Vergonha das Américas

Donald Trump fez ameaças sobre intervenções iminentes na América Latina e no Caribe, incluindo alusões à mudança de regime em Cuba. (Roberto Schmidt / Getty Images)

TRADUÇÃO: NATALIA LÓPEZ

A cúpula "Escudo das Américas", convocada por Trump em Miami, reuniu os líderes do bloco reacionário da América Latina e do Caribe. Como de costume, o presidente americano garantiu que fosse um ritual de humilhação e degradação.

Neste fim de semana, Donald Trump reuniu líderes de direita da América Latina e do Caribe em seu resort de golfe em Miami para a cúpula "Escudo das Américas". Em meio à renovada agressão militar dos EUA na região, o encontro exibiu um bloco reacionário fortalecido, ansioso para demonstrar sua submissão aos ditames de Washington.

A cúpula reuniu doze chefes de Estado no Trump National Doral Golf Club: Javier Milei, da Argentina; Daniel Noboa, do Equador; Nayib Bukele, de El Salvador; e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, juntaram-se aos presidentes conservadores da Bolívia, Paraguai, Panamá, Honduras, Costa Rica, Guiana, República Dominicana e ao primeiro-ministro de Trinidad e Tobago. O cenário do clube de campo em Miami não era apenas tipicamente comum, mas, como aponta o Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR), uma forma de canalizar fundos para os negócios privados de Trump.

Dezessete países latino-americanos aderiram à nova "Coalizão Americana Contra os Cartéis", liderada por Trump, que promete mobilizar ações militares contra grupos criminosos "para derrotar essas ameaças à nossa segurança e civilização". O fato de vários de seus membros estarem envolvidos em operações do crime organizado não parece ser um obstáculo. Afinal, esta é a administração que concedeu indulto a Juan Orlando Hernández — o ex-presidente hondurenho que cumpria pena de quarenta anos em uma prisão americana por tráfico de drogas — e que, em seguida, sequestrou o atual presidente da Venezuela sob as mesmas acusações.

A disposição de proteger traficantes de drogas convenientes tem sido uma política bipartidária na região há muito tempo. O tráfico de cocaína foi notoriamente central para a rede clandestina de abastecimento da CIA para os Contras durante a década de 1980 na América Central, e os Estados Unidos forneceram milhões em apoio antidrogas ao governo mexicano de Felipe Calderón (2006-2012), que travou uma guerra contra as drogas em favor do Cartel de Sinaloa. Assim como a Guerra Fria e a “guerra ao terror”, a “guerra contra as drogas” fornece uma estrutura para a integração subordinada da região aos regimes econômicos e de segurança dos EUA.

Fiel ao seu estilo, o presidente Trump garantiu que a cúpula fosse um ritual de humilhação e degradação. Após prometer reuniões bilaterais, o tempo que o presidente americano passou com cada chefe de Estado se resumiu a um aperto de mãos e uma foto. Ele demonstrou seu característico desprezo pelos convidados, brincando que "não vou aprender a maldita língua deles" e tropeçando no nome de Bukele, de El Salvador ("Ele administra bem o país, é só com isso que me importo").

Em seus comentários dispersos, o presidente comparou os cartéis de drogas ao Estado Islâmico (uma analogia bastante apropriada, dado o papel dos Estados Unidos em fomentar a violência relacionada às drogas na região). Ele fez alertas preocupantes sobre intervenções iminentes, aludindo a uma mudança de regime em Cuba, atualmente mergulhada em uma crise humanitária histórica devido à guerra econômica imposta pelo embargo unilateral dos EUA: "Cuba já está em seus momentos finais, mas nosso foco agora é o Irã". O México também estava em sua mira: Trump alertou que "os cartéis estão controlando o México, e não podemos permitir isso".

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, também participou, proferindo um discurso com tons fascistas que começou com uma citação de Andrew Jackson e conclamou a região a se unir como “nações cristãs sob Deus” contra o “narcocomunismo radical e a narcotirania”. Essa invocação do que o historiador Greg Grandin chama de “pan-americanismo neofascista” foi, no entanto, em grande parte performática. As nações reunidas pareceram unidas apenas em sua submissão a Trump; nenhuma agenda conjunta emergiu além do compromisso de cada país com a intervenção dos EUA.

Além de uma breve declaração do Secretário de Estado Marco Rubio, o grupo ouviu um pronunciamento da recém-ex-Secretária de Segurança Interna (DHS), Kristi Noem, que foi anunciada como enviada especial para a nova coalizão militar. A transferência de Noem para a região coincidiu com a confirmação de seu vice, o ex-Subsecretário da DHS Troy Edgar, como o novo embaixador dos EUA em El Salvador — uma confirmação adicional da postura beligerante do governo na América Latina. Noem declarou na reunião:

Nossos objetivos serão destruir os cartéis, perseguir os narcoterroristas que estão destruindo nosso povo, matando nossos filhos e netos. Também manteremos nossos adversários à distância. Queremos garantir que aqueles adversários que desejam mudar nosso modo de vida e nossos valores, vindos de fora do nosso hemisfério, sejam mantidos afastados, concentrando nossos esforços na construção de alianças entre nós e em nossas forças.

As palavras de Noem reforçaram a esperança dos EUA de enfraquecer os laços de seus aliados com a China, atualmente o maior credor e parceiro comercial da América Latina. "Teremos que reverter essas influências estrangeiras nocivas que se infiltraram em muitas de nossas empresas, nossas tecnologias e que vimos penetrar em diversas áreas do nosso modo de vida", concluiu ela. Nesse aspecto, é improvável que os Estados Unidos prevaleçam. O comércio e a ajuda chinesa têm se mostrado cruciais até mesmo para os aliados mais fiéis de Trump: são essenciais para o comércio da Argentina de Milei e financiam importantes projetos de infraestrutura para o governo de Bukele em El Salvador.

As ações militares coordenadas, contudo, continuarão a se intensificar. A Operação Lança do Sul, que começou com um destacamento naval sem precedentes no Caribe, expandiu-se para o interior: as forças americanas participam de uma campanha conjunta de bombardeio contra uma facção dissidente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), já desmobilizadas, em sua fronteira com o Equador, arriscando uma grave desestabilização regional. Os ataques ilegais dos EUA contra embarcações no Caribe e no Pacífico continuam, e o número oficial de mortos decorrentes dessas execuções extrajudiciais já ultrapassou 150. Trinidad e Tobago ofereceu seus aeroportos para apoio logístico às missões, enquanto El Salvador — que anteriormente serviu como colônia penal americana para migrantes deportados — abriga caças americanos.

Enquanto a direita latino-americana se une em torno da campanha de destruição de Trump, a esquerda mantém um silêncio perturbador. Forças progressistas ainda governam as principais economias do Brasil, México e Colômbia, mas a outrora vigorosa agenda da Onda Rosa, em prol da integração e cooperação regional, perdeu força, e a resposta à recente onda de abusos dos EUA tem sido tímida. Um projeto diplomático regional em defesa da paz, da solidariedade e da autodeterminação é urgentemente necessário. Sem um contrapeso, a violência imprudente e impune do imperialismo estadunidense ameaça não apenas o hemisfério, mas todo o planeta.


HILARY GOODFRIEND
Ela é doutoranda em Estudos Latino-Americanos na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e editora colaboradora das revistas Jacobin e Jacobin Latin America.

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários