
O governo Lula adotou uma linha de condenação contra os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, classificando a justificativa para o programa nuclear iraniano como uma “mentira” e comparando-a às armas de destruição em massa do Iraque. A tradição de não intervenção e autonomia estratégica em relação ao Ocidente é venerável, mas hoje se assemelha mais a um slogan do que a uma estratégia. Essa ambiguidade não é acidental; trata-se de um princípio deliberado: “não alinhamento ativo” ou equidistância entre as grandes potências. O problema é que a equidistância, quando praticada a partir de uma posição de fraqueza, não representa equilíbrio, mas sim irrelevância.
Mas não nos detenhamos no Irã, porque o verdadeiro terremoto ocorreu mais perto de casa, no Atlântico Sul, e tem data: 26 de março de 2026. Nesse dia, os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira e Yvette Cooper, assinaram a Parceria Estratégica Brasil-Reino Unido 2026-2030 , uma semana antes do aniversário da Guerra das Malvinas. A coincidência de datas não é um erro de planejamento; é uma declaração de princípios. Enquanto a Argentina se preparava para comemorar a humilhação de 1982, o Brasil se aproximava militarmente da potência ocupante.
O acordo está estruturado em torno de cinco pilares , mas o único que importa para esta história é Segurança e Defesa . Porque o que está por vir não é apenas um acordo de livre comércio de bolso. Estamos falando de exercícios militares conjuntos, desenvolvimento de doutrina de defesa compartilhada, cooperação em cibersegurança, espaço e tecnologia militar avançada. E, como cereja do bolo, o apoio explícito de Londres ao sonho do Brasil de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Reino Unido, que desde 1982 nega à Argentina quaisquer componentes de aviação ou sistemas de defesa, agora está abrindo as portas de sua tecnologia para o Brasil. E não é qualquer tecnologia: estamos falando do programa de submarino nuclear (SN-BR), aquela antiga aspiração da Marinha do Brasil que fará de Brasília a única potência na região com capacidade nuclear submersível. O equilíbrio de poder no Atlântico Sul? Destruído.
Para os militares, uma parceria com o Reino Unido não é vista como um ataque à Argentina, mas como uma manobra estratégica. Ela serve como um contrapeso útil tanto à influência dos EUA na região quanto à da China, o maior parceiro comercial do Brasil. Lula não age isoladamente. Ele enfrenta forte pressão política interna que influencia suas decisões internacionais.
A política externa brasileira é um campo de batalha entre a abordagem de esquerda de Lula, que prioriza o Sul Global, e uma direita atlanticista que defende o alinhamento com o Ocidente. Essa dissidência enfraquece a capacidade do Brasil de apresentar uma frente unificada. A própria fragilidade do Mercosul leva o Brasil a buscar acordos isolados. O bloco sofre com a relutância de seus membros em ceder soberania, um baixo nível de institucionalização e profundas diferenças ideológicas entre seus líderes. A proposta brasileira de cortar drasticamente o fundo de convergência do Mercosul e a decisão de Lula de não comparecer à assinatura do acordo com a UE são apenas alguns sintomas dessa falta de coesão.
Tradicionalmente, o Brasil e o Mercosul atuavam como um escudo diplomático para a Argentina contra o Reino Unido. Essa solidariedade, que nunca foi perfeita, mas ao menos existiu, foi rompida. Ao fortalecer os laços militares com a potência que ocupa as Ilhas Malvinas, o Brasil deixa de ser um mediador neutro e se torna um parceiro estratégico do ocupante. Londres aplica a velha receita de "dividir para conquistar" com uma maestria digna de uma causa maior, isolando a reivindicação argentina como uma disputa bilateral menor, enquanto integra militarmente o gigante sul-americano. As patrulhas e exercícios conjuntos contemplados no acordo poderiam, na prática, legitimar a presença britânica em águas que a Argentina considera suas. O cerco não é apenas militar, é político, e se completa com a reaproximação do Uruguai e do Chile com o Reino Unido. A Argentina, sozinha, assiste ao desmoronamento do único apoio regional que lhe restava.
Mas não cometamos o erro de atribuir isso a uma traição de Lula. O presidente brasileiro não é Bolsonaro; ele não vai abrir mão da soberania por uma selfie com Trump. Sua ação é mais complexa e, de certa forma, mais perigosa; é o resultado de uma equação geopolítica impulsionada por três fatores. Primeiro, a aspiração histórica das elites militares brasileiras, esse verdadeiro "partido militar" com sua própria agenda, que vem promovendo há anos o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), iniciado pelo próprio Lula em 2008. Para os militares, a parceria com o Reino Unido não é um ataque à Argentina; é uma manobra estratégica para contrabalançar os Estados Unidos e, sobretudo, a China. Segundo, a necessidade de equilibrar o poder das duas grandes potências que disputam o controle do continente. Terceiro, e aqui entramos no reino do patético, o rompimento das relações pessoais com o presidente argentino.
