Hoje, o yuan está ganhando terreno em áreas-chave do sistema financeiro global, e está fazendo isso com ferramentas próprias que estão alterando o funcionamento tradicional dos pagamentos internacionais.
Uma mudança clara na estratégia chinesa:
a posição oficial de Pequim evoluiu. O Banco Popular da China e o 15º Plano Quinquenal para o período de 2026-2030 delineiam um roteiro muito mais ambicioso. O objetivo é avançar rumo a um sistema monetário em que o peso do yuan esteja alinhado ao da economia chinesa.
Essa nova fase é sustentada por diversas linhas de ação. Uma das mais significativas é a promoção do yuan digital, ou e-CNY, que, desde janeiro de 2026, também funciona como um depósito digital com juros e está sendo ativamente promovido para transações internacionais. Isso permite transações sem depender de infraestruturas financeiras dominadas por países ocidentais.
Ao mesmo tempo, a China está fortalecendo sua própria rede de pagamentos. O CIPS (Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços) continua a expandir seu alcance, com mais bancos se conectando de fora do país. O uso do yuan também está sendo incentivado no comércio de commodities e em acordos com parceiros estratégicos, especialmente no âmbito do BRICS e da Iniciativa Cinturão e Rota.
Simultaneamente, os investimentos em yuan estão sendo facilitados por meio de instrumentos como os Panda Bonds (títulos de dívida denominados em yuan emitidos por entidades estrangeiras) e reformas destinadas a atrair capital estrangeiro. Tudo isso é acompanhado por uma política de estabilidade cambial para evitar flutuações bruscas que possam desestimular seu uso.
O verdadeiro avanço no comércio internacional
Analisando dados conhecidos, como os da SWIFT, o papel do yuan pode parecer limitado. Sua participação de mercado gira em torno de 2,7%, o que o coloca em sexto lugar globalmente.
Mas esse cenário não reflete o que acontece na economia real.
Lembremos que a SWIFT é a principal rede global de mensagens financeiras, intimamente ligada à dominância do dólar e utilizada na prática como ferramenta fundamental nas políticas de sanções implementadas pelas economias ocidentais.
Voltando ao yuan, seu crescimento mais significativo ocorre no financiamento do comércio internacional. Nessa área, já é a segunda moeda mais utilizada no mundo, com uma participação de mercado de quase 8,5% no início de 2026. Ultrapassou claramente o euro, embora ainda esteja bem atrás do dólar, que domina com mais de 80%.
Isso é importante porque o comércio está no cerne da atividade econômica global. A China, como grande potência exportadora, utiliza sua influência para promover o uso de sua moeda em transações importantes.
Além disso, o ritmo de crescimento tem sido muito rápido. Em poucos anos, o yuan passou de uma moeda marginal a ocupar uma posição de destaque. Essa aceleração surpreendeu muitos observadores.
Dois Sistemas de Pagamento Coexistindo e Competindo:
Para entender completamente o que está acontecendo, é crucial comparar diretamente as duas principais infraestruturas de pagamento internacionais.
A SWIFT continua sendo a rede dominante globalmente, enquanto o CIPS é o sistema implementado pela China para operar em yuan. A diferença de escala permanece enorme, mas a taxa de crescimento do CIPS é claramente superior.
Em termos de volume, a SWIFT processa entre 15 e 18 bilhões de mensagens por ano, em comparação com cerca de 7 a 8 milhões de transações no CIPS. No entanto, o valor total liquidado reduz significativamente essa diferença, com a SWIFT processando uma média de aproximadamente US$ 400 bilhões a US$ 500 bilhões por dia, enquanto o CIPS movimenta entre US$ 100 bilhões e US$ 120 bilhões. Embora a SWIFT processe duas mil vezes mais transações do que o CIPS em termos de volume de mensagens, essa diferença é reduzida para apenas quatro vezes em termos econômicos.
Esses números revelam uma diferença estrutural significativa. O SWIFT funciona como uma rede global de mensagens que abrange todos os tipos de pagamentos, desde pequenas transações até grandes transferências. O CIPS, por outro lado, concentra-se em transações de alto valor, particularmente em setores como energia, commodities e infraestrutura.
Portanto, embora o número de transações seja muito menor, o impacto econômico de cada transação é significativamente maior.
Além dos Dados Tradicionais:
Um erro comum na análise desse fenômeno é focar exclusivamente no SWIFT, pois, embora essa rede desempenhe um papel central, ela não abrange toda a atividade.
Uma parcela crescente dos pagamentos em yuan contorna esse sistema. Eles são realizados por meio do CIPS, de acordos bilaterais ou dos sistemas internos de grandes bancos. O uso do yuan digital, que permite transferências diretas sem intermediários, também começa a ter impacto.
Quando todos esses canais são levados em consideração, o cenário muda significativamente. O yuan pode representar aproximadamente 6% dos pagamentos internacionais, colocando-o entre as principais moedas do sistema global.
Expansão Geográfica:
O uso do yuan está se espalhando por diversas regiões. A Rússia é um dos exemplos mais visíveis, em parte devido às restrições que limitam seu acesso aos sistemas tradicionais. Mas não é o único.
Em países do BRICS, como Brasil e Índia, seu uso está aumentando no comércio bilateral. No Oriente Médio, alguns produtores de energia já o utilizam em certas transações. No Sudeste Asiático, sua adoção está crescendo organicamente devido à intensidade do comércio com a China.
A Europa também participa, com bancos nos principais centros financeiros atuando como intermediários do yuan. Na América Latina, diversos países estão explorando seu uso como forma de reduzir a pressão sobre suas reservas em dólares.
Os Custos de Cada Sistema de Pagamento:
Além de políticas ou estratégias, a economia está impulsionando essa mudança nos sistemas de pagamento.
Realizar uma grande transferência internacional pelo sistema tradicional pode envolver custos elevados, principalmente devido aos intermediários e à taxa de câmbio. Em muitos casos, esses custos podem ultrapassar dez mil dólares para uma transação de um milhão de dólares.
Em contrapartida, o uso do yuan por meio do CIPS reduz significativamente esses custos. A diferença pode ser de metade a dois terços. Além disso, o tempo de execução é muito menor, caindo de vários dias para menos de 24 horas.
Para empresas que operam com grandes volumes, essa diferença é crucial e impacta a eficiência operacional.
O uso do yuan em transações internacionais está ganhando impulso, sustentado por respaldo econômico real, infraestrutura própria e uma rede de parceiros em constante expansão. Esse impulso não é circunstancial, mas reflete uma lógica estrutural na qual o peso financeiro de uma moeda tende a espelhar o tamanho da economia por trás dela. Nesse contexto, é razoável pensar que a expansão do yuan continuará até que ele se aproxime da posição que a China ocupa na economia mundial.
Pedro Barragán. Economista, consultor da Fundação Cátedra China e autor do livro "Por que a China está vencendo".
"A leitura ilumina o espírito".
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