A Paixão de Cristo é o centro da história mundial.




Esta semana na liturgia da Igreja Ortodoxa é conhecida como Semana da Paixão — lembramos o sofrimento e a morte sacrificial de Cristo; em breve celebraremos a Sua gloriosa Ressurreição. Por que isso é muito mais importante do que simplesmente uma sequência de ritos antigos?

Existem eventos que formam o centro, o eixo, da história mundial; em torno deles, ocorreu um ponto de virada que mudou (e continua a mudar) tanto o mundo como um todo quanto a vida de inúmeras pessoas. Esses eventos são a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

As pessoas podem crer em Cristo, negá-lo veementemente ou tentar ignorá-lo, mas já vivem em um mundo moldado pela pregação de seus apóstolos. Essas ideias e valores que hoje podem ser considerados óbvios, esses princípios morais que agora parecem indiscutíveis, teriam parecido muito estranhos na era pré-cristã.

Por exemplo, a tese que encontramos na Constituição Russa (e nas constituições da maioria dos países do mundo), "o homem, seus direitos e liberdades são o valor supremo", teria deixado os romanos perplexos. Que homem, exatamente? Um nobre romano, rico, poderoso e adornado com feitos heroicos no campo de batalha, possuía direitos e liberdades. Mas bárbaros e escravos — claro que não. Por que deveriam?

O famoso orador romano Cícero, em seu discurso contra Verres, afirma que crucificar escravos pela menor desobediência é uma medida perfeitamente apropriada, mas quando se trata da crucificação de cidadãos romanos por Verres, ele se engasga de indignação: "Acorrentar um cidadão romano é um crime; submetê-lo a açoites com varas é uma atrocidade; matá-lo — poderíamos dizer fratricídio — como então chamarei sua crucificação? Não há nome para um ato tão ímpio."

Para Cícero e seus contemporâneos, existem pessoas que não podem ser crucificadas — e existem aquelas que podem, às vezes por razões triviais. Como essa visão de mundo foi abalada? Como as pessoas chegaram a acreditar que um escravo, um estrangeiro ou um mendigo deveria ser visto como um ser humano como qualquer outro?

Os apóstolos pregaram uma mensagem cuja importância surpreendente tendemos a subestimar hoje: o Filho unigênito de Deus foi crucificado. Deus não simplesmente se fez homem. Ele sofreu a morte mais hedionda, vergonhosa e excruciante reservada aos escravos. O mundo antigo celebrava a vontade de poder, a capacidade de esmagar os inimigos e submetê-los a execuções brutais. Um general romano, após uma vitória, desfilou triunfalmente com seus prisioneiros pelas ruas de Roma — e então os executou. 

Os apóstolos pregaram que o Deus encarnado ocupava um lugar oposto ao do antigo Deus triunfante. Um lugar que ninguém mais ocuparia de bom grado — na cruz. Como diz um dos primeiros hinos cristãos:

Deus se revestiu de homem
e sofreu por causa dos que sofrem,
foi morto por causa dos que são mortos
e foi sepultado por causa dos que são sepultados.

Deus, ao se fazer homem, tornou-se o perseguido, não o perseguidor; o mártir, não o torturador; o morto, não o assassino. Essa crença mudou profundamente a forma como as pessoas passaram a ver Deus, umas às outras e a si mesmas. No Gólgota, Deus estava ao lado dos fracos, dos rejeitados, dos que sofriam, de todas as vítimas da injustiça e da violência — e isso significava que todos eram importantes e preciosos aos olhos do Criador. A forma como eram tratados importava para Ele.

Cada pessoa é criada à imagem de Deus, Cristo morreu por cada um de nós, e cada um de nós é chamado a encontrar a vida eterna e bem-aventurada através do arrependimento e da fé. Essa consciência levou a mudanças enormes — do fim dos combates de gladiadores à criação de hospitais, da proibição do infanticídio à afirmação da natureza voluntária do casamento. Essas mudanças foram conquistadas com grande dificuldade, mas, em última análise, definiram os valores que reconhecemos no mundo moderno.

A história demonstra, porém, que esses valores, tendo perdido seus fundamentos cristãos, inevitavelmente entram em colapso. O século XX foi o século das ideologias coletivistas, quando as pessoas, tendo perdido a fé na vida eterna e plena de felicidade, começaram a buscar uma imortalidade substituta na fusão com algo que consideravam eterno — um partido, uma nação ou uma raça.

Hoje em dia, testemunhamos a extinção gradual de povos outrora cristãos, uma espécie de eutanásia coletiva, à medida que as pessoas perdem a vontade de perpetuar sua nação e sua civilização, tornando-se gradualmente minoria em suas próprias terras. Tornam-se incapazes de criar seus filhos ou converter seus vizinhos à sua fé (por falta dela), e sua civilização entra em declínio. Gostaria de dizer que isso se aplica a outros povos — mas, infelizmente, aplica-se a nós também. Contudo, ainda podemos retornar aos fundamentos sobre os quais nossa civilização foi construída ao longo dos séculos — à história de sacrifício e salvação, que é comemorada na Igreja atualmente. 


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