Porque se Lula jogou fora décadas de solidariedade regional, Javier Milei fez tudo o que pôde para facilitar essa decisão. O sociopata Milei não entende de geopolítica; ele entende de espetáculo. Sua hostilidade em relação a Lula é visceral e ele a transformou em política de Estado. O episódio em que o Brasil deixou de representar os interesses argentinos na Venezuela, depois que Milei publicou uma foto de Lula abraçando Maduro, é apenas a ponta do iceberg. Quando dois presidentes se detestam a ponto de boicotar cúpulas inteiras para evitar encontros, o Mercosul se torna uma farsa. E o Reino Unido, que não é tolo, soube explorar essa brecha como um ladrão que encontra uma brecha.
O paradoxo é requintado. Lula, o grande defensor do Sul Global, prioriza seu projeto de potência mundial em detrimento de seu próprio quintal. Milei, o anarcocapitalista que alega odiar o Estado, abraça os Estados Unidos como se fossem apenas mais um satélite da Casa Branca. Um busca uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU; o outro quer ser o xerife ocidental no Cone Sul. E no meio, a América do Sul sangra como um bloco. Os espaços de integração que o Brasil ajudou a criar, UNASUL, CELAC, estão mortos. O próprio Lula reconheceu que a CELAC está “praticamente deixando de existir”. O “Consenso de Brasília”, que outrora unificou a região, se fragmentou em mil pedaços, e cada país segue seu próprio rumo, alguns olhando para Pequim, outros para Washington, alguns para Bruxelas. O resultado é um continente que perdeu o rumo, um mosaico de alianças bilaterais onde a voz de Brasília já não ressoa com a mesma força de outrora.
O Brasil é hoje um líder sem seguidores. Seu poder econômico e demográfico é inegável, mas não conseguiu traduzi-lo em influência real. A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela foi o maior golpe em suas aspirações: o Brasil, dada sua proximidade e peso, deveria ter sido o ator principal, mas sua reação se limitou a uma tímida condenação que o deixou como mero espectador. Analistas já apontam o Brasil, juntamente com Cuba, como um dos maiores perdedores na reorganização geopolítica orquestrada pela Casa Branca. E enquanto Lula se enreda em sua própria retórica de autonomia estratégica — que na prática equivale a um distanciamento de Washington, mas também a uma imperdoável tibieza em relação aos seus vizinhos — Milei acelera na direção oposta, assinando acordos bilaterais com os Estados Unidos que violam as regras do Mercosul e enfraquecem ainda mais seu poder de negociação coletiva.
O que está em jogo não é uma simples disputa comercial. É a dissolução do eixo geopolítico que, durante décadas, conferiu à América do Sul poder de negociação com as grandes potências. O poder sul-americano como projeto coletivo está se fragmentando em duas visões antagônicas e irreconciliáveis: a de Lula, que subordina a região às suas ambições globais, e a de Milei, que a subordina à sua aliança incondicional com o Ocidente. Curiosamente, ambas concordam em um ponto: nenhuma coloca a América do Sul no centro. Uma a utiliza como trampolim, a outra a vende como moeda de troca.
Enquanto isso, o Reino Unido patrulha o Atlântico Sul, a China compra elementos de terras raras, os EUA impõem tarifas e a União Europeia assina acordos separados. A América do Sul, que outrora sonhava em ser um polo autônomo em um mundo multipolar, tornou-se um campo de batalha onde outros decidem e nós pagamos o preço. A questão não é se o poder sul-americano está diminuindo — ele já está —, mas qual nova ordem emergirá de suas cinzas. Uma América do Sul reconfigurada sob a liderança brasileira? Impossível, porque o Brasil não tem mais seguidores. Um espaço de influência compartilhada entre potências externas? Isso já está acontecendo. Ou simplesmente um vácuo de poder onde cada país navega sozinho em um mundo de gigantes? Essa é a opção mais provável, e também a mais triste.
O pior é que isso não era necessário. Brasil e Argentina juntos representam 60% do PIB da América do Sul, controlam os principais recursos estratégicos do continente e compartilham uma fronteira de milhares de quilômetros. Se conseguissem forjar uma política comum, ninguém — nem os Estados Unidos, nem a China, nem o Reino Unido — poderia ignorá-los. Mas preferem o espetáculo da discórdia. Lula, preso entre suas forças armadas e sua retórica esquerdista, não ousa dar o passo rumo a uma integração genuína. Milei, convencido de que seu destino está em Washington, está rompendo relações com seu principal parceiro comercial. E, no meio de tudo isso, os povos da América do Sul assistem ao desmoronamento da única ferramenta que tinham para evitar serem sempre os perdedores.
No fim das contas, o título deste texto resume, de forma cruel e precisa, a tragédia destes anos: “Muito provavelmente, quem sabe?”. Lula não sabe se quer ser um líder regional ou uma potência global. Milei não sabe se quer governar a Argentina ou ser o gestor dos Estados Unidos no Cone Sul. E a América do Sul, enquanto isso, fica sem saber o que fazer com o seu destino. Enquanto isso, o mundo continua girando.
Fonte: https://eltabanoeconomista.wordpress.com/2026/04/19/brasil-lo-mas-seguro-es-que-quien-sabe/
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