
Apesar de não haver sinais de abrandamento na agressão ao Irã levada a cabo pela coligação israelita-americana, é possível constatar, desde já, cinco factos incontornáveis.
Primeiro, o ataque veio confirmar a teoria da anti fragilidade do regime, ou seja, a sua capacidade para, com base numa estrutura de geometria variável — ideologia, assimetria, inventividade — reforçar-se, alavancando positivamente a pressão externa. Apesar do assassinato do Líder Supremo aiatola Ali Khamenei e de outros altos dignitários, o regime resistiu e sobreviveu. Não implodiu, como vaticinado por Washington. Não se conhecem fissuras no grupo dirigente, o governo está aparentemente coeso, não se registaram deserções de altos funcionários, nomeadamente diplomatas, nenhuma embaixada mudou a bandeira, não há sinal de militares terem alterado a lealdade ao regime. Veremos por quanto tempo esta unidade se manterá. Os apelos de Netanyahu e Trump para o povo do Irão sair às ruas e derrubar o regime não se concretizaram. O povo veio de facto para a rua, mas para apoiar o regime e gritar “Não às negociações! Não à rendição! Guerra aos Estados Unidos!”.
O assassinato do Líder Supremo, ainda por cima durante o Ramadã, foi um erro estratégico tremendo. Além de dirigente máximo do Irão, Khamenei era também um líder religioso cujo alcance extravasava as fronteiras do Irão e se estendia ao mundo xiita. Washington conseguiu, de uma penada, não só alienar a Ummah xiita, como largos setores da sunita. Era difícil fazer pior.
Estes erros poderão resultar das fragilidades da Administração em termos de política externa. Para além dos cargos de Conselheiro Nacional de Segurança e de secretário de Estado estarem concentrados na mesma pessoa, o Conselho Nacional de Segurança funciona apenas com um terço dos funcionários da Administração anterior, talvez por se abraçar a ideia de que a crença na providência divina é capaz de superar o conhecimento humano. Uma semana antes da invasão, o FBI despediu os especialistas em contrainformações que geriam o dossiê do Irã.
A arrogância de Donald Trump – associada ao desconhecimento – permite-lhe achar que vai escolher o próximo responsável pelos destinos do país: “Não queremos que eles [os iranianos] coloquem ninguém lá dentro, que não seja aprovado por nós”, “eles estão a perder o seu tempo. O filho de Khamenei é um peso leve. O filho de Khamenei é inaceitável para mim,” “eu tenho de estar envolvido na nomeação, como com a Delcy na Venezuela”, “eles podem selecionar, mas nós temos de nos certificar de que é alguém razoável para os Estados Unidos”. Nada impressionado com os recados de Trump, o Conselho de Peritos elegeu exatamente o filho de Khamenei para lhe suceder.
Segundo, tornou-se claro que o conflito não será de curta duração. Segundo fontes norte-americanas, o prazo da Operação “Fúria Épica” foi reformulado, admitindo-se a possibilidade de os objetivos só serem alcançáveis dentro de quatro a cinco semanas, considerando-se mesmo o alargamento desse prazo. Segundo Trump, a guerra continuará até os objetivos serem alcançados, leia-se, até à rendição incondicional de Teerã, “não há limites de tempo para nada”. O presidente norte-americano não está aparentemente preocupado com as ‘Midterm elections’, em outubro, nem com o impacto desta operação, que não tem o apoio dos norte-americanos, no seu futuro político.
Os planos para gerir um conflito de curta duração foram substituídos pelos preparativos para uma campanha longa. O Comando Central solicitou um reforço urgente do seu quartel-general, e o Departamento de Defesa prepara-se para manter as operações ativas durante, pelo menos, mais 100 dias. Surpreendentemente, o [jornal] Haaretez veio dizer que “Israel não tem capacidade para uma confrontação prolongada com o Irã”.
Terceiro, por ter subestimado o Irão, a Administração Trump lançou-se impreparada nesta aventura. Se na Primeira Guerra do Iraque (1990), os EUA recorreram a 1900 aeronaves, e seis porta-aviões; agora projetaram apenas 300 aeronaves e 2 porta-aviões. Este défice está a tentar ser colmatado com o recurso ao porta-aviões francês Charles De Gaulle, em deslocamento para o Mediterrâneo Oriental, para substituir o porta-aviões norte-americano Gerald Ford, em deslocamento para o Mar Arábico. Em preparação, para reforçar o dispositivo naval de ataque ao Irão, encontra-se o porta-aviões britânico Príncipe de Gales.
