Dr. Strangelove e os impasses da guerra no Irã



Por KRISTIAN FEIGELSON*
aterraeredonda.com.br/

A guerra confronta o Pentágono com um princípio de realidade com um adversário que resiste fortemente – contra uma armada americana considerada invencível – e desacredita todas as declarações anteriores de Donald Trump sobre a não intervenção dos EUA

A guerra contra o Irã lançada pelos Estados Unidos, ao lado de Israel, a partir de junho de 2025, seguida de uma nova ofensiva em 28 de fevereiro desse ano, transcorreu numa situação de evidente falta de preparação, sem mandato das Nações Unidas nem aprovação do Congresso. Que balanço podemos fazer diante dos objetivos anunciados por um presidente americano que, ainda recentemente, prometia pôr fim aos conflitos e se apresentava como um pacificador, mas que evoca irresistivelmente o filme Dr. Strangelove de Stanley Kubrick?

Neste filme rodado em plena Guerra Fria (1964), um general da Força Aérea dos EUA, tomado por uma loucura paranoica, lança um ataque nuclear massivo contra a URSS. E há, de fato, um certo ar dos anos 1960 em algumas das declarações proferidas por Donald Trump nos últimos tempos. Ao celebrar os sucessos de sua operação Epic Fury em declaração à nação em 1o. de abril, ele retoma uma frase famosa do general Curtis LeMay durante a Guerra do Vietnã: “We’re going to bomb them back into the Stone Age”.

Curtius LeMay, lembremos, tinha sido o promotor de todos os bombardeios intensivos sobre o Japão e das operações atômicas de agosto de 1945 sobre Hiroshima e Nagasaki. Após a guerra, envolveu-se na política ao lado do candidato segregacionista e extremista George Wallace nas eleições presidenciais de 1968. Quando Donald Trump ameaça reduzir o Irã “à Idade da Pedra”, inscreve-se explicitamente nesse imaginário.

Mas a ameaça ainda paira no ar, um cessar-fogo interrompe as hostilidades (exceto no Líbano, onde se intensificam), antes do início das negociações, para que, ao final, venhamos a saber que o negociador-chefe, o vice-presidente J. D. Vance, já tinha deixado Islamabad na manhã de domingo. De ultimatos em ultimatos, até ao ponto de se considerar a destruição das infraestruturas civis iranianas, de invectivas em invectivas contra os opositores, como avaliar o alcance dos discursos americanos? E como medir os impasses diplomáticos, políticos, militares e econômicos daí resultantes?

Esta guerra já não se insere numa lógica preventiva como a que Israel conduziu no Líbano (2023-2024), visando desmantelar as infraestruturas do Hezbollah. Ela também não se assemelha à breve ofensiva de junho de 2025, durante a qual Israel conseguiu neutralizar várias figuras-chave do programa nuclear iraniano. Hoje, apesar de um frágil cessar-fogo, ela contribuiu para a destruição de numerosos centros industriais e estratégicos, numa lógica de terra arrasada que ultrapassa amplamente o território iraniano.

Impasse diplomático

Em 20 de março, Donald Trump afirmou que, após ataques direcionados contra a cadeia de comando iraniana, “já não restavam líderes com quem falar”. Embora grande parte do estado-maior e das elites políticas tenha sido dizimada, estas foram rapidamente substituídas, especialmente por Mohamed Bagher Ghalibaf e Mohamed Bagher Zolghadr, figuras provenientes dos Guardas da Revolução (Pasdarans). Ambos, artífices das violentas repressões no Irã, são, aliás, defensores de uma linha dura para salvar o regime islâmico.

De 1979 a 1982, estes Pasdarans contribuíram para combater violentamente todas as oposições políticas a Ali Khomeini, antes de se transformarem em verdadeiras unidades militares de elite durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988), para depois intervir no Líbano, no Iraque e na Síria. Estas guerras sucessivas contribuíram para sua formação, a fim de preparar o Irã para este tipo de conflito assimétrico que hoje se desenrola em seu território.

Como, neste contexto de intransigência mútua, reinterpretar a ideia de possíveis negociações quando Donald Trump lança ultimatos a Teerã para tentar reabrir o estreito de Ormuz, sob pena de novos ataques contra as infraestruturas energéticas do país? Ameaças seguidas de novas reviravoltas, nas quais celebra “discussões muito boas e construtivas”, para justificar o adiamento de próximos ataques contra infraestruturas civis já iniciados e proclamar um cessar-fogo precário. Ao mesmo tempo, as autoridades iranianas minimizavam qualquer negociação real.

À primeira vista, uma sequência diplomática suscita debates contraditórios. Na verdade, revela um mecanismo mais sutil, de uma diplomacia que desenvolve simultaneamente dois regimes de discurso aparentemente incompatíveis, mas que, antes, são complementares. Estas duas proposições – “não há negociação” e “estão em curso discussões construtivas” – podem, no atual contexto de guerra, parecer plausíveis.

Desde que se compreenda que o que está em jogo aqui não é uma negociação formal, mas uma circulação de mensagens indiretas a serem decodificadas para buscar possíveis compromissos em torno do estreito de Ormuz bloqueado e das infraestruturas energéticas bombardeadas. Em outras palavras, uma diplomacia de fachada enquanto as ofensivas militares prosseguem de ambos os lados, para além do próprio Irã, em todo o Oriente Médio afetado por esta nova guerra.

Para os dois principais protagonistas, trata-se de criar uma nova racionalidade numa situação que ameaça degenerar a qualquer momento numa nova guerra mundial incontrolável.

Se a negociação torna-se um verdadeiro desafio a longo prazo, em Washington ela constitui uma alavanca para fazer avançar uma situação militarmente bloqueada um mês após o início da ofensiva americano-israelense. Defender a negociação permite estabilizar os mercados de energia duramente afetados, produzir um efeito de apaziguamento e transformar um impasse militar num sucesso político.

O anúncio de “discussões construtivas” funciona, em primeiro lugar, como um sinal dirigido à economia mundial para os aliados dos Estados Unidos, num momento em que estes se encontram consideravelmente isolados nesta nova guerra. O impacto regional desta guerra apenas reforça a rejeição generalizada de que são alvo em todo o Oriente Médio, à hostilidade das populações, junta-se, agora, a desconfiança dos dirigentes.

Em Teerã, pelo contrário, a mesma palavra “negociação” assume o significado de um novo custo a suportar. Não apenas um custo em termos diplomáticos, mas um custo no plano simbólico interno. Há anos que o regime iraniano – e, em particular, seus segmentos mais duros – construiu sua legitimidade com base na recusa explícita de qualquer negociação com os Estados Unidos em condições consideradas assimétricas. A negociação está associada à humilhação, à capitulação, ou mesmo à traição da promessa revolucionária original.

No imaginário do núcleo pró-regime, aceitar “negociar” sob pressão americana equivaleria a reconhecer que a estratégia de resistência – central na narrativa política da República Islâmica – teria fracassado, num momento em que este regime enfraquecido se encontra em apuros. São precisamente estes grupos, qualificados de “duros”, que se definem como os guardiões de uma linha de intransigência, sem reconciliação nem normalização, mas também sem retorno a uma ordem internacional percebida como hostil em relação a eles.

Neste contexto, o poder iraniano encontra-se preso numa dupla pressão interna. Pode, simultaneamente, ajustar suas posições, enviar sinais, explorar canais indiretos, mas não pode, sem custos políticos imediatos, falar de verdadeira “negociação”, tanto mais que todas as vias diplomáticas clássicas parecem estar rompidas.

Esta discrepância gera uma série de paradoxos. Os Estados Unidos praticam uma diplomacia declarada para expor e narrar suas diversas promessas. A cobertura midiática desta guerra nos Estados Unidos permite reforçar temporariamente a posição de Donald Trump junto de suas redes conservadoras. Os bombardeios atuais, seguidos do desaparecimento do guia supremo Ali Khamenei, que era a pedra angular do sistema político iraniano, fazem parte dessa narrativa.

O Irã, visto como um “mal absoluto” pela administração de Washington, funciona ainda hoje como um espelho distorcido do “Satanás americano” elaborado desde 1979 pelos aiatolás, após o fracasso militar dos americanos que vieram libertar seus reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em abril de 1980. Mas, antes das cruciais eleições intermediárias nos Estados Unidos, assistimos a uma reviravolta progressiva de uma parte do eleitorado MAGA, desapontado com estas manobras, acompanhada por grande crescimento de um movimento antiguerra.

