novidade do trumpismo hemisférico não é, portanto, a existência de essa pretensão imperial, mas sim a passagem de uma hegemonia baseada também em consentimento, institucionalidade e promessa de prosperidade para uma prática mais crua de comando, chantagem e demonstração de força.
Quando a estratégia oficial dos EUA no Hemisfério Ocidental passa a defender “targeted deployments”, “use of lethal force” contra cartéis, expansão de presença militar e condicionamento de ajuda e alianças ao recuo de influências externas, o que está em jogo é administrar o entorno continental como espaço de recomposição estratégica num contexto de disputa global com a China e de erosão da legitimidade do universalismo liberal estadunidense.
A centralidade do tema migratório confirma essa mutação. A Estratégia de Segurança Nacional afirma que “the era of mass migration is over” e a associa a fluxos populacionais a crime, terrorismo, espionagem e perda de soberania. No plano latino-americano, isso significa que mobilidade humana, narcotráfico e fronteira passam a ser tratados como partes de uma mesma gramática militarizada.
A região deixa de ser mostrada como parceira em desenvolvimento e volta a ser concebida como cinturão de contenção. Não se trata somente de barrar pessoas, mas de reorganizar o espaço continental segundo prioridades de vigilância, interdição e externalização de custos. É um regionalismo de segurança assimétrico, no qual o Sul administra os efeitos sociais da crise e o Norte preserva sua capacidade de seleção soberana.
Os fatos recentes confirmam essa linha. Em maio de 2025, o governo brasileiro rejeitou uma solicitação de autoridades estadunidenses para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, em uma agenda que os EUA conectaram explicitamente à imigração, a sanções e à repressão transnacional. Em agosto do mesmo ano, o governo de Donald Trump preparava opções militares contra cartéis latino-americanos já designados como organizações terroristas globais[iv].
Em março de 2026, a realização da cúpula “Shield of the Americas” foi o palco para Donald Trump anunciar uma coalizão militar hemisférica voltada a “erradicar cartéis”, enquanto membros do governo sustentavam que essas organizações deveriam ser tratadas “just as brutally” quanto a Al Qaeda.[v] Brasil, México e Colômbia ficaram à distância ou demonstraram reservas, o que por si só revela que não há consenso regional em torno dessa escalada.
O destino manifesto retomado
O mesmo padrão aparece no caso do Panamá. Logo no início de 2025, Donald Trump declarou que os EUA iriam “retomar” o Canal do Panamá, evocando o imaginário do “Destino Manifesto”. Pouco depois, o secretário de Estado Marco Rubio advertiu o governo panamenho de que os EUA poderiam tomar “medidas necessárias” caso o país não reduzisse aquilo que os estadunidenses classificaram como influência chinesa sobre o canal e sua infraestrutura associada.[vi]
O ponto central aqui não é apenas o canal em si, mas o fato de que logística, portos, corredores marítimos e ativos estratégicos do istmo reaparecem como objetos de tutela geopolítica direta. Seguindo Giovanni Arrighi, trata-se de impedir que uma potência rival converta posições econômicas em influência estrutural dentro da periferia historicamente subordinada ao centro estadunidense. É a prova de que a disputa pela hegemonia global desce ao nível dos estrangulamentos territoriais e dos nós logísticos do comércio mundial.
Venezuela e Cuba ocupam, nesse tabuleiro, a função do exemplo punitivo. O episódio venezuelano de janeiro de 2026 escancarou um projeto de submissão regional.[vii] A Operação “Absolute resolve” capturou Nicolás Maduro e Washington passou a pressionar severamente o entorno energético cubano, interrompendo o fluxo de petróleo venezuelano para a ilha.
Em março de 2026, o chefe do Comando Sul, Tenente-General Evan L. Pettus da Força Aérea dos EUA, afirmou ao Senado que os EUA não se preparavam para invadir Cuba, mas deixou claro que o país se encontrava pronto para defender Guantánamo, responder a ameaças à embaixada e lidar com eventual migração em massa.
Ao mesmo tempo, a crise energética cubana agravou-se após o colapso da rede elétrica nacional, num contexto de asfixia econômica reforçada pela pressão norte-americana sobre fornecedores de combustível. O recado hemisférico é que governos hostis, ou apenas insubmissos, podem ser cercados por uma combinação de sanções, estrangulamento logístico, ameaça militar e deslegitimação jurídica.
