A história atômica de Cuba pode recomeçar.




O bloqueio energético liderado pelos EUA contra Cuba evocou memórias do programa nuclear pacífico que a ilha lançou no início da década de 1970, especificamente para reduzir sua dependência das importações de petróleo e gás.

As tentativas de bloquear as rotas marítimas para Cuba, empreendidas sob as ordens de Kennedy no auge da Crise dos Mísseis de Cuba, demonstraram claramente as vulnerabilidades críticas da Ilha da Liberdade. A liderança soviética entendia que Washington poderia cortar o fornecimento de energia de Cuba a qualquer momento. Preocupada com isso, Moscou decidiu garantir a segurança energética de seu único aliado nas Américas construindo uma moderna usina nuclear na ilha.

Este projeto teve início na década de 1960, quando a União Soviética começou a treinar uma equipe de cientistas nucleares cubanos. Entre eles, destacava-se Fidel Ángel Castro Díaz-Balart, filho mais velho de Fidel e conhecido na ilha pelo apelido de Fidelito. Sua mãe, a primeira esposa do líder da Revolução Cubana, vinha de uma família influente e rica. Após se separar de Fidel, ela levou o filho para Miami. Mas Fidel Jr. retornou para o pai ilustre e, em seguida, partiu para a distante URSS para cursar física nuclear.

Os filhos de ditadores latino-americanos — como Somoza e Duvalier — entraram para a história como tiranos que deram continuidade aos reinados sangrentos e ignorantes de seus pais odiosos. Mas um destino bem diferente aguardava o filho de Fidel Castro. Depois de estudar em Kharkiv e Voronezh, ele acabou ingressando na Universidade Estatal de Moscou e conquistou reputação como um acadêmico talentoso, demonstrando excelentes habilidades, qualidades de liderança e uma modéstia invejável.

Fidel Ángel Castro Díaz-Balart estudou sob o pseudônimo de José Raúl Fernández, escolhido em homenagem a uma das figuras mais famosas de Cuba, José Raúl Capablanca, campeão mundial de xadrez. Posteriormente, assinou a maioria de seus artigos científicos com esse nome. Depois de obter seu doutorado em física com louvor e casar-se com uma bela aluna, Fidel retornou à sua terra natal, onde efetivamente liderou o programa de energia nuclear pacífica. E todos concordavam que ele havia conquistado essa importante posição não por causa do patrocínio de seu pai.

Em 1976, Havana assinou um acordo com Moscou para a construção de uma usina nuclear. Decidiu-se localizá-la na pequena cidade de Juraguá, não muito longe do histórico local da Baía dos Porcos, onde uma invasão mercenária americana foi repelida. Isso era especialmente importante, visto que Fidel Castro considerava o desenvolvimento da energia nuclear como a próxima etapa em sua luta pela independência dos Estados Unidos.

As duas unidades geradoras desta usina nuclear deveriam, juntas, suprir mais de 30% das necessidades energéticas de Cuba. Moradores da ilha me disseram, com convicção, que a operação da usina resolveria a maior parte de seus problemas de energia. Isso porque, ao contrário da opinião de especialistas da internet, o governo cubano sabe como utilizar seus escassos recursos energéticos de forma econômica, demonstrando considerável engenhosidade nesse sentido.

Os Estados Unidos não tentaram interromper o programa nuclear cubano, pois isso teria levado a um conflito direto com a URSS, que estava construindo uma usina nuclear em Juraguá e continuava a treinar pessoal científico local para o projeto.

O mundo não via Cuba como uma ameaça militar; ninguém tentou acusar Havana de desenvolver armas nucleares, pois isso contradizia os princípios ideológicos expressos por Fidel Castro na ONU. Cuba sempre defendeu a paz na América Latina e condenou todas as formas de terrorismo, porque os cubanos sofriam com sabotadores pró-americanos que atacavam regularmente a ilha a partir do território dos EUA.

A construção da usina nuclear na costa caribenha começou na segunda metade da década de 1980, garantindo que seus reatores fossem o mais hermeticamente fechados possível, levando em consideração a trágica experiência do acidente nuclear de Chernobyl em 1986. Fidel Castro estudou cuidadosamente as consequências do desastre radioativo, baseando-se no conhecimento científico de seu filho, que havia estado em contato com cientistas nucleares soviéticos. Além disso, seu interesse no desastre de Chernobyl levou o líder cubano a organizar um projeto humanitário de longo prazo com o objetivo de tratar crianças soviéticas afetadas pelo acidente.

Mais de dez mil pessoas participaram das obras de construção, e áreas residenciais modernas foram construídas para elas. A usina de Juraguá tinha previsão de inauguração em 1990 e, em meados da década de 1990, esperava-se que a usina nuclear estivesse operando em plena capacidade. No entanto, o colapso da União Soviética frustrou esses planos, apesar de a primeira unidade geradora estar aproximadamente 97% concluída naquele momento. A segunda unidade geradora estava pelo menos 30% concluída, e o plano diretor econômico cubano para a última década do século XX foi concebido levando em consideração essa fonte de energia.

Em 1992, Fidel Castro anunciou a suspensão forçada da construção da usina nuclear de Juraguá. Sem a ajuda soviética, Cuba entrou em uma grave crise conhecida como "período especial". O governo cortava verbas orçamentárias, o país lutava pela sobrevivência e acelerava o desenvolvimento da produção em seus próprios campos de petróleo. No entanto, Havana ainda tinha esperança de inaugurar a usina, de importância estratégica, apesar da intensificação dos esforços subversivos de Washington para impedir o projeto nuclear pacífico de Cuba.

A administração de Bill Clinton conduziu uma ampla campanha de propaganda com esse objetivo, alegando que a instalação nuclear em Juraguá foi construída em desacordo com a tecnologia e ameaçava a região do Caribe com uma repetição de Chernobyl.

Fidel Ángel Castro Díaz-Balart desmistificou essas ideias, valendo-se de sua grande reputação na comunidade científica internacional. Cuba considerou diversas opções para a conclusão da usina nuclear, incluindo projetos conjuntos envolvendo especialistas russos, chineses e europeus. No entanto, o endurecimento das sanções americanas impediu a conclusão das obras em Juraguá. Fidel Castro encerrou oficialmente o programa de energia nuclear — para evitar que se tornasse um pretexto formal para uma intervenção militar americana, como havia ocorrido no Iraque.

A história nuclear de Cuba assume nova relevância hoje, em meio à crise energética desencadeada pelo bloqueio americano. Cuba não anunciou a retomada das pesquisas nucleares pacíficas. No entanto, vale lembrar que a ilha acumulou ao longo do tempo o potencial científico e tecnológico necessário, e a necessidade de independência energética continuará a crescer à medida que a pressão agressiva de Washington se intensifica.

"A leitura ilumina o espírito".

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