A captação bancária contemporânea

Imagem: Nazarii Taran

Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

O Pix democratizou pagamentos, mas não quebrou o oligopólio bancário: grandes investidores seguem preferindo os “grandes demais para quebrar”, porque no crédito e na poupança de longo prazo o que decide não é o aplicativo, é o balanço patrimonial

1.

Minha hipótese sobre a captação bancária contemporânea é os grandes investidores em CDB, LCI LCA, PGBL VGBL etc. continuarem com sua preferência prudencial por “bancos grandes demais para quebrar”. Os “big five” (BBICS: Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander) mantêm seus clientes das gerações mais idosas e enriquecidas.

Apesar da expansão de fintechs e bancos digitais, grandes investidores continuam demonstrando forte preferência por instituições consideradas too big to fail. Essa preferência ajuda a entender a aparente contradição: o Pix aumenta a concorrência nos serviços de pagamento, mas o crédito e a captação de poupança de grande porte continuam concentrados nos grandes bancos.

A lógica do “too big to fail” predomina nas decisões de investimento. Grandes aplicadores (famílias de alta renda, empresas e investidores institucionais), normalmente, priorizam segurança institucional e liquidez, não apenas rentabilidade. Isso se traduz em preferência por algum banco do BBICS.

Esses bancos são percebidos como sistemicamente relevantes, supervisionados intensamente e implicitamente garantidos pelo Estado. Mesmo quando há garantia formal do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), cobrindo até R$ 250 mil por instituição – limite superexplorado pelo Banco Master, aliás, uma “banqueta” de negócios escusos –, investidores com valores maiores preferem minimizar risco institucional.

Na estrutura dos principais produtos de poupança financeira, produtos como CDBs, LCI, LCA e planos de previdência (PGBL/VGBL) exigem três coisas: (i) confiança na solvência do emissor em longo prazo; (ii) escala de gestão de ativos; (iii) capacidade de distribuição.

Grandes bancos possuem vantagens decisivas. A primeira é a escala financeira: eles concentram enormes volumes de recursos sob gestão. A segunda é a reputação de terem décadas de estabilidade institucional. A terceira é a estrutura de gestão de investimentos com grandes asset managers ligados a esses bancos.

Fintechs recebem pagamentos, mas não a poupança de longo prazo. A inovação digital mudou, principalmente, a camada transacional do sistema financeiro.

Fintechs e bancos digitais ganharam espaço em contas digitais, transferências, pagamentos e pequenas aplicações das novas gerações e de clientes mais pobres. Exemplos de destaque são Nubank, C6 Bank e Banco Intervenção.

2.

Quanto aos instrumentos de acumulação patrimonial, o padrão ainda é prudencial. Grandes patrimônios permanecem, majoritariamente, em grandes bancos (S1), em gestoras tradicionais e em plataformas consolidadas. Isso ocorre porque o risco reputacional pesa mais, a sofisticação da gestão patrimonial é maior e os investidores buscam segurança sistêmica.

Bancos classificados como S1 pelo Banco Central do Brasil representam a elite do sistema financeiro nacional, com porte igual ou superior a 10% do PIB ou atividade internacional relevante. Essa classificação indica alta solidez, gestão de risco estruturada e exigência de capital robusto, focada em instituições sistemicamente importantes.

As instituições no S1 (BBICS + BTG Pactual) têm um requerimento adicional de capital de 1 p.p. (11,5% vs 10,5% do restante), para a regulação prudencial da alavancagem financeira, e precisam divulgar dados adicionais de liquidez, como o LCR (Liquidity Coverage Ratio) e o NSFR (Net Stable Funding Ratio), indicadores fundamentais da regulação de Basileia III, monitorados pelo Banco Central do Brasil, para garantir a estabilidade bancária. O LCR mede a liquidez de curto prazo (30 dias) e o NSFR a estabilidade de financiamento de longo prazo (1 ano), ambos com mínimo regulatório de 100%.

A contradição estrutural do sistema financeiro digital aparece no ponto central mencionado anteriormente. Na função sistêmica de pagamentos e serviços há alta concorrência, porque Pix, fintechs e bancos digitais reduziram barreiras de entrada.

Nas funções sistêmicas de financiamentos e enriquecimentos, ou seja, crédito e funding (fontes de financiamento), há alta concentração, porque grandes bancos ainda dominam a captação de poupança financeira, o crédito corporativo, o crédito imobiliário e as grandes operações financeiras. Isso ocorre porque crédito exige capital regulatório elevado, gestão de risco sofisticada e acesso a funding estável.