Nesse sentido, a tese do “laboratório de controle” ganha uma densidade maior. A América Latina não é apenas um terreno secundário no qual Donald Trump aplica, em escala regional, sua agenda doméstica de securitização. Ela é também o espaço onde uma potência em declínio relativo testa os instrumentos de uma hegemonia menos universalista e mais abertamente disciplinar.
O “laboratório” serve para três experimentos simultâneos. Primeiro, redefinir o narcotráfico como terrorismo para legitimar novas formas de intervenção. Segundo, aliar a criminalidade à migração e propor uma doutrina geopolítica de contenção. E terceiro, remover ou reduzir presenças rivais, sobretudo chinesas, em infraestrutura, energia, finanças e comércio. A segurança hemisférica é o redesenho coercitivo de hierarquias num sistema mundial em transição.
Enfraquecimento progressivo
Há, contudo, um paradoxo decisivo. Quanto mais os EUA explicitam sua pretensão de mando, mais enfraquecem os elementos consensuais de sua liderança. A reedição de uma doutrina hemisférica em chave abertamente coercitiva pode produzir obediência tática, mas tende a corroer legitimidade estratégica. Ao pressionar o Panamá, hostilizar Cuba, militarizar o combate regional aos cartéis, buscar enquadrar o Brasil em sua tipologia antiterrorista e converter a relação com a América Latina num regime de comandos assimétricos, Donald Trump talvez consiga vitórias pontuais; mas também acelera a percepção de que os EUA já não oferecem um horizonte de hegemonia benigna, e sim um arranjo de subordinação de curto prazo.
Segundo Giovanni Arrighi, esse deslocamento do consenso para a coerção é precisamente um dos sinais de exaustão dos ciclos hegemônicos. Para Immanuel Wallerstein, é a marca de um sistema histórico em crise, no qual o centro já não organiza o conjunto por direção estável, e sim por contenção violenta das margens.
Da perspectiva latino-americana, a resposta precisa ser estratégica, o que não é nada simples, pois envolve desde a coordenação regional, passando pela defesa da soberania jurídica contra a expansão arbitrária da categoria de terrorismo, e mesmo a resistência à militarização indiscriminada da agenda de segurança, culminando em preservar autonomia decisória em infraestrutura e finanças, retomando a integração como instrumento de proteção coletiva.
A grande fragilidade regional é que ameaças bilaterais vêm sendo tratadas de forma fragmentada, quando na verdade possuem natureza sistêmica e regional. Enquanto a América Latina responder país por país, caso por caso, continuará sendo laboratório. Só deixará de sê-lo quando voltar a agir como espaço político.
*Alexandre Favaro Lucchesi é professor visitante no curso de Relações Internacionais na UFABC. Autor, entre outros livros, de Integração financeira e regulação bancária na zona do euro entre 1999 e 2016 (Editora Dialética). [https://amzn.to/4nL03hO]
Notas
[i] ROMERO, Carlos A.; LUJÁN, Carlos; GONZÁLEZ, Guadalupe; TOKATLIAN, Juan Gabriel; HIRST, Mónica. Trump y América Latina y el Caribe: ¿un laboratorio de control? Nueva Sociedad, abr. 2025. Disponível em: https://www.nuso.org/documento/trump-y-america-latina-y-el-caribe-un-laboratorio-de-control
[ii] WALLERSTEIN, Immanuel. The decline of American power: The US in a chaotic world. New Press, The, 2003.
[iii] ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. São Paulo: Unesp, 1996.
[iv] IDREES, Ali, O’BOYLE, Brendan. Trump administration eyes military action against drug cartels, US officials say. Reuters, Legal, Aug 8th, 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/government/trump-administration-eyes-military-action-against-drug-cartels-us-officials-say-2025-08-08
[v] CORREAL, Annie; MCCREESH, Shaw. Trump assembles a new coalition to “eradicate” cartels. The New York Times, World, Americas, Mar 7th, 2026. Disponível em: https://www.nytimes.com/2026/03/07/world/americas/trump-latin-american-coalition-cartels.html
[vi] U.S. MISSION PANAMA. Secretary Rubio’s Meeting with Panamanian President Mulino. US Embassy in Panama, Office Of The Spokesperson, Feb 2nd, 2025. https://pa.usembassy.gov/secretary-rubios-meeting-with-panamanian-president-mulino
[vii] MARTINS, Antonio. Venezuela: o Império ameaça – e está nu. Outras Palavras, jan. 2026. Disponível em: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/venezuela-o-imperio-ameaca-esta-nu.
"A leitura ilumina o espírito".
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