A isto, junta-se o facto de não existir presentemente uma componente terrestre no dispositivo norte-americano projetado na região, e uma eventual projeção exigiria seis a 12 meses de preparação. A exiguidade da aventada solução curda não é solução. Em 2003, quando os EUA atacaram o Iraque, a força terrestre norte-americana tinha um efetivo que rondava os 170 000 soldados.
Por outro lado, a enorme capacidade militar norte-americana tem alguns calcanhares de Aquiles. São públicas as suas limitações nalguns tipos de equipamentos, não só ofensivos como defensivos, particularmente em intercetores utilizados na defesa aérea. O Pentágono prepara-se para pedir ao Congresso autorização para “libertar” 50 mil milhões de dólares, a fim de fazer face ao problema que tem em mãos. A Administração Trump também já pediu às principais empresas de defesa que aumentassem rapidamente a produção.
Quarto, com o ataque ao Irã, Trump envolveu-se simultaneamente em duas crises estratégicas. No início do século XXI, Washington evidenciou uma enorme dificuldade em lidar ao mesmo tempo com o Afeganistão (2001) e o Iraque (2003). Os resultados dessas decisões são conhecidos. A guerra na Ucrânia vai em quatro anos, sem existir ainda um fim à vista, e a do Irão, de alta intensidade, corre o risco de evoluir para um cenário de atrição. Podíamos ainda acrescentar a esta complexa equação, o envolvimento militar norte-americano no Caribe — Venezuela, Cuba e México — e na Nigéria, negligenciando deliberadamente os efeitos de uma improvável ação chinesa em Taiwan. Trump está a correr um enorme risco político, militar e estratégico, sobretudo quando é conhecido o apoio da Rússia e China ao esforço militar iraniano, que Washington parece ter desconsiderado. Numa situação extrema, desenvolvimentos desfavoráveis a Washington podem afetar decisivamente a sua reputação e as suas pretensões hegemónicas.

Quinto, o dispositivo militar norte-americano no Médio Oriente, em particular no Golfo Pérsico, foi severamente afetado sendo a sua reposição, nalguns casos, muito difícil. Os EUA não conseguiram defender as suas bases militares (infraestruturas, portos, depósitos de combustível, etc). Os navios da quinta esquadra tiveram de retirar do Golfo Pérsico. Numa ação inédita, o Irão atacou todas as principais bases norte-americanas envolvidas no apoio ou na organização da Operação “Epic Fury”. Particularmente eficaz foi a destruição dos radares de longo alcance e de apoio ao tiro dos THAAD (AN/FPS-132 Block 5, AN/TPY-2, respetivamente), sem possibilidade de os repor. Consequentemente, os países do Golfo ressentiram-se do abandono a que foram votados pelos Estados Unidos, acusando-os de serem incapazes de honrar a proteção prometida, dando prioridade a Israel.
Perante estes factos, em particular a incapacidade de fazer implodir o regime, a coligação avançou para o Plano “B”. Alargou a lista de alvos e aproximou-se daquilo a que chamamos “fórmula Gaza”, passando a incluir zonas residenciais, depósitos de combustível e estações de dessalinização, etc. Mas o Irã já está a responder na mesma moeda. Entretanto, o ministro norte-americano da guerra, Pete Hegseth veio elucidar-nos que os EUA perderam guerras porque seguiam regras. Por outras palavras, porque no antecedente respeitaram o Direito da Guerra. A partir de agora vai passar a valer tudo.
Em 7 de março, Israel atacou cerca de 30 depósitos de combustível iranianos próximos de Teerão com a consequente libertação de elevadas quantidades de substâncias químicas para a atmosfera, responsáveis por chuvas ácidas e enormes preocupações ambientais em toda a região. O petróleo em chamas espalhou-se pelas ruas de Teerão e incendiou casas e edifícios. Se a dor causada pela retaliação iraniana a estes ataques for insuportável para Telavive, não será de excluir a possibilidade de Israel pensar em recorrer à arma nuclear.
Resta ver se esta guerra não vai provocar mais rapidamente uma mudança de regime nos Estados Unidos, em vez de no Irã.
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