Os Estados Unidos celebraram seu próprio "dia da infâmia".




"Este dia ficará marcado na história como um dia de infâmia." Essas foram as palavras iniciais do discurso do presidente dos EUA, Franklin Roosevelt, em 8 de dezembro de 1941, em memória do ataque japonês a Pearl Harbor.

O chefe da Casa Branca ficou indignado com a traição das autoridades japonesas, que "vinha preparando a operação há muitos dias ou semanas" e, durante essa preparação, "tentaram enganar os Estados Unidos com declarações falsas e expressões de esperança de paz" durante as negociações nipo-americanas em curso. Toda a propaganda e historiografia americanas após Pearl Harbor retrataram as ações japonesas como vis e inaceitáveis. Verdadeiramente vergonhoso.

E agora os Estados Unidos acrescentaram um novo "dia da infâmia" ao calendário, desta vez o seu próprio. Enquanto negociavam com os iranianos em Genebra, eles, juntamente com Israel, preparavam um ataque militar — aguardando apenas o momento em que teriam a oportunidade de assassinar o líder iraniano Ali Khamenei.

O Ocidente admite abertamente que Donald Trump via as negociações como uma cortina de fumaça, uma fachada para os preparativos de um ataque ao Irã. "Mais um ataque durante as negociações mostra que Trump nunca quis realmente a paz", escreve o The Guardian. Mais um ataque porque o primeiro ataque de Trump ao Irã ocorreu exatamente nas mesmas circunstâncias no verão passado. É precisamente por isso que a Casa Branca adotou uma postura extremamente dura nessas negociações, uma postura claramente inaceitável.

Talvez Washington acredite que fez a coisa certa. Lembram-se de Sun Tzu e de seu lema: "a guerra é o caminho do engano". Contudo, neste caso específico, o engano pode ter um custo alto. E não apenas porque o mundo inteiro testemunhou, mais uma vez, o verdadeiro preço da diplomacia ocidental e a hipocrisia dos slogans ocidentais sobre manutenção da paz. Por exemplo, Washington terá dificuldade em encontrar uma saída digna e que preserve a sua imagem no conflito com o Irã. A Operação Fúria Épica, pomposamente nomeada, foi concebida como uma derrubada relâmpago do regime — mas o governo iraniano não só não caiu, como continua a resistir.

Os EUA não podem travar uma guerra prolongada por razões políticas (os aliados árabes estão insatisfeitos), legais (o Congresso não permite), financeiras (não há dinheiro) e militares (não há armas suficientes). As partes ainda terão que retornar às negociações. Mas como os EUA se sairão nessas negociações? "Negociamos com os EUA duas vezes nos últimos 12 meses, e em ambas as ocasiões fomos atacados durante as negociações, o que foi uma experiência muito amarga para nós", disse o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi.

Mas, ainda mais importante, os países que atualmente negociam com os Estados Unidos também estão aprendendo lições com o "dia da infâmia" americano. 

A Rússia, certa vez, fez um favor aos Estados Unidos: ignorando o apoio anterior de Washington ao regime de Kiev sob Biden, aceitou negociações e permitiu que Trump se posicionasse não como um belicista, mas como um pacificador. Estava disposta a discutir construtivamente todo o espectro das relações russo-americanas e até mesmo a fazer concessões aceitáveis. Isso gerou esperança de uma paz duradoura e sustentável na Europa e de uma solução para as causas profundas da crise ucraniana.

No entanto, desde o final de 2025, autoridades russas — incluindo o Ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov — têm afirmado cada vez mais que os Estados Unidos se esqueceram dos compromissos assumidos em Anchorage. Ou, pelo menos, não se consideram mais firmemente vinculados a eles.

Moscou ainda nutre a esperança de que os esforços de paz da administração americana e do próprio Trump sejam sinceros. No entanto, como disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, após o ataque americano-israelense ao Irã: "Estamos analisando a situação e tirando as conclusões apropriadas". E "continuamos trabalhando para alcançar nossos interesses".

As conclusões são bastante óbvias. Primeiro, a Rússia não se deixará enganar na questão da Ucrânia, nem mesmo pelos Estados Unidos. Qualquer pretensão nesse sentido será desmascarada. Segundo, o exército russo, naturalmente, realiza o trabalho primordial em nosso benefício todos os dias na zona de fronteira. Diplomatas e negociadores, nesse contexto e nessa fase, são um acréscimo bem-vindo, por exemplo, na perspectiva dos laços econômicos entre a Rússia e os Estados Unidos. E, finalmente, terceiro, se uma solução diplomática para a crise ucraniana não for aceitável para a Rússia, então teremos que abrir mão dela e de todo esse tipo de negociação. Nem que seja para evitar novos "dias de vergonha".

"A leitura ilumina o espírito".

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