Não é certo que Donald Trump consiga fazer o Congresso aprovar a continuação desta guerra, tal como previsto pelos mecanismos constitucionais americanos. Nem que uma parte dos republicanos, sabendo que ele está em dificuldades, deseje segui-lo. Ainda mais porque a Casa Branca solicitou ao Congresso que aprovasse um aumento de cerca de 40% nas despesas com a defesa, ou seja, 445 bilhões de dólares, no âmbito de um orçamento militar astronômico já estimado em 1,5 trilhão de dólares no próximo orçamento de 2027, em detrimento de outras despesas consideradas prioritárias. O custo destas primeiras semanas de guerra está estimado em 500 milhões de dólares por dia.

Diante dos americanos, o Irã continua praticando uma diplomacia de dupla-linguagem, que consiste em agir sem realmente dizer nada, ajustando suas próprias estratégias de sobrevivência sem querer reconhecer nada. Algo que, aliás, ficou patente no passado nas negociações internacionais sobre o programa nuclear iraniano, que, apesar de estarem perto de um desfecho esperado, continuavam encontrando obstáculos. Mas neste espaço hoje muito mais perigoso e restrito, cada um joga com o tempo em torno de dois registros simultâneos: um registro estratégico real e um registro mais narrativo, ou até mesmo ficcional.

Impasses políticos

A sequência diplomática desenrola-se num contexto de crises políticas e divergências na Casa Branca, especialmente com o establishment militar. A primeira declaração de Donald Trump – “já não há mais alguém com quem falar” – não é tanto uma descrição, mas um instrumento de pressão. Ela dramatiza a situação, acentua a ideia de um ponto de ruptura para preparar um novo aumento da tensão.

Mas quando os efeitos sistêmicos de um ataque contra as infraestruturas energéticas iranianas se tornam evidentes – risco de disparada dos preços, preocupações dos aliados, alertas de organizações como a Agência Internacional da Energia – o discurso reconfigura-se. Passa-se de uma linguagem intransigente de fechamento para uma linguagem mais aberta, que não indica necessariamente um progresso substancial nas discussões.

Para os Estados Unidos, trata-se, acima de tudo, de ganhar tempo, tanto interna como externamente. E isso em termos militares, mas também no plano econômico, para conter os mercados, que reagem de forma muito sensível às urgências de reabastecimento. Wall Street já reagiu à subida vertiginosa do preço do petróleo, o que reflete a profunda preocupação dos mercados financeiros e a incapacidade americana de encontrar saídas reais para esta guerra. Este conflito, militarmente muito dispendioso, tem um custo político nos Estados Unidos.

Por um lado, a guerra confronta o Pentágono com um princípio de realidade com um adversário que resiste fortemente, utilizando drones de baixo custo e eficazes contra uma armada americana considerada invencível. Por outro lado, esta guerra desacredita todas as declarações anteriores de Donald Trump sobre a não intervenção dos Estados Unidos, em nome de sua tradição isolacionista.

A racionalidade estratégica militar deve coexistir com imaginários políticos imprevisíveis que também supostamente a legitimem. É isso que temos assistido nos últimos dias no Irã, durante a destruição massiva de instalações industriais seguidas de danos colaterais irreparáveis, sobretudo em Teerã e na região de Isfahan.

O Irã não só resiste como controla sua narrativa nacional. Os meios de comunicação estão totalmente bloqueados, enquanto as manifestações pró-regime se mantêm, num contexto de repressão e de controle social reforçado sobre os opositores. O Irã continua impermeável a qualquer influência externa. Pelo contrário, a chegada de uma nova linha dura ao poder traduz antes a militarização reforçada do regime em benefício dos Guardas da Revolução, sem dúvida em detrimento dos mulás.[i]

Desde 1979, num contexto de corrupção generalizada, as relações entre esta elite político-militar e o clero xiita sempre foram complexas, devido aos enormes investimentos nos setores de energia e armamento. A guerra traz novas dissensões ao topo de um Estado iraniano enfraquecido sob a ótica de uma reideologização defensiva, mas também testemunha as novas capacidades ofensivas do Irã, tanto em terra como no mar.