Como consequência sistêmica, o resultado é um sistema financeiro nacional com duas dinâmicas simultâneas: mais competição na interface com o cliente, mas persistência do oligopólio diferenciado no núcleo duro [hardcore] bancário.

Em síntese, a estrutura tem uma divisão bancária do trabalho. Suas funções de pagamentos estão com concorrência crescente, contas digitais foram para fintechs, mas crédito e funding permanecem de acordo com a concentração bancária, bem como a gestão patrimonial perdura sob os BBICS.

3.

A implicação macroeconômica é isso explicar por quais razões a digitalização melhora eficiência e reduz custos de transação, mas não altera profundamente a estrutura do poder financeiro. A concentração persiste porque o elemento decisivo do sistema bancário não é o aplicativo – é o balanço patrimonial e o acesso a funding estável.

Minha hipótese-chave é defensável com fatos e dados como uma tese. Os investidores maiores continuam preferindo grandes bancos porque oferecem segurança sistêmica (too big to fail); possuem escala e reputação; concentram a gestão de grandes volumes de poupança. Assim, o Pix e as fintechs democratizam pagamentos, mas não desconstroem automaticamente o oligopólio do crédito e da poupança financeira.

O Pix pode acabar fortalecendo os grandes bancos, no longo prazo, mesmo tendo sido criado para aumentar a concorrência. Quando analisamos a dinâmica estrutural do sistema bancário, aparecem quatro mecanismos capazes de levar a esse resultado.

O primeiro é composto pelas economias de escala na infraestrutura financeira. O Pix é uma infraestrutura pública, mas sua utilização exige sistemas de TI imensos, gestão de liquidez intradiária e integração com diversos serviços financeiros.

Os BBICS possuem grande escala tecnológica e financeira, explorando melhor essa infraestrutura. Pequenos bancos e fintechs usam o Pix, mas muitas vezes dependem de bancos liquidantes, provedores de infraestrutura e parcerias tecnológicas. Isso cria dependência indireta dos grandes bancos.

O segundo é a redução de receitas de tarifas favorecer quem tem escala. Antes do Pix, bancos obtinham receitas relevantes com TED, DOC e transferências interbancárias. O Pix praticamente eliminou essas receitas.

Quem sofre mais com isso? Instituições dependentes dessas tarifas. Grandes bancos conseguem compensar porque têm receitas de crédito, gestão de patrimônio, seguros e investimentos. Assim, instituições diversificadas absorvem melhor o choque competitivo.

O terceiro mecanismo é o Pix aumentar a centralidade da conta bancária. Transformou a conta corrente em hub financeiro universal. Por meio dela, o usuário faz pagamentos, transferências, compras, recebimentos e integração com carteiras digitais. Isso cria um efeito econômico conhecido como lock-in de plataforma.

4.

Quanto mais serviços vinculados à conta, menor a probabilidade de migração para outro banco. Bancos grandes conseguem explorar isso integrando crédito, investimentos, seguros e marketplace financeiro.

O quarto mecanismo é composto por dados e poder de crédito. Cada transação Pix gera dados financeiros extremamente valiosos: frequência de renda, padrão de consumo e fluxo de caixa. Esses dados alimentam modelos de análise de crédito e risco.

Bancos com maior base de clientes acumulam vantagens crescentes de informação. Isso reforça a capacidade de precificar crédito, oferecer produtos personalizados e reduzir inadimplência. Esse efeito de rede favorece as instituições já dominantes.

Uma analogia estrutural é devido a lógica lembrar o ocorrido em outras infraestruturas digitais. A internet aumentou competição, mas fortaleceu grandes plataformas. Logo, os sistemas operacionais abertos reforçaram empresas com maior escala.

O Pix cria uma infraestrutura pública aberta, mas os maiores beneficiários podem ser aqueles com maior base de clientes, maior capital e maior capacidade tecnológica.

O resultado provável será concorrência na periferia, concentração no núcleo duro. Assim pode emergir uma estrutura dual: em pagamentos e contas haver mais competição e em crédito e gestão patrimonial a concentração ser persistente. Fintechs ganham usuários, mas os grandes bancos continuam dominando o financiamento da economia.

O Pix aumenta a concorrência no acesso ao sistema financeiro, mas pode reforçar vantagens estruturais dos big five banks too big to fail porque eles exploram melhor economias de escala, possuem receitas diversificadas, acumulam mais dados financeiros e integram serviços financeiros completos. Por isso, o Pix pode gerar mais competição na superfície, mas não necessariamente menos concentração no núcleo financeiro.


*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]


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