Outra vez, as previsões de Donald Trump são desmentidas. Ao contrário de Benjamin Netanyahu, que conseguiu uma conciliação nacional em torno desta guerra, Donald Trump, o republicano, continua hostil ao retorno da monarquia representada pelo filho do xá, Reza Pahlavi, exilado há 47 anos no estado de Maryland e ligado às redes conservadoras americanas e francesas (mas apoiado, sem dúvida, por apenas 20% dos iranianos). Na verdade, os governos americano e israelense não têm nem as mesmas agendas, nem os mesmos objetivos quanto ao futuro do Irã. De seu lado, Israel deseja, acima de tudo, enfraquecer o Irã para garantir a segurança de suas fronteiras com todos os seus vizinhos.

Como preparar, então, uma transição política impossível de realizar a partir do exterior, ao mesmo tempo que se alcança um consenso no interior, tendo que se apoiar em redes informais pouco credíveis hoje em dia, diante da força coercitiva do poder iraniano e do peso das instituições teocráticas criadas após 1979?

O Guia supremo desapareceu, seu sucessor, o filho, continua ausente, enquanto as estruturas do regime, embora vacilantes, conseguem lançar uma guerra ofensiva e intransigente. A imagem distante do filho do Xá, ao mesmo tempo mítica e nostálgica, obriga a criar uma aparência de consenso por trás de uma aliança heterogênea de opositores desde fevereiro de 2023, durante as diversas manifestações de rua. Mas desde o emblemático movimento “Mulher, vida, liberdade”, sem um verdadeiro líder, a ruptura parece consumada com os monarquistas no exílio.

O antigo xá Mohammad Reza Pahlavi continua sendo associado, para gerações de iranianos, a um regime repressivo e subserviente aos Estados Unidos.[ii] O xá do Irã foi incapaz, em sua época, de modernizar profundamente o país e teve que ceder o lugar aos aiatolás, que radicalizaram o país no dogma religioso e no terror policial, embora a sociedade iraniana urbanizada e instruída tenha sofrido uma profunda transformação ao longo de duas gerações.[iii]

Mas a história política do Irã testemunha modelos autoritários, principalmente antes, mas também depois de 1979. Tanto mais que, na cultura político-religiosa associada ao regime dos mulás, a figura do mártir (shahîd) morto em combate e pilar do xiismo constituiu o motor dessa resiliência nacional. Esta figura foi central durante as mobilizações populares da revolução khomeinista contra o xá em 1979 e, posteriormente, durante a guerra contra o Iraque (1980-1988), onde o sacrifício do milhão de soldados mortos na frente de batalha reavivou a memória do profeta Hussein em Karbala, em 680. Esta figura do mártir-combatente é onipresente no espaço público e representa um poderoso fator de coesão nacional, em que uma morte trágica testemunha, acima de tudo, uma vitória moral.

As instituições iranianas, aliás, sobreviveram muito bem à liquidação, através dos bombardeios israelo-americanos, da precedente equipe dirigente, já rapidamente substituída no terreno, enquanto a repressão continua no Irã. Nas grandes cidades, os Bassidj, unidades encarregadas da manutenção da ordem, são compostas por jovens menores armados com fuzis AK-47 para manter o controle social e complementar os 150.000 combatentes mobilizados ao lado dos 200.000 Guardas da Revolução.

Como é possível, então, fazer coexistir hoje diferentes tendências inconciliáveis numa sociedade diversificada mas dividida, ainda profundamente marcada pelos últimos massacres de civis perpetrados pelos Guardas da Revolução em janeiro de 2026 e num momento em que se avizinham todos os perigos de uma guerra civil? Quais são os caminhos para uma verdadeira transição democrática, quando a guerra empurra o país para uma série de novos impasses?

Impasse econômico e militar

Neste contexto, o bloqueio do estreito de Ormuz torna-se não só um desafio logístico, mas também um instrumento para criar tensão no sistema global. De ambos os lados, as estratégias parecem convergir para uma lógica semelhante de escalada, sem que possam contê-la. Do lado americano, trata-se de aumentar a pressão para obter uma concessão limitada em torno de uma desescalada parcial com a reabertura de Ormuz, suscetível de ser posteriormente convertida numa vitória política.

Do lado iraniano, trata-se de conservar esta arma essencial para perturbar a economia mundial sem pagar um preço elevado, ou seja, manter a capacidade de causar danos através do bloqueio de cerca de 25% da produção mundial de petróleo no Golfo Pérsico.

O Irã consegue, de fato, evitar um confronto demasiado direto e desigual com o exército americano, que prejudicaria a si próprio, deslocando o conflito para as rotas marítimas, ou seja, as rotas comerciais da economia mundial ligadas ao petróleo. Não apenas, pois Teerã atualmente está conseguindo isso, mas, graças a este bloqueio, ajuda diretamente seu aliado russo com o aumento do preço do barril para 100 dólares.

Resta que a China, principal cliente do Irã, não poderá permitir que uma situação inflacionária se prolongue em seu detrimento. Mas a China torna-se, então, para os Estados Unidos, outro instrumento de pressão para exercer influência sobre o Irã no abastecimento de petróleo. Toda uma série de encadeamentos que a administração  de Donald Trump, tão segura de seu poderio militar em todas as frentes, embora hoje confrontada com um clima econômico moroso nos Estados Unidos, sem dúvida não tinha previsto concretamente.

Se o objetivo de vencer militarmente esta guerra pode parecer irrealista para o Irã no momento, o de torná-la mais dispendiosa e difícil para os Estados Unidos e seus aliados torna-se um cenário plausível. Em tempos de paz, cerca de uma centena de navios atravessam diariamente o estreito de Ormuz (33 km de largura), partindo dos países do Golfo para abastecer o mundo. Do Golfo Pérsico até o Mar Arábico corresponde hoje não só a uma zona marítima de 200.000 km², mas a uma verdadeira plataforma industrial offshore, com refinarias e oleodutos submarinos ao longo de quase 1.500 km de costa.

O que está em jogo hoje ultrapassa, portanto, o simples Oriente Médio, considerando os efeitos deste bloqueio do comércio mundial. A propaganda iraniana, num ciclo já bem rodado, apresenta novas mentiras estratégicas, para além de uma guerra clássica de desinformação. Logo no início da ofensiva, em 28 de fevereiro passado, o ministro das relações exteriores iraniano afirmou numa mensagem direcionada: “Mantivemos o alcance de nossos mísseis abaixo dos 2.000 km”. No entanto, desde então, o Irã demonstrou ser capaz de atingir bases americanas em Abu Dhabi, depois na Arábia Saudita e no Kuwait, quase duplicando a distância (4.000 km) de seus mísseis.

Especialmente durante o recente ataque à base americana de Diego Garcia, no meio do Oceano Índico, um ponto isolado, mas estratégico de apoio e reabastecimento de navios na rota para o Golfo Pérsico. De fato, a Europa encontra-se hoje ao alcance dos mísseis iranianos. Apesar das enormes perdas financeiras e humanas na região, o conflito ultrapassou, assim, as fronteiras do Irã, desmentindo a ilusão de que as plataformas financeiras no Dubai e no Qatar estariam a salvo.[iv]

A Arábia Saudita, principal vetor do wahabismo na região, hostil ao Irã xiita, o qual também tem como alvo suas infraestruturas petrolíferas, procura agora libertar-se do domínio americano. A leste, os curdos sunitas, dos quais 12 milhões vivem no Irã, numa região fronteiriça estratégica bombardeada diariamente pelos americanos e pelos israelenses, desempenham um papel igualmente determinante. Os curdos continuam sendo a única força armada que se opõe ao regime iraniano. Coordenados em cinco entidades políticas, opõem-se tanto ao regime iraniano, que lhes negava qualquer reconhecimento coletivo, como aos Estados Unidos, que exigem sua entrada na guerra ao lado deles.

O que está em jogo no Estreito de Ormuz não se reduz à passagem ou à escolta de gigantescos petroleiros, mas diz respeito a um importante problema estratégico regional que opõe muito mais do que uma potência marítima dominante a uma potência regional muito mais fraca, capaz de bloquear o estreito com meios simples como minas ou drones, mísseis de longo e médio alcance.

O Irã, sem uma verdadeira força aérea nem navios de guerra, lança estes ataques bem direcionados e eficazes no terreno. E a força naval americana estacionada nas proximidades demonstra atualmente sua vulnerabilidade, como ficou recentemente patente no ataque por um míssil iraniano contra o porta-aviões nuclear SS Lincoln no mar Arábico. Os americanos estão agora enviando novas tropas terrestres para apoiar seus 50.000 soldados presentes na região, enquanto os iranianos continuam colocando minas submarinas dificilmente detectáveis para bloquear o acesso ao estreito.

Como comentou o general francês Michel Yakovleff, ex-vice-chefe do Estado-maior da OTAN: “Não existe solução militar para o estreito de Ormuz”.[v] Esta guerra não pôde garantir a segurança desse estreito e os Estados Unidos revelaram-se incapazes de controlar um território sem enviar tropas terrestres, optando por bombardeios aéreos massivos. Sem uma verdadeira estratégia a longo prazo, esta nova guerra já causou mais de 5.000 mortos civis no Oriente Médio, mas não cumpriu nenhum de seus objetivos iniciais. Pelo contrário, até à data, o regime iraniano não cedeu, e continua espalhando caos para além de suas fronteiras, bloqueando uma passagem econômica essencial, em resposta à escalada americana e israelense.

Quais perspectivas?

Ao que parece, os americanos também não tiraram qualquer lição verdadeira de seus anteriores fiascos no Iraque (1991), Afeganistão (2002), Líbia (2011) e Iêmen (2017).[vi] A síndrome do Vietnã nunca se afastou, uma vez que uma superpotência militar jamais garantiu uma vitória total. E a ilusão da força militar também nunca resolveu todos os impasses diplomáticos ou políticos. É de esperar que as fases seguintes deste teatro sejam ainda mais imprevisíveis, mais instáveis, até mesmo mais caóticas.

Os dispositivos militares assentam, na realidade, em equilíbrios políticos precários, tendo como pano de fundo desafios econômicos que se tornaram graves. No plano diplomático, o risco central não é tanto a intenção de escalada, mas o erro de interpretação. Tanto mais que, em ambos os campos, cada gesto é interpretado através de chaves de leitura muito diferentes, frequentemente baseadas em mal-entendidos iniciais e hoje fora de qualquer possibilidade de mediação por parte da comunidade internacional.

Apenas o Paquistão propôs, até o momento, acolher negociações entre os EUA e o Irã em torno do plano de paz de 10 pontos proposto pelo Irã, que exige garantias de segurança não respeitadas em negociações anteriores. Apesar do frágil cessar-fogo atual, cada parte beligerante apresenta sua versão da realidade, compatível com seus constrangimentos internos e seus objetivos externos, para justificar uma guerra cujo desfecho é extremamente incerto.


*Kristian Feigelson é professor de sociologia na Universidade Sorbonne Nouvelle. Autor, entre outros livros, de La fabrique filmique: métiers et professions (Armand Colin). [https://amzn.to/4sSlq3F]


Notas


[i] Ver, a este respeito, a análise sociológica aprofundada feita por Stéphane A. Dudoignon, Les Gardiens de la Révolution islamique d’Iran, Paris, CNRS éditions, 2022.

[ii] Ver Iran Ciné Panorama, 12 de janeiro de 2026, “Le vertige de l’Histoire”, por Bamchade Pourvali.

[iii] Cf. Bernard Hourcade, Géopolitique de l’Iran. Les défis d’une renaissance, Paris, Armand Colin, 2016. E “Quelle relève pour l’Iran?”, Le Monde Diplomatique, março de 2026.

[iv] Ver o artigo esclarecedor de Stéphane Audrand em https://legrandcontinent.eu/fr/2026/03/17/tactique-bataille-ormuz/.

[v] Cf. Michel Yakovleff: “Avec des victoires comme celles-là, l’Amérique n’a pas besoin de défaites” em Le Figaro, 2 de abril de 2026.

[vi] A respeito disso, ver a análise do Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional sobre o fracasso da “Light Footprint” aplicada no Iêmen, doutrina de Obama que pretendia, após 2012, promover apenas apoio logístico e uma supervisão militar no terreno, em detrimento das pesadas políticas intervencionistas de Bush no Oriente Médio. ANAJ-IHEDN, março de 2018.


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